Cupins infestam a cômoda da memória. Por vezes disfarçados no magnésio de tuas fotografias, que já não posso ver. Por vezes transmutados em canções antigas, de amor é preciso dizer. Por vezes escondidos nos buracos do queijo, ou no gosto de madeleines, pra quem gosta de madeleines. O rádio continua tocando estas canções absurdas e eu caminho pela casa esbarrando nos teus braços, nos teus sorrisos, nesse teu olhar impossível.Tira Lúcio... tira esse teu sorriso do meu caminho que eu quero passar com a minha dor. Não é ódio querido, como você disse, é só essa dor absurda. A tua felicidade sem mim que me dói como um filho arrancado das entranhas. Facas afiadas doeriam menos que tuas gargalhadas com os amigos e amigas na sala. Vem ficar com a gente! Você me diz. Nem pedras, nem carvalhos, nem submarinos de Julio Verne. Só eu pedindo por Edith Piaf até o fim.Só eu pedindo por Frida Kahlo até o fim.Uma mártir-mulher cravejada de pregos que chorou ouvindo Jonhy Cash, só porque ele não tinha piedade. Meus olhos são girassóis de sangue. Meu sexo é girassol de sangue. Tudo o que em mim sente é uma flor vermelha escorrendo pela alma. Se é que eu tenho isso. E, se tenho, ela fede a pólvora e enxofre, como a alma podre de Lúcifer, Lúcio. Eu te sou e tu me és. Como a tua rubrica dentro da minha rubrica. Como o teu nome dentro do meu nome. Como o gato preto que se esconde atrás da pele do gato branco. Tanto se me dão as cores... tanto se me dão as peles dos gatos, pois são os ratos que invadem o quarto em meio ao rio verde, que também pode ser vermelho, ou roxo, enquanto você continua a rir na sala e do canto dos teus lábios escorre um mel viscoso. Eu te quero bem desde antes do big bang e até o final dos planetas. Cristo é testemunha. O canto dos bem-te-vis tentam me convencer de que ainda há esperança, mas os meus sentimentos são o cadáver de um cão, ou a caveira de um animal qualquer brilhando ao pôr-do-sol de um dia de setembro. Volte pra lá, amor. Todos eles, todas elas, te esperam, porque você desenha sorrisos no rosto das pessoas.domingo, 30 de novembro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 20
Cupins infestam a cômoda da memória. Por vezes disfarçados no magnésio de tuas fotografias, que já não posso ver. Por vezes transmutados em canções antigas, de amor é preciso dizer. Por vezes escondidos nos buracos do queijo, ou no gosto de madeleines, pra quem gosta de madeleines. O rádio continua tocando estas canções absurdas e eu caminho pela casa esbarrando nos teus braços, nos teus sorrisos, nesse teu olhar impossível.Tira Lúcio... tira esse teu sorriso do meu caminho que eu quero passar com a minha dor. Não é ódio querido, como você disse, é só essa dor absurda. A tua felicidade sem mim que me dói como um filho arrancado das entranhas. Facas afiadas doeriam menos que tuas gargalhadas com os amigos e amigas na sala. Vem ficar com a gente! Você me diz. Nem pedras, nem carvalhos, nem submarinos de Julio Verne. Só eu pedindo por Edith Piaf até o fim.Só eu pedindo por Frida Kahlo até o fim.Uma mártir-mulher cravejada de pregos que chorou ouvindo Jonhy Cash, só porque ele não tinha piedade. Meus olhos são girassóis de sangue. Meu sexo é girassol de sangue. Tudo o que em mim sente é uma flor vermelha escorrendo pela alma. Se é que eu tenho isso. E, se tenho, ela fede a pólvora e enxofre, como a alma podre de Lúcifer, Lúcio. Eu te sou e tu me és. Como a tua rubrica dentro da minha rubrica. Como o teu nome dentro do meu nome. Como o gato preto que se esconde atrás da pele do gato branco. Tanto se me dão as cores... tanto se me dão as peles dos gatos, pois são os ratos que invadem o quarto em meio ao rio verde, que também pode ser vermelho, ou roxo, enquanto você continua a rir na sala e do canto dos teus lábios escorre um mel viscoso. Eu te quero bem desde antes do big bang e até o final dos planetas. Cristo é testemunha. O canto dos bem-te-vis tentam me convencer de que ainda há esperança, mas os meus sentimentos são o cadáver de um cão, ou a caveira de um animal qualquer brilhando ao pôr-do-sol de um dia de setembro. Volte pra lá, amor. Todos eles, todas elas, te esperam, porque você desenha sorrisos no rosto das pessoas.quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 19
Nem pedras, nem carvalhos, nem submarinos de Júlio Verne. Apenas uma dor que beirava o absurdo. Trens descarrilhados nas minhas vértebras. Canções de agosto. O tempo passa em sentido anti-horário. Caminho em círculos. Espero ansiosa sua chegada. O medo é uma lesma vagando sobre azulejos. Penso nas lentes da sua máquina. Imagino posses. "Les Demoisseles D’Avignon". Agora as mulheres devem estar se oferecendo em taças de champagne, fingindo falsos interesses, grandes filosofias, que sempre se perdem na cama. Pérolas devorando ostras. Preciso dos seus olhos ou me perco nas reentrâncias dos meus abismos. “Voyage autor de ma chambre”. E você conhecendo mundos, se perdendo em Evas e verbos, acariciando outros sexos, vertendo verdades de outras entranhas. Côncavo e convexo. Nunca conheci o Paraíso. Maçãs e serpentes descansam nos retalhos. Não conheço a paz dos mortos. “O ciúme é uma faca cravejada de diamantes.” Talvez você não volte, há vários labirintos entre o Gênesis e o Apocalipse. O seu gosto ainda atormenta minha língua. Posso povoar mundos apenas das sobras de suas lembranças. Um rio verde e leitoso escorre entre minhas pernas. Olhos de peixe sempre acessos, minha eterna vigília.terça-feira, 25 de novembro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 18
Barcos que não levam a lugar algum. Eu viajo amanhã. Ele me faz esboçar um pequeno sorriso. Dentes ruminando rancores. Falso. Pouco importa, ele não pretende comprar a briga. Leões continuam devorando suas presas entre os lençóis. Algemas... E eu aqui, sem chicote e sem mãos e com os olhos vendados. Abaixo a cabeça, sei que é inútil enfrentá-lo, seus flashs me cegariam. Sento no sofá e escolho ao acaso os retalhos, texturas e cores se perdem num poço fundo. Escuro. Não há cordas, nem mortos nem feridos. Agulhas atravessam o tecido e ele permanece no seu silêncio de domingo. Qualquer passo errado e ele despencará de um prédio de 10 andares. Engulo minha saliva e milhares de garras arranham minha garganta. Não dessa vez. Me calo. Formigas correm pelo meu corpo. Cobras saltam das minhas entranhas. E eu continuo sentada escolhendo a combinação perfeita. Aulas de yoga. “O ciúme é uma viagem sem ponto de parada.” Poderia impedi-lo de sair, trancar a porta, engolir a chave como aspirina. Ele beija meu rosto. Imagino outros beijos, imagino sua boca furtando outras bocas, invadindo outras coxas. Sinto Guernica dentro de mim. Poderia mergulhar até o fundo do poço e achar pedras verdes e preciosas, porém meus pés estão cansados de calcar o carvalho. quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 17
Nossos corpos sob o sol do meio-dia. Vejo Frida Kahlo duplicada, comendo a si mesma. Observo nosso sexo.Colunas Partidas. Ferros atravessando minha vida, traves fechando meus olhos. Mãos cobrindo minha falta de pudor. Cavalgo sobre seu dorso. É frustrante devorar a incerteza de um desconhecido. Não vejo teu rosto. Luzes apagadas, frestas fechadas,vidros foscos. Cavalgo e imagino outra estrada, outras paisagens, janelas e olhares que jamais se abrirão. Um voyeur cego. Trilhos e ampulhetas dividem meus pensamentos. Sonho encontrar um caminho onde os lírios não conheçam o desespero das águas, nem desejem se misturar ao lodo. Flores de lótus não são plantadas em vasos. Ainda com as rédeas, percorro um campo de papoulas (a beleza é traiçoeira) e deparo-me com os mortos de heroína. Pico na veia. Passagem de ida ao Inferno. Filhos degenerados de Dante.Despertam dores. No dia seguinte a paixão é lua minguante. Gozo nos lençóis. O amor é assim, arrumação de camas, ruas sem saídas, novelos de uma Ariadne perdida no labirinto. Há barcas para atravessar o rio verde que invade meu quarto.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 16
Lá fora o sol secava as poças da última chuva. As tempestades passam, a calmaria chega, tarde, mas chega, no entanto, não são capazes de apagar os buracos deixados no asfalto. Um piche negro esconde meus olhos. Desviemos. Eu sorrio ainda, naquela foto de anos atrás, ao redor dos olhos, as rugas miravam minha tristeza. Olhos parados, sem expressão, olhos de pouco ver. Eles flertavam com a morte. Ela chega devagar, furtando um dia de cada vez, como esses amores brutais de subúrbio, os quais terminam manchando o chão e as páginas dos jornais. Aos domingos ela parece chegar manca, tenho a vaga impressão que não há mortos nem ternos de domingo. Filmes mudos atravessam minha retina. Ele me fita nesses instantes, nesses segundos singulares nos quais a vida se liquifaz entre nossos dedos. Negativos suspensos por toda a casa. A morte descansando sob nossos varais. Roupas sujas. Há sempre meias sujas escondidas no fundo de algum armário, no abismo covarde de algum baú. Os carros passam e a fumaça fica. Minhas narinas estão atravancadas. Não sei se é alergia ou desespero. Ou medo de inspirar todo o lodaçal que atravessa minha rua. Formas geométricas se avolumam na minha cabeça. A menor distância entre dois pontos é a reta. Rios verdes correm avessos a minha vontade. Queria que os ratos e as flores jamais se encontrassem.quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 15
Quando caminho sob esse sol que explode impiedoso na minha cabeça, sinto ódio de Lúcio, sinto raiva dos meus pés desobedientes e descalços, o asfalto queima minha alma. Procuro um bar, um café, um boteco, qualquer coisa que me tire do meio de todo esse lixo. Trilhos e galopes perpassam meu corpo. Cães mortos e fétidos fecham a avenida. Judas não se enforcaria em troca de míseras moedas. Traidores se escondem nos meus bolsos sujos. Os homens já não disfarçam seus pensamentos nos chapéus. Tanto sofrimento, tanta procura para acabar jogada na vala comum, onde não germinam flores nem palavras. Não consigo esquecer o cheiro forte de nicotina escorrendo fria dos seus dedos. As unhas duras e supostamente amarelas. A barba crescida lembra um comunista que não reparte nem o amargo do próprio cuspe. Não gosto de imaginar aquelas putas roçando o seu rosto sujo. Meu sangue ferve só de supor: “Você enxerga demais, mesmo sem ver nada!”. Imbecil, cretino! Como posso querer vê-lo com outras? Não sou masoquista, no entanto, as imagens me perseguem. Nosso amor sobrevive na carnificina da guerra, em meio a tiros e amputações.- Me dá um café.
- Com açúcar ou adoçante?
- Não importa. Me traz a droga do café!
- Puro ou com creme? Prefere copo de viagem?
- Você é imbecil ou o quê? Se eu pedi um café é porque quero um café e só.
- Perdão, não quis incomodá-la.
- Vocês são todas iguais, a gente tira o pingo e não são capazes de reconhecer o i.
- Mais alguma coisa?
- Não.
- Pronto, o seu café puro.
- Obrigada.
Rugas envelhecem o asfalto. Eu poderia reclamar por mais alguns minutos, dizer que o café tá frio ou fraco. Cansei, xingá-la não me satisfaz. Nada poderá feri-la. Ela fala baixo e calmo, como as pessoas felizes ou conformadas. Ela é segura, não treme, caso contrário, eu escutaria o barulho da colher na bandeja.
O café ainda está quente. Pequenos vulcões irrompem dentro da xícara, a lava escorre negra e tímida. Poderia sorvê-la, mas eu não gosto de café. Tiros abrem fendas em minhas mãos. A moça do café passa por mim, poderia lhe dar uma rasteira e fazê-la esborrachar no chão, como tantas vezes tenho esborrachado, mesmo na simples descida do meio-fio.
Metade do café fica na xícara. Meu único prazer foi insultar a balconista. No final da tarde, ela nem recordará. Haverá outros clientes, outros xingos. Sentarão nas mesas outros infelizes. Um rio brota incoerente nas veias de um cardíaco.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 14
Fios elétricos se enroscam em meus sonhos. Pombas e corvos. No varal roupas brancas, pretas e alguns negativos queimados. Fico imaginando as pernas daquelas vadias. As bocas em desalinho. A câmera invertendo as imagens. Ele gritando: “O pior cego é aquele que não pode ver!”. Um tapa no meio assimétrico da minha cara. Às vezes, ele faz isso, mira no meio do rosto e enfia as duas mãos inteiras, ácidas na minha cara. Um abismo vermelho entre eu e ele. Ele dá gargalhadas quando percebe que meu riso se fecha. E eu tantas vezes perdida na inconveniência de suas mãos. Deixo-o falando sozinho. Ciclopes correm atrás de mim, me cercam, me mostram cordas fortes e longas: “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.”. Ando sem rumo, nas ruas as pessoas velam seus defuntos, algumas levam seus mortos nas costas. Tropeço em caixões. Os meus fantasmas são tão palpáveis, tão concretos, tão reais! Eles acabam riscando o brilho fosco dos meus sapatos. Algumas pessoas encostam-se a mim, pedem desculpas constrangidas. Que se fodam elas e seus constrangimentos. Por que não engolem suas desculpas? Seria mais fácil eu disfarçar minha cara de nojo e tédio. As buzinas me lembram aquela velha louca que não para de gritar, parece um rádio fora de estação. Um rio verde e calmo explode dentro de sua boca. Pequenos caranguejos devoram meu presente já morto. quinta-feira, 23 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 13

Acordo. Tenho saudade das minhas antigas crenças, dos meus antigos sonhos, dos meus pesadelos e dos rancores escondidos nas minhas impressões digitais. A santa Luzia, o escapulário que me protegia da forca. Levanto e bebo um copo da água. Sinto uma fisgada no dedo. Estou farta de atravessar muros dentro de minha própria casa. Fissuras abrem a sola do meu sapato. A morte sempre começa nos pés. Eu sei que sairei e metade da casa irá junto comigo, me entortando as costelas. Um caracol velho e sem asas. Tudo bem, acho que posso carregar minhas cruzes. Às vezes, até solto uma risada sarcástica, afinal, no meu dedo sinto apenas leves agulhadas, enquanto na mão hemorrágica de Cristo, as chagas se multiplicam e escorrem feito um rio caudaloso e sem curso. As padarias se enchem de bêbados infelizes,que adiam o fatídico momento de olharem para as caras enrugadas e indiferentes de suas esposas.Os filhos estão em algum beco, cheirando e olhando pra coxa de alguma puta desavisada. A cerveja espuma um lirismo que eles jamais conhecerão. Histórias da humanidade escorregam e se repetem em suas línguas. Nesse tempo suas mulheres se masturbam na cama, imaginando a boca molhada e ágil de outro homem. O gozo as acalma. Já não esperam. Apenas comem em silêncio. A morte avança em progressão geométrica. Um antigo lago verde e calmo nasce na indecência do meu corpo, pequenos acrobatas giram sobre a linha da vida.
sábado, 18 de outubro de 2008
Prémio Dardos - gentilmente cedido pela amiga Magnetikmoon
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Mosaico de Rancores: capítulo 12

Caminho, caminhos entre flores, asfalto e pedras. Todos os lugares me parecem iguais. Caleidoscópios e escafandros. Sirenes, buzinas, gritos, gemidos, buracos, pequenos abismos escondidos no meio-fio. Grandes agonias nas bocas dos velhos, pretensões idiotas nos pés dos jovens. Pássaros tolos e sem asas. Os loucos vomitam margaridas. Nada diverso, nem fora, nem dentro de mim. Orgasmos nascem e morrem entre meus dedos. Na minha cabeça sempre as mesmas palavras, os mesmos gritos, os mesmos tiros, as mesmas canções, partidas e chegadas, cartas sem remetentes, cheiro de enxofre em xícara de café. Nunca vi o diabo, mas desde aquele maldito dia, os tiros, a minha irmã,o resto dela... posso sentir o seu cheiro, posso sentir seu tridente entre minhas costelas. Queria esquecer, não consigo, dez pancadas partem minha nuca. Entro na banca, peço o jornal, apesar de saber que as notícias de hoje são versões das de ontem. Gosto de fazer objetos com jornais. Objetos cinzas. Afinal, de nada servem os excessos de cores. Todos os retalhos desbotam com o tempo. O corte no meu dedo volta a sangrar, estanco com meia dúzia de palavras.Ultimamente é pra isso que me servem as palavras, pra estancar meu sangue pisado. O antigo rio verde brota do asfalto. Caleidoscópios, escafandros e náufragos submergem.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Os quatro cavaleiros

157. Mal o dia amanhecera e eu enxerguei o primeiro cavaleiro. Primeiro me assustei os homens maus costumam se assustar por quase nada. Imaginei que fosse um daqueles delírios provocados pela raiva. Não, não era. Vinha vestido de branco, trazia um chapéu de feltro na cabeça e um 38 na cintura. Sua cara tinha a fúria dos assassinos que já sentaram a minha mesa, já compartilharam do meu ódio, já vomitaram do meu pão. A guerra começara.
Pôsteres de mulheres peladas se misturavam ao cheiro de mijo, café e carne crua. As paredes testemunhavam promessas de vingança. Camisetas e cuecas sujas esbarravam nos meus pensamentos: as grades, os cavalos, o tiro, a faca e o resto da merda toda que me colocou aqui. Poluem a minha mente meus inimigos de escola, os sempre foda, os sempre bons e eu sempre no fundo do poço remendando rancores velhos e recentes com linha imprestável. “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo... E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil...”
O dia está claro, ofuscante e os ponteiros do relógio riem sarcásticos da minha cara de idiota. Embora aqui seja tudo tão imundo, eu sei que lá fora o sol queima o câncer de algum suicida. Os cavalos brancos me perseguem. Agora os parias brigam por restos, lá fora eu podia colher do pé frutas de mil reais, aqui eu espero a luta parar e recolho as migalhas. Não ligo pra eles, não os encaro, é arriscado demais. 157. Se não fossem os números já teria saído. O julgamento já teria acabado.
O sol se põe, adivinho pelo barulho dos ratos, eles preparam-se para sair das tocas. Esfreguei os olhos com os punhos fechados. Inútil, ele insistiu em aparecer, não pude fazer nada. Corpos suados e fedorentos aglomeravam-se ao meu redor. Era o segundo cavaleiro. Galopava coberto de sangue e vinha em minha direção. Trazia na mão esquerda um canivete. Alguns homens são fracos e corruptíveis. Meu corpo tremeu, não era medo do corte, era preguiça da luta, era nojo da lama do vale dos mortos.157. O inferno batia a minha porta. Cabala, mau presságio. É preciso saber ler os sinais. O rosto era anguloso, disforme. Tentei segurá-lo, abocanhei o seu braço musculoso, entretanto ele era forte demais. Cai, o canivete entrou entre minhas costelas, encostou-se a um dos meus rins. Apaguei.
A noite chegou, estava com a boca seca e amarga, era preciso beber, mastigar, rasgar um pedaço de uma coisa qualquer. Passavam um algodão molhado na minha boca. Queria socá-los, não podia, estava amarrado. Estava com fome e uma sonda enorme invadia meu corpo. Foi nessa hora, por volta das 11 horas da noite que eu avistei o terceiro cavaleiro. Ele vestia um terno negro e trazia dois soros, um em cada mão. Minha fome aumentava. Ele soltava gargalhadas. Ele parecia pesar meus pecados e contabilizá-los. 157. Esse é o número da minha desgraça.
A madrugada estava no fim e ainda não tinha dormido. Meu corpo queimava como brasa. Litros de suor e remorso atravessavam minha pele. O corte fedia, estava coberto de um líquido amarelo-esverdeado, uma espécie de decomposição precoce. Entrei em estado de delírio. Foi então que toquei meu dedo preso no quarto cavaleiro. Ele virou-se e pude ver seu rosto desfigurado. Era chegada a hora. 157. Essa foi a minha desgraça.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Do meu corpo comerás...
O tempo passa e sempre criamos novas combinações binárias, que nada explicam, mas que distraem nossos pesadelos. Somos picados eternamente pelas mesmas cobras, insistimos, beijamos a sua boca, extraímos seu veneno e dormimos enrolados em sua cauda, à espera da troca de sua pele.Um mesmo homem em um terno novo. Nas mãos ramalhetes de flores, não para reverenciar, é a cobrança dos mortos do dia anterior. Velórios e nascimentos todos os dias nas xícaras da mesa nunca posta. Apenas os amantes usam bandejas e geléias. Nós, creme de barbear, aparelhos e toalhas molhadas. Controles remotos, porque uma hora é preciso se desligar de nossas paranóias, amar menos, se doar mais. Viajar ao redor de nós e descobrir que esquecemos um pensamento, um absurdo no bolso do outro, essas insignificâncias tão urgentes que os outros, o outro não percebe, joga fora. Bilhetes e passagens de dois anos atrás. É o antigo costume de colecionar porcarias. Passo no meio-fio e recolho um braço esquecido do último abraço. Pensei em abaixar, mas que utilidade teria um carinho que se foi? Não sei, combinações binárias me fascinam, embora não as entenda. Vasos artificiais, você sabia da minha dificuldade em administrar pequenos seres vivos, sempre tão cheio de exigências! Gosto dos cactos, eles compreendem meu descuido e eu compreendo os seus espinhos cutucando a minha dor. Surpreendo-te com futilidades no meio da vida e você tão trágico, peças em três atos. Matematicamente incorreto, correndo sobre os fios de eletricidade. Nossos rostos nas pequenas poças de água do quintal. Envelhecemos. Amamos e envelhecemos, paixões furtivas aparecerão e eu perdoarei teu romantismo. Afinal, já somos tão parecidos que devorar um ao outro é estranho, é narcisismo, é canibalismo. Então,vamos caminhar, porque entre as pedras aparecerão alguns pássaros que farão parecer que o caminho é fácil, não se engane, eles logo passaram, eles sempre passam... No final, tudo é uma ridícula e necessária combinação binária.
sábado, 20 de setembro de 2008
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