segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Do meu corpo comerás...

O tempo passa e sempre criamos novas combinações binárias, que nada explicam, mas que distraem nossos pesadelos. Somos picados eternamente pelas mesmas cobras, insistimos, beijamos a sua boca, extraímos seu veneno e dormimos enrolados em sua cauda, à espera da troca de sua pele.Um mesmo homem em um terno novo. Nas mãos ramalhetes de flores, não para reverenciar, é a cobrança dos mortos do dia anterior. Velórios e nascimentos todos os dias nas xícaras da mesa nunca posta. Apenas os amantes usam bandejas e geléias. Nós, creme de barbear, aparelhos e toalhas molhadas. Controles remotos, porque uma hora é preciso se desligar de nossas paranóias, amar menos, se doar mais. Viajar ao redor de nós e descobrir que esquecemos um pensamento, um absurdo no bolso do outro, essas insignificâncias tão urgentes que os outros, o outro não percebe, joga fora. Bilhetes e passagens de dois anos atrás. É o antigo costume de colecionar porcarias. Passo no meio-fio e recolho um braço esquecido do último abraço. Pensei em abaixar, mas que utilidade teria um carinho que se foi? Não sei, combinações binárias me fascinam, embora não as entenda. Vasos artificiais, você sabia da minha dificuldade em administrar pequenos seres vivos, sempre tão cheio de exigências! Gosto dos cactos, eles compreendem meu descuido e eu compreendo os seus espinhos cutucando a minha dor. Surpreendo-te com futilidades no meio da vida e você tão trágico, peças em três atos. Matematicamente incorreto, correndo sobre os fios de eletricidade. Nossos rostos nas pequenas poças de água do quintal. Envelhecemos. Amamos e envelhecemos, paixões furtivas aparecerão e eu perdoarei teu romantismo. Afinal, já somos tão parecidos que devorar um ao outro é estranho, é narcisismo, é canibalismo. Então,vamos caminhar, porque entre as pedras aparecerão alguns pássaros que farão parecer que o caminho é fácil, não se engane, eles logo passaram, eles sempre passam... No final, tudo é uma ridícula e necessária combinação binária.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Anéis de Saturno

Mil lâminas cortavam minha face...

_ Você não presta! É uma puta dissimulada!
_ É mesmo?
_ Olha que eu te meto a mão na cara, sua vadia!
_ Verdade?
_ Não me olha assim, hein! Pára de fingir que está calma, porque esse seu olhar cínico lança um milhão de facas afiadas.
_ Eu quero mais é que você morra, você é um frouxo!
_ Quem aqui que é frou...............................................................................................................

Sai para procurar a constelação de Escorpião. Meu tio Bentinho disse que se a gente saísse à noite podia ver um escorpião andando no céu. Até o seu rabinho em forma de gancho podia se ver.

Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. A lâmina alumiava tremelindando no peito farto da mulher gorda. O sangue vermelhinho, vermelhinho pelo chão. Os gritos estridentes vindos de todos os lados. Os faróis, as buzinas, as sirenes, os homens de branco... Mil mãos me apalpando, me fechando os olhos. A chuva veio devagarinho, devagarinho, clareando o sangue, escurecendo o asfalto. Meu corpo encharcado de água. Somente depois escapuliu difícil de meus olhos uma lágrima. Só então descobri, pela voz chorosa de minha tia, que o peito ensanguentado jogado no asfalto era o de minha mãe. As lágrimas ainda não amargas da infância se misturaram ao açúcar do pirulito ainda entre meus dentes. Eu não chorava porque minha mãe estava ali, estendida, vomitada no chão, mas porque a chuva, aos pouquinhos, ia desmanchando o desenho de sangue que se formava na calçada. Um desenho que eu nunca soube decifrar.

Um mês para o casamento e eu me sinto um esquizofrênico recém-saído do hospício, com as palavras girando desordenadas na cabeça. Olho para o meu rosto, minha barba negra e áspera desaparece. Vejo apenas uma criança assustada e infeliz observando o céu.
Alguns anos de convivência e todas as minhas imperfeições transfiguradas no rosto de um filho que me culpará eternamente. O rosto de um filho com as feições da minha mulher. Isso é nojento! A boca dele sugando seus seios.
Da minha janela eu vejo uma nuvem. Todos os dias a mesma nuvem, ela nasce para mim, se extinguirá com a minha morte. Eu me irrito com ela, tão infinita, tão irritantemente a mesma... Existiam nuvens na minha infância, mas elas se transformavam com uma facilidade impressionante, nessa fase eu nunca vi duas nuvens com a mesma forma, eram leões e pássaros disputando a mesma jaula.

MIL LÂMINAS cortando minha face e as agulhas arranham no vinil uma parte daquela música do Pink Floyd em que aparece um riso lunático. Olho para o espelho e minha barba continua por fazer. Ou, então, estou dentro de um ônibus lotado, os vidros todos embaçados, e numa letra de criança o meu nome escrito. Tento apagá-lo, ele não se move, como se fosse inscrito dentro do vidro. Quando faço menção de quebrá-lo, acordo, num total descontrole do destino de minhas mãos dentro de meus piores sonhos.

A agulha gira na última faixa do disco.

Não consigo caminhar até o altar. Existe nela o olhar vinho e provocador de minha mãe, em mim, a mão em punho e impulsiva de meu pai. A mesa está coberta de talheres, garfos, facas... são os presentes de casamento. MIL LÂMINAS ATORMENTAM MEU CÉREBRO. Na minha barriga a marca do meu último suicídio. Escorre uma lágrima, ela se perde nas linhas incongruentes de minha face. O copo de água com gelo transpira entre meus dedos, enquanto os cubos bóiam indiferentes no líquido translúcido. Lá fora, pela primeira vez, encontro a constelação de Escorpião, até sinto sua ferroada no meu calcanhar. O calcanhar de Aquiles, aquele do qual tio Bentinho tanto falava.
A noite está tão clara que posso até enxergar os Anéis de Saturno. Do meu pulso escorre um líquido escuro, viscoso e coagulante, do meu bolso furado caem delicadas flores de laranjeira, completando finalmente o vago desenho que nunca soubera formar através do pueril e trêmulo tracejado.

sábado, 13 de setembro de 2008

Cordão

Na estante ficavam à mostra várias fotos, o malabarista, a bailarina, o soldado de chumbo, o picadeiro, o palhaço que nunca me fez rir e a corda que nunca teve coragem de envolver meu pescoço.

Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome

Facas de dois gumes penduradas nas paredes denunciavam tua ânsia suicida. Não fora homem suficiente para enforcar seus últimos pesadelos. Covarde! Nem tivestes peito de fazer jorrar teu ódio ralo desses pulsos finos, brancos e esquálidos... Os suicidas farejam lentos no lado negro e infinito do tabuleiro. Uma travessia longa e bestial. Ela gargalhando feita esquizofrênica: “Um homem de 1,70 quase não é homem”.
Venha a nós o vosso reino seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

Não gostava de olhar para sua cintura, eu via cobras saltarem do seu umbigo numa acrobacia louca, perigosa e incompreensível.

O pão nosso nos daí hoje.

Anões povoavam seus sonhos mais pervertidos. Metade da vida já atrofiada no nascimento, por pouco fórceps não deformam seus pescoços. Causavam-te pena e soberba aqueles pedaços de gente que traziam transfigurados na face a morte vindoura.

Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido...

Brinquedos quebrados enfeitavam seu quarto. Você gostava de rir da desgraça alheia. Era teu patético divertimento, saber que algo no mundo sangrava com uma dor mais pungente do que as tuas chagas secas de ressentimento. Um Deus sádico regia teu universo.
O jardim estava sempre coberto de rosas brancas. A cor excessiva das flores te incomodava, parecia uma afronta. Lembrava do suicídio que nunca teve força pra cometer, gostava de acreditar na palidez de tudo. O sangue corre tímido e anêmico nas tuas poucas veias.
A água da privada girando, girando... Um velho disco riscado vomitando aquele mesmo trecho “... batidas na porta da frente é o vento... eu bebo pra ter argumento... ele zomba do quanto eu chorei...”. Despejo o resto da bílis no vaso. O espelho alonga minha cara. O barbeador na pia me entristece, há anos não sou mais menino, mas ainda posso ver nitidamente o talho que fiz no meu rosto com cinco anos me barbeando pela primeira vez, ainda escuto os gritos desesperados da minha mãe e meu pai dizendo: “eu também já fiz isso mulher!” Esse espelho me envelhece.
Na cama você era gigante de cem braços. Sempre me esmagando, me fazendo pequeno e sarcástica repetia!: “Um homem de 1,70 quase não é homem”. Todos os meus membros tentavam percorrer seu corpo, numa luta insana e inútil, pequenas lâminas rubras brotavam da sua pele dilacerando meus dedos, uma guerra de perdedores. O sangue escorria incolor entre seus seios, mas isso não te saciava. Cartas de baralho em cima da cama, você jamais se cansava de jogar. Nunca descobri se eu era o Coringa ou um simples palhaço que te fazia gargalhar feito uma insana.
Deu olhar tinha o encanto de fogos de artifício e como eles não bastavam dois minutos e eu já podia sentir sobre os lençóis o peso de pólvora, chumbo e enxofre. Essa nuvem de fumaça nunca mais me deixou respirar em paz. O gosto de fósforo e desodorante barato continua nas frestas grandes dos meus dentes, seja talvez, a causa de todas as cáries de minha boca.
Garrafas de todas as cores estão dispostas na prateleira. Azul, roxo, rosa, amarelo, verde, vermelho. Um copo de cherry. Todo teu sangue me escorrendo goela abaixo. Um porre o teu rosto se duplica na minha cabeça. Os carros passam rápido como flashs, lembranças de uma peça que nunca assisti. As pessoas me encaram como se eu tivesse cometido um assassinato. Vejo miolos espalhados pelo bar. Não se olha um homem com as esquinas dos olhos, nem se fixa em sua retina cega por mais de um minuto. Posso vê-la jogando convulsivamente a cabeça para trás, posso escutar ela gargalhando: “Um homem de 1,70 quase não é homem”.
Ao seu lado eu era sério, não ria e só me permitia pensar de olhos fechados, como quando criança sonhando ver o sol do Chile nascendo entre os montes, seus seios imensos na concha ridícula da minha mão, qualquer descuido e... Você seria capaz de roubar todos os meus segredos. “Um homem de 1,70 quase não é homem”. A sombra da cruz na porta invadia o quarto. Você se incomodava, eu me ausentava, sabia da sua saudade da época em que trabalhava com um grupo de mambembes, percorrendo o mundo, cada dia vestia com um fantasia diferente. Encenando vidas interessantes, adiando essa insipidez hoje estampada na tua pele, esse câncer lento que corrói tua alma. E agora? A que se reduzira? A uma boneca de porcelana barata trancada sempre no mesmo quarto implorando a Deus um gozo rápido e indolor, vendo infinitamente o sol nascendo no mar e se pondo na esquina sem movimento da nossa casa. Era só o que eu podia te oferecer, miligramas do meu esperma. Levantava nua e colocava a cruz embaixo da cama. Achava tudo aquilo profano, mas me calava “... perdoai as nossas ofensas. Amém”. No criado-mudo um cinzeiro e um vaso com flores: “Mares de lírios, essas suas mãos lívidas e mortas tecendo ausências”.
Ultimamente minha pele cobria-se de uma penugem loira, que me tornava ainda menos atraente para seus olhos de tigresa no cio. Choros de criança e barulho de chocalhos estouravam meus tímpanos.
Os garçons, as garrafas... no fundo todos nós um dia sentimos vontade de fugir com o Circo ao lado do Homem-bala. Agora somos apenas tolos espectadores esperando o Circo passar só mais uma vez na cidade de terra e descobrir como o mágico tirava tantos coelhos da cartola. Os líquidos derramam-se sobre os corpos. Coágulos nojentos despencam da sua boca. Vinte e cinco anos e rebola feito uma vaca de dezoito. Rebola como se ainda estivesse num bordel cheio de vedetes. E agora? Como posso acreditar que um porre irá me salvar de tudo isso? Buracos se abrem ao redor do meu banco. Rodas gigantes, carrosséis, cavalinhos de pau. Sonho todas as noites com você, mas não consigo enxergar seu rosto. Cadela, sempre com tinta na cara sardenta.
Sonho todas as noites com o sol do Chile nascendo na concha ridícula das minhas mãos. Minha língua cortante percorrendo cada centímetro das suas costas.
O homem empilha as cadeiras vermelhas do bar maquinalmente, é o tipo que trepa com a esposa em cinco minutos e apesar da infelicidade não tem paciência para uma amante. As pessoas desaparecem sem deixar vestígios. Apenas alguns filtros amarelados de cigarro barato e restos de cerveja derramados no chão. Quarenta anos e o meu quadril gira no compasso daquela vadia. Chocalhos coloridos invadem as órbitas tortas dos meus olhos.
Um anjo negro de asas púrpuras rompe do seu ventre, deixando um abismo no lugar. Você se ajoelha e se contorce fingindo arrependimento: “...bendito é o fruto do vosso ventre Jesus...”
Só lamento por ela não sentir as dores do parto.
Respiro aliviado, aquela vadia não saberia ser mãe. Cuspo uma saliva amarga, acendo o último cigarro do maço. “...perdoai as nossas ofensas. Amém”.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 11

A Elenir tem razão quando diz que a nossa conversa não passa de resmungos. O que ela não percebe é que nosso relacionamento nunca passou de balbucios. Não foi o derrame que tirou as palavras da boca do meu pai, foi sua brutalidade, seu fanatismo, seu horror ao Diabo, mesmo recolhendo todos os dias asas de anjos caídos ou dragões em fúria. Agora parece um louco preso no inferno, um demente juntando peças de um quebra-cabeça inexistente. E seu único companheiro é o pássaro negro, compondo as canções mais tristes do mundo e uma reprodução barata de Noite Estrelada. Eu nunca entendi como um homem bruto feito ele poderia gostar tanto daquele quadro. Mas ele gostava, o tempo passava, e o quadro continuava lá, na varanda, atrás da rede, eu colocava a mão e sentia a folha enrugada de umidade, água dessa chuva fina e estranha que o tempo traz. É como se ele imaginasse que a dor tem aquelas cores. Toda vez que estava calado, sentava naquela rede, com o olhar pro infinito e talvez nem mesmo Deus soubesse o que se passasse pela sua cabeça. Era só eu aparecer e ele resmungava: “Cuidado com as traves que o mundo enfia nos teus olhos”. Pra mim, aquilo parecia ridículo, quem mais do que ele me empesteara os olhos com ciscos, galhos, cinzas e traves? Nunca, antes de sair de casa, eu tinha visto o mundo sem sua lente de pavor e amargura. E ainda hoje escuto os gemidos do pássaro negro, desde que meu pai lhe furou os olhos, ele não se agüenta de tristeza. Havia um imenso abismo entre o mundo e o pássaro. Uma imensa gaiola que jamais seria aberta. Ele era culpado de um crime que não tinha consciência que cometera: “Se teus olhos te fazem pecar, arranque-os”. O rio verde e calmo despenca no meu quarto, são imensas colchas de retalho barato. Tento mergulhar, os olhos me impedem. Olhos de peixe. Carvalhos em vigília.
PS: Aproveito para comunicar meus leitores que tem um ensaio doDaniel Lopes (www.pianistaboxeador21.blogspot.com) intitulado "Um timaço argentino" no Amálgama. Acessem: http://www.amalgama.blog.br/?p=76

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Mágico


Por mais que eu carpisse, sempre estava empestado de amores-perfeitos em volta do poço. Nunca entendi. O solo era ruim e nunca chovia no meu quintal. Aliás, em toda minha vida devo ter presenciado umas duas tempestades, o resto eram chuviscos, serviam apenas para levantar o cheiro de terra.
Ao sair do quintal de casa gostava de olhar o tapete vermelho na soleira da porta, às vezes, ficava com as marcas do meu sapato.
- Sabe o que me deixa feliz meu pai?

- Não, mas deve ser alguma coisa que deixa alguém triste. Desde pequeno você era assim. Gostava de atirar pedras nas rolinhas, não pra matar, você não era capaz dessa bondade. Você gostava de vê-las agonizando, perdendo o fôlego aos poucos.
- Todo moleque atira pedras nos pássaros. O senhor nunca atirou, meu pai?
- Não, não atirei.

- É, acho que não mesmo. O senhor preferiu guardar desde a infância as pedras no bolso. E agora atira todas em cima de mim. Você esqueceu que sou seu filho?
- Como poderia? Você é tudo aquilo que sempre abominei em um homem. O destino é mesmo irônico!
- Eu não sou esse monstro que você diz.
- É, talvez não. Você é apenas um mágico. As coisas desaparecem depois que você as toca.
- Voltando ao o que eu dizia, sabe o que me deixa feliz? Saber que no final todos sempre acabam no fundo do poço.
- Isso te deixa feliz, não é? É a mesma alegria que você encontra quando mergulha seus olhos no fundo da cartola. Sinceramente, não sei da onde você saiu.

- Meu pai, quem saiu aos seus não degenera!
- Muitas vezes os provérbios afirmam grandes besteiras.
- Você lembra o que vovó dizia?

- Não.

- De boa árvore nunca sai mau fruto.
- Ela deve ter esquecido de dizer que, às vezes, o fruto apodrece ao se misturar com outros.
- Papai, papai! Não tire o corpo fora!

- Não se preocupe, eu não tiro não. Todos os dias peço desculpa a Deus. Espero que ele me perdoe.

- Eu também espero papai.

- O perdão não combina com você.

- Queria dizer meu pai que eu já perdoei o senhor.
- Pena que o seu perdão não vale uma cartola furada!

Ela nunca me olhava. Parecia sempre esperar alguém que nunca chegava. Ficava atento, mas jamais descobri pra quem ela entregava as flores. Era um pedido de perdão ou uma promessa de luto? Não sei. É tarde e todas as esquinas desapareceram com a escuridão e eu não tentarei tirá-las da cartola, embora eu acredite que elas podem ter se escondido por lá.
Afinal, pra que serve minha cartola? Ela só serve pra esconder as loucuras, os assassinados, as manias que rondam minha cabeça. Muitos mágicos fazem brotar coelhos de seus chapéus, do meu não surge nada, as coisas apenas desaparecem. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha esposa, meu filho, todos se foram, como se houvesse um labirinto indecifrável no fundo da minha cartola. Já tentei fazê-los ressurgir, mas é impossível. As mágicas nunca funcionam comigo. Desde criança eu sabia que não seria um mágico de grandes espetáculos, apenas de pequenos truques.
Olho pro meu casaco de barata pendurado no biombo e sei que a qualquer momento eu posso ser esmagado por um pé distraído. Sempre tive muito mais vocação para palhaço, embora as pessoas digam que a maquiagem não poderia disfarçar minha cara de psicopata nem minhas olheiras de homem descrédulo.
Na esquina eu volto a ver a mulher negra com um maço de rosas vermelhas. As rosas estão envoltas num jornal velho, amarelado, com marcas de urina de gato.
Embora não pareça, eu adoro discutir com ela. Passam diante dos meus olhos cenas de jornais sensacionalistas. No quintal, o poço permanece em silêncio, as flores continuam a germinar em volta dele. Tiro a cartola da cabeça, ela está furada. “Você parece um poço sem fundo de tanta ambição!” Minha mãe dizia isso como se fosse um crime querer progredir na vida.
Agora todos os meus dias são uma segunda-feira (Por que será que há tantas segundas e tão poucos sábados na vida?). Mas isso não é uma sensação ruim, é uma sensação de alívio. Normalmente olhava pela fresta da porta e via apenas um pedaço do jornal amarelado que encobria as rosas e uma mão morena e encardida que se confundia com ele. Tinha uma vontade louca de esfregar aquelas mãos com uma escova de cerdas duras, entretanto, logo a vontade esvaecia, então, eu fechava a porta e ia até o quintal pegar água do poço, tomava um gole e sempre vinha um gosto enjoativo de ferrugem. Uma ânsia que se assemelhava a uma angústia. Engraçado, uma angústia própria dos homens bons e honestos. E eu não era bom, tão pouco honesto... Quantos homens eu furtei no fundo da minha cartola sem dar-lhes chance alguma! Meu pai riria se soubesse que uma lágrima escorreu do meu rosto. Diria com expressão impiedosa: “Lágrimas de crocodilo! Qual é o gosto da sua vítima dessa vez?”
Ele jamais acreditou que eu fosse capaz de sentimentos raros. E ele está certo. Não sou dado a sentimentalismos. A única coisa que me dói na vida é um molar. Desde o ano passado o dentista falou que precisava de canal. E daí? Talvez uma dor aguda me torne mais humano. Me torne finalmente o filho que a minha mãe sempre sonhou em ter: “Eu pedi tanto! Pedi tanto pra Santa Terezinha! Mas não adiantou, olha só! Que desgosto, meu Deus! Deve ter sido aquela promessa! Só pode ser! Eu prometi plantar umas rosas pra minha santinha e olha aí! O regaço dela seco, sem uma florzinha sequer!”
Ah, mamãe! Como você foi ingênua! Você acha mesmo que essa santa tem alguma coisa a ver com isso? Eu já nasci atravessado, com o cordão envolto no pescoço, foi meu primeiro suicídio. Sai de um poço pra vim parar em outro. Você vivia reclamando, de uns tempos pra cá, que se calou. Uma sonhadora! Eu sempre avisei: “A vida não é fácil, no final todos acabam no fundo do poço ou na beira dele!”. Seu otimismo me enojava. A senhora e o meu pai foram feitos um pro outro. Eu não entendo essa mania que pobre tem de achar que tudo esta sempre muito bom. A senhora agradecia por tudo e até mesmo o fato de eu ser um péssimo filho, era motivo pra agradecer, a senhora achava que era uma provação. Eu poderia dar voltas e voltas ao mundo se juntasse todos os seus terços e suas rezas. Quanta Ave Maria! Será que Deus a perdoará?
Queria voltar pro Circo, não posso, um cheiro estranho de fumaça e plástico me causa sonolência. Olho em direção ao poço, as flores insistem em nascer, por mais que as corte, arranque-as, elas voltam e elas florescem rapidamente. É um contraste irritante. O poço e as flores. Lembro da mão preta e das unhas encardidas da mulher da esquina. Olho por cima do muro, ela continua lá, estática e as rosas continuam frescas como se estivessem sido colhidas há pouco. Queria poder cortá-las uma a uma, como se fossem pragas. Não poço, não posso. Ranjo os dentes. Sinto eles trincarem como louça. As formigas andam ao redor do poço como num ritual, param, se cumprimentam e voltam a girar. Farejam feito cães sarnentos. Odeio os latidos dos cães, mas preciso suportá-los . Atrás desse muro há um cão enorme que ladra toda noite. Ele para apenas nas noites de chuva, no entanto nunca choveu no meu quintal. “Os cães ladram e a caravana passa”.
Tento dormir. Não consigo, o filho daquela demente não para de gritar. Eu já cansei de avisar, não adianta. Eles não acreditam, minhas palavras desaparecem como num passe de mágica: entram por um ouvido e saem por outro. Idiotas! Aquela louca não para de lavar pratos e panelas, eu não AGUENTO MAIS, a minha cabeça dói. Eles já não estão dentro de casa, e eu os escuto, só pode ser castigo! FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA!
Finalmente o sono vem. Olho para o tapete vermelho na soleira da porta. A lama negra dos meus pés estão ali, fétida e real. Eu sempre os alertei, a todos eles. Eles não acreditaram: “No final, todos acabam no fundo do poço”. Ainda hoje carpinei em volta dele e mesmo assim eu já posso sentir o cheiro de amores-perfeitos. Na esquina, a mulher negra com o maço sujo de rosas vermelhas continua a espera. Eu só não sei se é um pedido de perdão ou uma promessa de luto.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Rotina do Tempo

Os meus dias também são longos e me arrasto. Carrego uma mochila de pedras nas costas, porque assim evito a tentação de apalpar a tristeza com as mãos.
Mas, diferente da maioria das pessoas, os dias sempre siameses não me incomodam. Nem me importa a previsibilidade dos matemáticos, porque apesar de toda lógica, eles não podem evitar a perfeição da medida aúrea que esgana o tempo. Também diferente de alguns, jamais deixei de ler um livro porque conhecia o seu final, ninguém consegue retratar as minúcias e são exatamente elas que me atraem.
Quando me olhas e achas que tenho orgulho, não se engane. Minha cabeça erguida não é pretensão, é medo, é refúgio, é fuga dos vôos rasantes dos dragões que se desprendem de mim.
O amor são dedos vasculhando na ferida e dói. Às vezes, minha dor são pássaros negros, de olhos furados e canto triste. Eles são insanos e cavalgam sem piedade no meu corpo.
Sossegue querido, cada centímetro da minha pele conhece o seu desespero. Relaxe, hoje é terça, venha e povoe mundos dentro de mim enquanto as crianças colhem pipas e ilusões na ventania.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 10

As facas estão a um centímetro da minha jugular. Não tenho medo, há muito tempo o sangue escapa do meu corpo. Olhos de peixe. Finjo dormir enquanto minhas pálpebras permanecem bem abertas. Por anos carreguei toras de madeira nas costas, pecado, crucifixo. Agora não posso evitar essa fogueira interminável, alastrando árvores, carregando carros, derrubando casas, afogando gente. Será que as coisas ressurgem mesmo das cinzas? Tenho minhas dúvidas, já provoquei muitos incêndios, mas não tenho visto nada de bonito nascer deles.Vênus abordadas. O sol bate na minha janela, aquece as cortinas, os retalhos, os restos de mim... Posso escutar o Lúcio: “Você não está vendo o sol que está lá fora?! Feche essas cortinas!” . Não, não vejo, embora o alumínio queime as pontas dos meus dedos. Não adianta, eu nunca me lembro, e é sempre a mesma fumaça que engulo. E ele nunca se preocupou, a fumaça está me asfixiando e ele nem percebe. A voz da minha irmã ecoa no velho quarto: “Deja me ajuda, me ajuda, não consigo respirar”. E daí? Não foi a asma que a matou, foi o ódio saído daquele maldito revólver. “O ciúmes é tocha em boca de alcoólatra”. E Happiness is warm gun. O que posso fazer? Me fingir de idiota como a maioria? Fingir que sou cega? Fingir que o seu sexo povoando mundos não agride o meu amor? Espadas perfuram meu útero e nem por isso gozo. Lâminas me cortam e nem por isso sangro. Eles podem gritar, eu não estou errada. Eu sei que muitas vezes abismos enganam meus pés e a fumaça que entra por aquela janela atrapalha e faz arder os meus olhos. Olhos de peixe. Mas ainda assim eu consigo caminhar com meus próprios pés. O rio verde e calmo ainda despenca no meu quintal. Vejo cardumes boiando. Milhares de olhos me observam e eu tropeço invisível sobre as pedras.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 9

“O ciúmes mata como guilhotina”. Recolho como louca os retalhos da colcha que estou terminando. Todas as cores num só pedaço de tecido. Elenir sempre diz não entender como sou capaz de colocar todas essas cores em tão perfeita harmonia! Nem eu, às vezes, imagino que são infinitos tons de cinzas e quando vejo, está pronto. Isso me comove.
Desço as escadas devagar. Último andar. A rua parece um campo de batalha. Guernica. Escuto tiros, mas não procuro ver de que lado estão os canhões, nem de onde vem o cheiro de pólvora. O diabo passa e pouco importa em que porta ficou preso o seu rabo. As buzinas me enlouquecem, sons de metal, ensaios de banda de rock, ratos e baratas caminhando falsos pelos bueiros. As pessoas passam rápido, esbarram no meu desespero. Elas não percebem, usam as mãos para estancar as feridas que devoram seus ventres. Fogueiras se formam debaixo dos meus pés. O sol chega às vistas dos mais sensíveis. Lúcio está longe. Ele não se importa comigo, vive rodeado pelas fotos daquelas vadias. Poderia enforcá-lo com aquele varal, ele sentiria o próprio veneno, saberia o gosto que devassa minha língua. Faria com que ele engolisse todos aqueles peitos e pernas e braços e bocas, o seu mosaico erótico. Imbecil. Pensa que sou idiota, que não percebo suas estratégias de fuga. Poderia voltar correndo, entrar naquele estúdio e picar todas aquelas fotos indecentes. Não adiantaria nada. Ele tiraria outras fotos, passaria mais tempo com aquelas piranhas e depois se trancaria naquele quarto escuro até que cada curva daquelas mulheres se tornassem nítidas e palpáveis.
Um rio verde e calmo invade meu quarto, é incrível, ele abriga pequenas ilhas... da janela, a mesma fogueira se extinguindo, aquela que antes devorava meus pés e meus sapatos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Conto: Alvo



A
L . V
O

Observava sua boca fina e estéril. Quem a olhava jamais poderia imaginar quantas palvras formigavam ali. Batom e biles se misturavam num gosto amargo e solitário. Sua boca sugando o cigarro, ou seria o cigarro sugando sua boca? Descia a escada helicoidal mexendo duramente o quadril magro.

Se não fosse tão bonita seria insuportável! Gritava feito uma louca: "Você é surdo, mas que droga!". Nessas ocasiões eu via a úvula da minha mãe balançar, uma gelatina indigesta. Essa é a imagem que me prende a ela: uma histérica de coque na cabeça, no lugar da face um enorme rasgo amarelo de nicotina e dentes negros de infelicidade. Fui parido um pouco por essa cor abismal.

O saxofone pendurado na parede. Conchas do mar na escrivaninha. Ela adorava escutar conchas do mar. Eu adorava ver meu saxofone ali; onipotente, expressivo, intimidador. Nunca aprendia a tocar. Mas ele, ali, pendurado, me fazia forte. Eustáquio. Odeio esse nome. Por que não me chamo Rodrigo Paulo Marcio João José????????? Marcela eu gosto, se ela fosse mais doce....

Esse vizinho imbecil martelando, martelando, martelando... toda hora, todo dia, me lembram as infernais badaladas do relógio da casa velha da minha vó.
Quando estou fodido e triste, gosto de sentir sob meus dedos as reentrâncias do vinil, as agulhas arranhando a roda negra: "Folha Morta" de Ary Barroso.

Ela me odeia, ela repugna meus olhos burros de incompreensão. Uma espécie de punição, autoflagelo. Ela é minha pérfida Ariadne, ela me dá o novelo para atravessar o labirinto e quando estou perto da saída, ela o puxa, pelo simples prazer de me ver perdido entre centenas de maçanetas e nenhuma mão. Milhões de vozes mudas ecoam nos meus ouvidos. PAVilhões cheios de gente... Marcela rindo da minha desgraça. A boca amarela-preta da minha mãe...

Poderia dar um tiro em meu ouvido, mas nasci surdo e me recuso a não escutar o estrondo da minha morte. No vinil gira um réquiem do Debussy. O sax toma toda a dimensão da sala.
Do labirinto

escorrem

metros

e

metros

de um novelo

macio e vermelho.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 8

Jorrava preto como água de lama o café da minha mãe. Adorava aquela fumaça, no entanto, agora ela parecia um misto de enxofre e pólvora desprendido do revólver que matara minha irmã. Cinza como o resto dos olhos dela na xícara, inerte e gelada como seu corpo. Minhas mãos tremiam, estavam perto de uma convulsão: "O ciúmes corrói, é ácido, é pico de heroína nas veias de um cardíaco". Minha trristeza não entendia aquelas palavras, talvez nunca fosse capaz de digeri-las. Vomitava. O café quente explodia na minha garganta seca. Queria correr, correr, correr, cavalgar entre trilhos sem cavalos, eles atrapalhariam. A única imagem que me vinha na cabeça eram os caranguejos, os manguezais. O vestido preto e vermelho era peça de um mosaico mórbido. O sangue emprestava vida aos lírios das margens. Vomitava. Um líquido negro e morno escorria pelos cantos ignorantes da minha boca. Já não podia respirar, fora minha primeira crise de asma. Belinha jamais teria crises de asma, seu corpo esfriava em cima da terra que borbulhava. Queria correr, queria falar com minha vó, queria pedir ajuda a Santa Luzia, queria apertar entre meus dedos de parkinson o velho escapulário, queria arrebentar terços. Queria meter uma faca no coração doente do meu pai, ele só sabia repetir: "O ciúmes mata, é faca sem gume". Era em meu peito que a faca entrava. Era dentro dele que ardia, velórios de meninos. Não podia voltar no tempo, não podia parar com o meu rosto aquela bala. Se pudesse, talvez também não parasse. A morte dói, mas a vida são agulhas torturando as pontas dos dedos. Com os anos, os olhos tão lindos de Belinha, tão azuis, se tornariam gastos e opacos como os meus. Parados, olhos de peixe em vigília. Queria correr correr correr e rasgar minhas roupas, mergulhar no rio sempre calmo e verde, que insiste em se esquecer no meu quintal. Um rio sem taboas e sem lírios... Vejo apenas o brilho das grandes moscas azuis e isso já é o começo de um alento.

sábado, 16 de agosto de 2008

Sem título

Não faça que eu me iluda querido.
Eu posso dormir e acordar,
mas quando olho pela janela
o cemitério ainda abre novas covas
para seus velhos mortos.

No jardim brotam flores,
embora amarelas,
elas exibem suas carnes,
feito as putas que habitam
as esquinas de nossa casa.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 7

A minha irmã era o único ser do mundo que me entendia, não que ela soubesse desse fato. Aliás, ela ainda não sabia de nada quando aquela bala atravessou sua cabeça e lhe deu uma grande rasteira. Não sei se algum dia acharei isso ruim. Não acredito que a vida tivesse sido muito gentil com ela. A morte é mais excitante, são cavalos vermelhos e selvagens. Se pudesse escolher, eu escolheria a morte, para poupar a pobre da Belinha. Meu pai cuspia pelas frestas feias dos seus dentes: "O ciúmes é faca de corte lento, primeiro estraçalha a carne, depois vomita o sangue."

Belinha tinha o sangue fraco, não pude olhar, mas desconfio não ter escorrido nenhum líquido de sua cabeça. E de pensar que seus olhos eram tão azuis! Só me recordo que eles começaram se tornar tão cinza quanto o chumbo que, por engano de Deus ou do Diabo, se alojou feito pensamento em seu cérebro. Imagino quantos gritos foram estrangulados naquele instante. A fumaça preta do café se misturava ao cheiro amargo da pólvora. As lágrimas não se formaram nos meus olhos. "O ciúmes mata feito trem descarrilhado!". Eu não compreendia aquelas palavras, nem me importava com elas, não compreendia o enxofre misturado com toda aquela poeira. Talvez tenha sido a primeira vez que ouvi o zunido das primeiras moscas azuis.

Escuto ao longe o barulho do rio verde e calmo ou talvez, seja apenas o líquido da sua cabeça, que depois de anos resolvera jorrar.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 6

Traves sempre atrapalharam meus olhos. Escuto a voz do meu pai pregando:"O ciúmes mata como erva daninha". Nunca quis dar razão a ele, no entanto, como posso discordar sentindo ramos e folhas me sufocando? Sou contra toda sua doutrina religiosa e fanática, porém, não tenho como negar que a vida lhe ensinara algumas verdades. Assim como está ensinando a mim. São brasas fervendo perfurando minhas pupilas já cegas. Não posso esquecer o rosto angelical da minha irmã, nem tudo que lhe aconteceu depois. Nem mil anos me faria esquecer. Era singular o seu jeito de se agarrar a mim, parecia que jamais me soltaria e não soltou: "Vamo Janira, vamo brincar! Você já viu meu cavalinho? É mais bonito que um de verdade!". Nesse tempo, minhas vassouras falavam com tanta facilidade! Não resistia, às vezes, quase morria de ódio, não queria brincar feito uma criança bobona, mas tinha dó do mundo perfeito e perdido no meu quintal. E aqueles olhos tão azuis, tão meigos... Nada tinham a ver com os meus, tão negros, tão opacos, tão cansados, olhos de viagem. Meu pai gritando: "o ciúmes mata feito picada de cobra venenosa". Naquele tempo as palavras eram vazias e só diziam o que ecoavam. Eu sentia o peso da mão do meu pai. Quando olhava pra fora, eu pensava que aquele rio, tão verde e calmo eram as lágrimas que não podia soltar. Eu pensava, apenas eu sou responsável por todo esse limbo. Quem pode saber? Corpos de crianças mortas adormecem nas margens, entre pedras e lírios.

sábado, 9 de agosto de 2008

Conto: Roleta Russa


“When i was just baby/my mother told me
son alway be a good boy/and never play with guns"
(Johnny Cash)
Galopes atravessam a sala.
- Chiiiiuuu!!! Você tá ouvindo?! Toda noite é assim, nesse mesmo horário, eu escuto barulho de tiros.
- Eu não escuto nada.
- Vamos, encoste os ouvidos na parede.

- São pequenos estalos.
O fogo invade a minha janela. Uma grande fogueira domina o céu. Um cheiro de plástico inunda a cidade.
A única mulher que amei me abandonou. Disse que seria dançarina de Circo, pra mim se tornou uma prostituta. Uma puta dançando sob a lona. Vai-se o amor, fica o ódio. Ainda sinto as pancadas de seu martelo massacrando a carne de segunda. Nessas horas, ela comentava: “Olha ali, de novo aquele caminhão em frente ao mercado”. “Ele está recolhendo o resto das carnes, as migalhas de sua carnificina. Os ossos indigestos que não pode roer”. Ela contestava como um velho sábio: “Comeu a carne agora roí o osso!”. Segui seu conselho: estou roendo os ossos, mas quem comeu a carne foi ela. O resultado são dentes cariados, dois molares cheios de amálgama e estorninhos voando sobre meu estrume. As aves não se cansam de zombar da nossa falta de asas e de sorte.

Muitos tentam me convencer do milagre da vida. Poucos têm convencidos a si mesmos. Messias se deixou pregar na cruz. Tenho encontrado muitos cadáveres atravessando com pés alheios o mar vermelho. A fé não os faz boiar, eles simplesmente afundam. Formigas remexem em seus restos. Caranguejos os devoram. E eu que era homem, durmo feito um menino.

As bolas coloridas sempre teimam em não entrar na caçapa. A luta inútil no chão verde as distraí. A mim também tem distraído por vários anos essas tacadas na beira da mesa.

- E por que você acha que vale a pena?
- Eu não acho, arrisco.
- Eu também. A diferença é que minha sorte tem seis giros.
- A vida não é um jogo, não é uma roleta russa.
- Pra mim ela sempre foi um jogo e o prêmio sempre foi a morte.
- O quê você quer dizer?

- A única diferença da minha roleta e a de Deus, é que a dele possui um tambor enorme e um número infinitamente maior de jogadores.
- Você pretende brincar de Deus?!
- Não. Eu sou Deus. Um Deus com um 38 conseguido em contrabando. Enquanto matam inocentes, eu atiro no culpado.
- Chiiiuuu!!! Você não está ouvindo?! Toda noite é assim, nesse mesmo horário, eu escuto estrondo de tiros.
- Eu não escuto nada.
- Vamos, encoste os ouvidos na parede.
- São pequenos estalos.
- Escuta, parecem galopes!
- Pararam.

Caminho feito bicho no Vale dos Suicidas. Da janela o fogo ainda queima. O cinzeiro roda em cima da mesa. A arma esquenta nas minhas mãos. Se eu fosse Deus eu não fraquejaria. Aperto o gatilho. Corvos sobrevoam o trigal. Escuto apenas um estalo seco. Acrobatas sim são loucos, eles despencam do céu, os pássaros apenas voam quando confiantes em suas asas, não passam de aviões primitivos”.

Lonas coloridas despencam sobre minha cabeça.

Aperto outra vez, desta vez mais rápido. Vejo flores sem espinhos nascendo no jardim. Abro os olhos. O rádio continua no PAUSE.
Termino um jogo da velha que comecei há muitos anos. Perdi. Há quem diga: “Azar no jogo, sorte na vida”. Pra mim não faz sentido. O que é a vida senão um jogo de cartas?
A minha são só cartas fora do baralho. Um Coringa sorri pra mim. Ou de mim?
Abro a torneira e o mar brota. Se me jogasse, me afogaria agora. E de pensar que um dia amei. Esqueci de procurar qual a probabilidade em uma roleta russa de morrer na quarta tentativa. Aperto o gatilho. Já tá virando comédia.
- Você escuta?

- São pequenos estalos.

Todo círculo é eterno e entediante. Novamente o tambor gira. Do coador escorre um fio fino e magro de café. Um cheiro de aço, sangue e pólvora corroem a carne mole da minha unha. O que esperamos muito sempre vem tarde. Ainda não foi dessa vez. Sinto meus dedos duros e calejados de tanto apalpar um amor amargo. Lembro dos carinhos do meu pai. Ainda assim respiro e aperto sem convicção o gatilho. Abro os olhos e vejo o gato dormindo. O rádio sai do PAUSE: “Mãe tire esses revólveres de mim, com eles não quero mais atirar...”. Um sangue grosso e cinza pinga feito garoa no meu último passo. A morte usa enormes sapatos pretos e lustrados. Há lama no Vale dos Suicidas. Um engraxate me oferece ajuda. Ainda vejo fogo pela janela. Os poetas não morrem, agonizam. Uma grande fumaça branca nasce da palma da minha mão... Ela dança feito uma puta feliz sob as cordas do equilibrista.
- A vida é um cavalo branco que sobe escadas.
- Cavalos não sobem escadas!
- Deve ser por isso que nunca vi sentido nessa frase. Nem na vida.
- Chiiiiiuuu! Você está escutando?! Toda noite nesse horário é assim eu escuto estrondos de tiros.
- Não são tiros. É apenas ela.
- Quem?!
- A dançarina. Ela está sapateando sob a lona.
- Então seus sapatos estão sujos do meu sangue.

(Um cheiro de plástico inunda a cidade... enquanto a lona cai.)