sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um artigo do Daniel Souza

Se puderem, entre no http://www.amalgama.blog.br/, tem um artigo maravilhoso do Daniel Lopes, por motivos de força maior, o nome está como Daniel Souza.
Beijos a quem interessar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Para René Magritte



Há dias em que não aparecem

pássaros sobre as árvores

nem lírios nas margens dos rios.

Outros dias, os rios cospem coroas para seus mortos

e os pássaros são arrancados dos ovos

e enclausurados em seus infernos.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Fracionamento


Queria ser simplesmente,

o homem de terno e chapéu,

que passa,

E deixa na esquina mais próxima

um resto de sua sombra

que não coube na mesquinhez do corpo

(um pedaço renegado de alma)




um fiapo de negritude,

preso, apodrecendo entre os dentes

- Indigesto -

jogado no estômago vazio da calçada,

causando uma estranheza

e um insignificante incômodo

nos sapatos atônitos dos pedestres.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 5



- Isso são horas?!

- Como assim? Eu sempre soube que qualquer hora é hora. Deu pra filosofar agora?

- Fique sabendo, Lúcio querido, que não estou com paciência para as suas piadinhas sem graça.

- Imagino mesmo. Afinal, ultimamente você não tem paciência pra nada, a não ser, é claro, ficar remendando seus rancores, enfiando o dedo na ferida.

- A culpa disso tudo é minha, você tem razão! Eu deveria ter ido embora há muito tempo, sou burra mesmo! Sempre arranjo desculpas pra ficar, como se beber café morno e requentado fosse melhor do que não beber nada.

- Se é você quem está dizendo, quem sou eu pra discordar?

- Eu tou cheia disso,você fica me testando o tempo todo, todas essas mulheres, essas poses, esses flashs, essas saídas fora de propósito...cada vez mais as traves me incomodam, eu tropeço em gatos o tempo todo!

- Você está exagerando, fazendo drama, aliás, tramas, é isso que você faz, distorce tudo. Você vê tudo refletido em uma água suja, turva, e as coisas acabam ganhando uma dimensão que não é real. Me lembrei do quadro do Salvador Dalí, sempre quis fotografar aquele quadro Cisnes refletindo elefantes e agora ele está aqui, diante dos meus olhos, completo e cru...indigesto.

- Você chega agora e eu sou a louca? Qual parte do filme eu perdi, porque eu não estou entendendo.

- Nenhuma parte, muito pelo contrário, você sempre acha que o diretor não foi fiel à realidade, que tem algo mais que ele não conseguiu captar através das lentes.Você arma o tripé e você mesmo cai em cima dele.

- Tá.

- Eu sei, realmente é um pouco tarde, eu sei, não discordo. Mas isso é tudo, o resto da história, a seqüência maluca de fotos não existem, você que formou, costurou com suas próprias mãos, como você forma imensas colchas de insignificantes retalhos, sei lá uma nova pintura de Gustav Klimt.

- Não, não são insignificantes retalhos, se fossem não formariam belas colchas.

- Tá bom. Podem até não serem tão insignificantes, mas você os recria, recria sua natureza. Assim como você junta pedaços de clássicos e transforma num drama enorme. Belo pra uma encenação, no entanto ridículo pra nós.

- Você não é capaz de entender, eu não consigo me controlar, às vezes, é tão óbvio que estou sendo idiota, mas sempre enxergo isso tarde demais... as traves, são elas, eu sei.

- Esquece, como alguém já disse, o essencial é invisível aos olhos. Por favor, Dejanira, pelo nosso bem, pára de tentar enxergar o que eu vejo, isso é falta de lucidez, de bom senso! Não estou te enganando, eu não tenho motivos pra isso.

- Você tem pena de mim, só porque eu sou...

- ...pára com isso, ninguém é tão bom a ponto de se autoflagelar pelo bem de outra pessoa. Abre os olhos, você consegue pressentir com facilidade, consegue sentir com as mãos todo o mundo ao seu redor. Você só não acredita no amor que tenho por você, como se eu tivesse te dado um anel de vidro, uma pedra furta-cor.

- Vou dormir, você vem?

- Alguma vez eu disse não?

- Você não ousaria, eu acabaria com você, o fotógrafo de muitas poses.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Daniel Lopes entrevista Daniel Lopes

Já está no blogue do xará de Daniel Lopes, a entrevista que ele fez com o autor de mesmo nome, abordando o lançamento do É preciso ter um caos... e vários outros assuntos relacionados à literatura. Quem quiser conferir e só clicar em: http://www.danielslopes.com/. Acessem também http://www.amalgama.blog.br/ (espero que tenham entendido)

domingo, 3 de agosto de 2008

Morte súbita



Queria descansar

numa aresta qualquer

do seu mundo,

onde sonhos e fadas são reais.


Não consigo,

cavalos brancos e selvagens

correm pelo meu corpo,

meus dedos tecem apenas

mágoa e solidão.


Queria jogar mil rosas

aos seus pés,

mas só enxergo cães mortos,

aqueles que precisei chutar

pra chegar até aqui.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 4



A noite ele chega. Ele sempre chega à noite ou ao meio-dia. É um homem de extremos, logo ele, quem diria, que vive repetindo: "nem tanto o mar, nem tanto a terra, minha querida!". Vive velejando como turista num mar verde e calmo, enquanto eu, com tantas traves atrapalhando meus olhos, estou perdida numa ilha. Solitária como uma ilha, sem nenhum naúfrago para me consolar. Muitos olhos me acompanham, seguem meus passos, riem dos meus tropeços - já não posso evitá-los. A desgraça alheia é indolor, não fede, não cheira.

Cozinho um ovo. Gosto de sentir minha mão deslizando sobre a clara macia. Lembra o rosto da minha irmã. Se o destino não a tivesse traído! Ele apunhá-la a todos pelas costas e nos seus dias de perversidade crava a faca no meio do nosso peito, olhando fundo para nossa falta de alma.

Ele vem calado, como se tivesse engolido um sapo que ainda não foi digerido. Tento ficar quieta, só Deus sabe o quanto o silêncio me custa. A qualquer hora ele pode vomitar barbaridades em cima de mim. Respiro fundo, engulo saliva e palavras. Enormes moscas azuis rondam sua boca, ele as repele sem perceber. Aquela velha continua falando feito uma maritaca. Às vezes, eu preferiria ser surda, mas quedas d'água invadem minha cabeça. Chuva e lama afogam os últimos mortos que repousam no rio verde e calmo que nasce toda tarde no meu antigo quintal.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 3



Desço as escadas com dificuldade de cego. Poderia ficar enclausurada com a minha paranóia, as minhas loucuras, remoendo fiapos dos meus retalhos, não consigo. Ando pelas ruas, sinto cada buraco perfurando as solas dos meus sapatos, os meus velhos passos sempre me perseguem. Aonde se enfiou aquele imbecil? Sei que nunca irei achá-lo, nem sei se quero e ainda que o achasse, ele me negaria 3 vezes, como Pedro negou a Cristo. A velha grita feito uma histérica. Não posso matá-la, nem sequer esfaqueá-la.

Entro na padaria, não olho para o balcão, não olho para os doces, não olho para os sonhos. Peço um café sem açúcar. Não gosto de café, mas sempre é a primeira coisa que peço quando entro em algum lugar. Um abismo bebido em pequenos goles. Deixo um fundo na xícara. Abismos água abaixo. Não vejo a cara da balconista, me levanto e esbarro em uma mesa. Meu impulso é sair sem pagar, me controlo. Sempre reservos notas de um real no bolso, é mais fácil, não preciso esperar o troco, nem brigar por tentativas de pequenos roubos. Nunca confie num homem atrás de uma máquina registradora.

Saio depressa, o sol bate com violência no meu rosto, quer me espofetear. Ignoro, existem coisas que consigo ignorar. Na praça a fonte espirra uma água verde e calma, é o rio que insiste em nascer no meu antigo quintal. Crianças em roda jogam moedas. Cara ou coroa? Já me esqueço do limbo escuro do Vale dos Suicidas.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 2


Um zunido penetra no meu ouvido. Milhares de enormes moscas azuis invadem minha cabeça. Minha vó rezando o terço. Meu pai me enforcando com o antigo escapulário. O corpo de Cristo apodrecendo em cima da mesa: comerás e beberás do meu Corpo... A colcha de retalhos parece abismos atravessando meus dedos. O almoço esfria na mesa. Não tenho fome. Fico imaginando o clique da sua máquina. As poses insinuantes daquelas putas oferecidas. E ainda a culpa é minha, a paranóica sou eu. Ninguém tem culpa das suas loucuras. Ninguém pode fazer nada se você é uma cega, uma topeira estúpida! Risos lunáticos escorregam pelas paredes. Aquela velha louca não pára de falar. Fala feito papagaio. Tenho vontade de descer correndo as escadas, invadir o estúdio, pegá-lo no flagra. Impossível, ele me mataria depois. Falaria sobre distúrbios, daria exemplos trágicos de romances destruídos pelo ciúmes doentio. Novamente eu sairia perdendo feito cachorro pequeno atrás de osso grande. Sairia pisando num chão molhado e escorregadio, o mesmo chão que tantas vezes enxuguei sem resultados. Ele diria que qualquer imbecil pode ver o que me recuso a enxergar - ele é sempre tão mais do que eu!!! - não se pode capturar um gato selvagem e exigir dele modos civilizados. É incoerência.



Enquanto isso em meu antigo quintal o pássaro negro compõe canções do inferno. O sol bate nos talheres, parece cegar nossas vistas, ou o resto dela. E lá fora, o rio verde e calmo afoga meus inimigos. Um limbo denso e escuro aparece sobre minhas mãos. Não tento removê-lo.



sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 1



Quem pode adivinhar o tamanho dos meus abismos? A dor do ciúmes que eu esmago todas as noites entre meus dedos. É minha oração diária, uma queda brusca de estrelas. Caranguejos devorando defuntos na lama escura do meu rio. Últimas vítimas do vale dos suicidas. Verde e calmo ele atrai almas fracas. Viagem insólita em minhas margens. O rio que despenca no meu corpo mais parece o mar em suas piores ressacas.

Ele nunca entenderá. Ele é bom em objetos estáticos. Conhece apenas os movimentos das fotografias secando no varal. E eu aqui, estendida na beira do leito. Pensa existir um movimento perfeito para ser captado. Não acredita no acaso. Quando não gosta do que foi registrado, rasga, parte pra outra, outras. Ele acha que devo fazer o mesmo com o meu ciúmes, manuseá-lo e depois rasgá-lo, como se faz com um recibo velho. E eu, tão saudosista...

E essa velha louca não consegue calar a boca. Meu Deus! Quanta besteira! A sua voz tem uma entonação insuportável. Minha cabeça ferve como um caldeirão. Ela não percebe. Ela não consegue enxergar nada além de si mesma no meio do caminho.

Enquanto isso o carvalho submerge. O rio se cobre de um musgo verde e calmo.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ROMANCE


AGUARDEM QUE, EM BREVE, O ROMANCE VIRÁ:

MOSAICO DE RANCORES

Here, there and everywhere


Um voyer, um viajante, peregrino e inabitável em uma cidade conhecida. Um novo gato num velho telhado. Foi assim que me senti. Cada paralelepípedo parecia ilusório e impalpável! Como se de repente as pedras criassem asas. Não me admirei das coisas novas, das novas casas, das novas janelas, das novas árvores. Me admirei pelas coisas antigas, que ainda permaneciam lá, intactas,como se nem Deus e nem o vento fosse capaz de arruiná-las. Os mesmos rostos, feridos pelas mesmas rugas. Os antigos fantasmas, agora despertados pelo toque curioso dos meus dedos. Ah! Os meus dedos! esses já não são novos, já tocaram outras histórias, desvendaram outros mistérios, já penetraram fundo em outras chagas! Algumas incuráveis , outras o tempo se encarregará de agravar.

Estou indo embora de malas cheias, mas sei que alguma coisa ficou.

Abro a porta da minha nova casa. Os meus novos fantasmas estão lá, com um sorriso branco, irônico e pouco complacente na cozinha, eles tomam café e uma antiga lembrança escapa fresca pela garrafa.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PIANISTA BOXEADOR



Entrem no blog do pianista boxeador e leiam o conto Porque delas é o reino dos céus, eu adorei, é simplesmente fantástico!