quinta-feira, 31 de julho de 2008

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 3



Desço as escadas com dificuldade de cego. Poderia ficar enclausurada com a minha paranóia, as minhas loucuras, remoendo fiapos dos meus retalhos, não consigo. Ando pelas ruas, sinto cada buraco perfurando as solas dos meus sapatos, os meus velhos passos sempre me perseguem. Aonde se enfiou aquele imbecil? Sei que nunca irei achá-lo, nem sei se quero e ainda que o achasse, ele me negaria 3 vezes, como Pedro negou a Cristo. A velha grita feito uma histérica. Não posso matá-la, nem sequer esfaqueá-la.

Entro na padaria, não olho para o balcão, não olho para os doces, não olho para os sonhos. Peço um café sem açúcar. Não gosto de café, mas sempre é a primeira coisa que peço quando entro em algum lugar. Um abismo bebido em pequenos goles. Deixo um fundo na xícara. Abismos água abaixo. Não vejo a cara da balconista, me levanto e esbarro em uma mesa. Meu impulso é sair sem pagar, me controlo. Sempre reservos notas de um real no bolso, é mais fácil, não preciso esperar o troco, nem brigar por tentativas de pequenos roubos. Nunca confie num homem atrás de uma máquina registradora.

Saio depressa, o sol bate com violência no meu rosto, quer me espofetear. Ignoro, existem coisas que consigo ignorar. Na praça a fonte espirra uma água verde e calma, é o rio que insiste em nascer no meu antigo quintal. Crianças em roda jogam moedas. Cara ou coroa? Já me esqueço do limbo escuro do Vale dos Suicidas.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 2


Um zunido penetra no meu ouvido. Milhares de enormes moscas azuis invadem minha cabeça. Minha vó rezando o terço. Meu pai me enforcando com o antigo escapulário. O corpo de Cristo apodrecendo em cima da mesa: comerás e beberás do meu Corpo... A colcha de retalhos parece abismos atravessando meus dedos. O almoço esfria na mesa. Não tenho fome. Fico imaginando o clique da sua máquina. As poses insinuantes daquelas putas oferecidas. E ainda a culpa é minha, a paranóica sou eu. Ninguém tem culpa das suas loucuras. Ninguém pode fazer nada se você é uma cega, uma topeira estúpida! Risos lunáticos escorregam pelas paredes. Aquela velha louca não pára de falar. Fala feito papagaio. Tenho vontade de descer correndo as escadas, invadir o estúdio, pegá-lo no flagra. Impossível, ele me mataria depois. Falaria sobre distúrbios, daria exemplos trágicos de romances destruídos pelo ciúmes doentio. Novamente eu sairia perdendo feito cachorro pequeno atrás de osso grande. Sairia pisando num chão molhado e escorregadio, o mesmo chão que tantas vezes enxuguei sem resultados. Ele diria que qualquer imbecil pode ver o que me recuso a enxergar - ele é sempre tão mais do que eu!!! - não se pode capturar um gato selvagem e exigir dele modos civilizados. É incoerência.



Enquanto isso em meu antigo quintal o pássaro negro compõe canções do inferno. O sol bate nos talheres, parece cegar nossas vistas, ou o resto dela. E lá fora, o rio verde e calmo afoga meus inimigos. Um limbo denso e escuro aparece sobre minhas mãos. Não tento removê-lo.



sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 1



Quem pode adivinhar o tamanho dos meus abismos? A dor do ciúmes que eu esmago todas as noites entre meus dedos. É minha oração diária, uma queda brusca de estrelas. Caranguejos devorando defuntos na lama escura do meu rio. Últimas vítimas do vale dos suicidas. Verde e calmo ele atrai almas fracas. Viagem insólita em minhas margens. O rio que despenca no meu corpo mais parece o mar em suas piores ressacas.

Ele nunca entenderá. Ele é bom em objetos estáticos. Conhece apenas os movimentos das fotografias secando no varal. E eu aqui, estendida na beira do leito. Pensa existir um movimento perfeito para ser captado. Não acredita no acaso. Quando não gosta do que foi registrado, rasga, parte pra outra, outras. Ele acha que devo fazer o mesmo com o meu ciúmes, manuseá-lo e depois rasgá-lo, como se faz com um recibo velho. E eu, tão saudosista...

E essa velha louca não consegue calar a boca. Meu Deus! Quanta besteira! A sua voz tem uma entonação insuportável. Minha cabeça ferve como um caldeirão. Ela não percebe. Ela não consegue enxergar nada além de si mesma no meio do caminho.

Enquanto isso o carvalho submerge. O rio se cobre de um musgo verde e calmo.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ROMANCE


AGUARDEM QUE, EM BREVE, O ROMANCE VIRÁ:

MOSAICO DE RANCORES

Here, there and everywhere


Um voyer, um viajante, peregrino e inabitável em uma cidade conhecida. Um novo gato num velho telhado. Foi assim que me senti. Cada paralelepípedo parecia ilusório e impalpável! Como se de repente as pedras criassem asas. Não me admirei das coisas novas, das novas casas, das novas janelas, das novas árvores. Me admirei pelas coisas antigas, que ainda permaneciam lá, intactas,como se nem Deus e nem o vento fosse capaz de arruiná-las. Os mesmos rostos, feridos pelas mesmas rugas. Os antigos fantasmas, agora despertados pelo toque curioso dos meus dedos. Ah! Os meus dedos! esses já não são novos, já tocaram outras histórias, desvendaram outros mistérios, já penetraram fundo em outras chagas! Algumas incuráveis , outras o tempo se encarregará de agravar.

Estou indo embora de malas cheias, mas sei que alguma coisa ficou.

Abro a porta da minha nova casa. Os meus novos fantasmas estão lá, com um sorriso branco, irônico e pouco complacente na cozinha, eles tomam café e uma antiga lembrança escapa fresca pela garrafa.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PIANISTA BOXEADOR



Entrem no blog do pianista boxeador e leiam o conto Porque delas é o reino dos céus, eu adorei, é simplesmente fantástico!


Em breve neste blog: Romance em retalhos



Em breve farei um romance que será postado por capítulos. Por favor acompanhem.

Poema: Entre mundos e desertos



É bom rever o passado,

todas suas ruas e becos,

as escadarias, os templos profanos,

os pequenos labirintos - memória de Ariadne...

as placas de contra-mão

e até mesmo aquela encruzilhada

que não trouxe o tempo perdido de volta.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Olhos de ver


Eu acredito que o artista veja além do que lhe é mostrado, e você consegue enxergar?

Conto: You've got a friend

When you're down and troubled
And you need a helping hand
And nothing, whoa nothing is going right.
Close your eyes and think of me
And soon I will be there
To brighten up even your darkest nights.
(James Taylor)

- É preciso sacrificá-lo.

A vela queimava devagar, respeitando as tristezas que o meu avô ruminou tentando se equilibrar nas incoerências do mundo. Seus amigos faziam silêncio, cada um deles imaginando o dia de seu próprio velório. Comentam que a morte chega mais cedo para os bons. Não digo nada. Na minha mente dança o retrato do moço que nunca conheci, reparo que o bigode é o mesmo e me pergunto como um homem pode passar cinqüenta anos cultivando os mesmos sonhos. Olho para aquele rosto irreconhecível. Quando a alma sai do corpo, ele se transforma numa massa amorfa e inexpressiva, como se as lembranças fossem as únicas responsáveis pelas nossas rugas.
Se o cão do meu avô estivesse vivo, com certeza reviraria sua cova fresca, abocanharia o caixão, desabotoaria seu colarinho, tiraria seu paletó, roçaria seu peito fraco de velho e lamberia suas mãos de morto, que ainda assim guardariam antigos carinhos.

A primeira vez que a vi, ela desmanchava pequenos torrões de terra com a ponta dos dedos. Não havia beleza em seu rosto, no entanto, seu jeito telúrico me comoveu. Encostei no poste e fiquei ali, só observando, absorvendo cada pequeno gesto. O cigarro aceso e o terno de segunda me davam um aspecto de herói de filme americano. Ela jamais soube desse nosso primeiro encontro. Entrei no bar da frente, pedi um salgado e um café. Frio, o café sempre sai da garrafa antes do cliente chegar. Fingi que era bom e engoli de uma vez. Pensei no meu último cigarro de contrabando e achei que só por ser de contrabando deveria ser tragado com mais ardor.

- É preciso sacrificá-lo.

Não entendo. O seu modo de cruzar as pernas e balançar os pés não combinava com a maldade. E os seus olhos... pequenos, redondos, bons. Olhava para os pássaros em suas gaiolas de madeira e via entre eles e meu avô uma imensa semelhança. E depois as pauladas. “... a boca que beija é a mesma que escarra...”.

Meu avô era grande e guardava, numa atitude infantil, o tempo na algibeira.

- É preciso sacrificá-lo.

Todas as feridas em carne viva daquele cão voltam e chegam a arder na minha própria pele. Meu avô fechava a mão e o acariciava com os nós dos dedos, entre as duas orelhas, único lugar não devastado pela desgraça. “É preciso sacrificá-lo...”

Ela jamais suportaria essa morte branca, higienizada. Ela detestava hospitais. Tinha pavor e nojo do cheiro das flores. E o cheiro das flores sempre vem acompanhado do odor podre dos hospitais. Nunca ousei dar-lhe um ramalhete sequer. Odiava as flores. Adorava os girassóis suicidas de Van Gogh.
As visitas entediavam-na, aos poucos, as pessoas deixaram de aparecer. Ou para deixar de incomodá-la ou por puro comodismo. As raras palavras que pronunciava eram:
- Está um cheiro insuportável aqui, deve vir do corredor. A comida é tão ruim que não sei dizer se o cheiro vem do refeitório ou do banheiro.
- Não sinto nada. – eu mentia.
Ela sabia que aquele cheiro forte vinha do seu próprio corpo, sempre na mesma posição. Os banhos eram feitos com um pano úmido. Cada dia mais magra... talvez o monstro que tanto temíamos quando criança, saísse debaixo da sua cama e devorasse toda noite um pedaço da sua carne tenra e amarga.
Suas costas estavam cobertas de feridas, como se o seu corpo tivesse a intenção de escancarar suas mágoas. Um campo de papoulas prontas para serem colhidas.

“- É preciso sacrificá-lo. – decretou o veterinário.” Já não conseguia enxergar tanta perversidade nessa frase.

O relógio do hospital marca 11 horas. Lembro do meu avô e agora apalpo, como se apalpa uma fruta madura, todo o seu medo. Eu também poderia guardar o tempo no bolso – injeto o líquido em seu braço branco.
Hoje sei que meu avô era deveras bom e se o seu cachorro estivesse vivo abriria seu túmulo e colocaria uma flor em sua lapela.
Poderia num acesso de fúria, arrancar os ponteiros do relógio, mas agora é tarde demais e todas as horas são mortas.





segunda-feira, 14 de julho de 2008