Saio e o asfalto engole o resto de vida dos meus sapatos. Eles enxergam o que jamais serei capaz de sonhar em ver. Eles pisam em cima daquilo que penso entender. Choro, pois não posso esconder minha cegueira atrás de óculos escuros. Sons metálicos me invadem e domam meus ouvidos. É o bater de asas das grandes e covardes moscas azuis. Meus dedos sangram e me condenam. Lâminas e crucifixos. Não há crimes perfeitos, todos sabem disso, mas eu sempre ignorei as grandes verdades, elas me pareciam com os rótulos enganosos e com as fórmulas fáceis. Eu levanto com dificuldade e caio em minha própria merda. Tento me consolar lembrando do cheiro do café da minha mãe preenchendo tudo, mas logo vem os zunidos, o enxofre, os olhos doces e mortos de Belinha... Meu passado todo em desalinho. Meu corpo costurado, vermelho e cremado. Colcha de retalhos. O vento bate e leva tudo, até o pior de nós, que antes parecia tão inútil e dispensável. Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários. domingo, 10 de maio de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 35
Saio e o asfalto engole o resto de vida dos meus sapatos. Eles enxergam o que jamais serei capaz de sonhar em ver. Eles pisam em cima daquilo que penso entender. Choro, pois não posso esconder minha cegueira atrás de óculos escuros. Sons metálicos me invadem e domam meus ouvidos. É o bater de asas das grandes e covardes moscas azuis. Meus dedos sangram e me condenam. Lâminas e crucifixos. Não há crimes perfeitos, todos sabem disso, mas eu sempre ignorei as grandes verdades, elas me pareciam com os rótulos enganosos e com as fórmulas fáceis. Eu levanto com dificuldade e caio em minha própria merda. Tento me consolar lembrando do cheiro do café da minha mãe preenchendo tudo, mas logo vem os zunidos, o enxofre, os olhos doces e mortos de Belinha... Meu passado todo em desalinho. Meu corpo costurado, vermelho e cremado. Colcha de retalhos. O vento bate e leva tudo, até o pior de nós, que antes parecia tão inútil e dispensável. Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários. terça-feira, 28 de abril de 2009
Calibre 12
Documentário Estamira
Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique. Miro num labirinto colado na porta do quarto. Olho e disparo. Não foi dessa vez. Atiro num pardal, nessa cidade os pardais se multiplicam a cada dia, parece uma febre, uma epidemia. Eles balançam as cabeças e aceitam as balas com a mesma naturalidade e cortesia que agradecem pelas migalhas. Existem pessoas que admiram o voo libertino das aves, eu prefiro seus velórios humildes nas sarjetas.
Pego um bloco em cima da escrivaninha e verifico alguns nomes. A pia está cheia de louça, a cafeteira quebrou e meu estômago está colado nas costas. Mastigo um pão amanhecido e saio. O trabalho espera.
Giro em frente ao espelho. Conto quantas rugas nasceram desde que nos casamos. Miro meu corpo. A silhueta continua a mesma, a não ser por uma pequena saliência na região do abdômen, nada muito perceptível. Atiro uma pequena bola de tênis no cachorro, ele corre, dá voltas sobre o seu corpo e em seguida lambe minhas mãos. Fidelidade canina. Eu me intrigo com os cães que tentam devorar o próprio rabo. Ele ainda dorme, mas parece permanecer em eterna vigília, observando tragédias com o canto imundo dos olhos. Alguns pelos grisalhos cobrem seu peito. Meu Deus, conceda a esse homem um coração de carne, cansei de ruminar pedras e de quebrar picaretas.
Penteio o cabelo, coloco os sapatos e saio. A vida espera. Centrífuga.
Nosso encontro aconteceu ao acaso, eu sei que algumas pessoas não acreditam nisso, não sou uma delas. Estava sentada num café, como faço todas as manhãs, há tempo não me sinto mais à vontade em casa. A colher caiu da minha mão e ele gentilmente se abaixou e pegou. Começamos a conversar e foi necessário pouco mais de meia hora para percebermos o quanto tínhamos em comum. Depois disso não é necessário contar, aconteceu o previsível. Ele tinha o mesmo sorriso do Felipe antes do casamento. Eu fechava os olhos e podia jurar que o tempo regressara, era Felipe ali comigo, devorando meus mistérios, sorvendo cada pedaço insípido de mim.
Ela jamais desconfiou de nada. Romântica demais, sonhava com amores que salvam e não retalham. Não posso negar que ela mexeu comigo e que, talvez, em outra situação até me deixasse levar. Mas eu estava ali a trabalho, e eu respeito meu trabalho. O trabalho dignifica o homem, não é o que dizem? Admito que me custou caro fazer o que fiz. Não tinha outra escolha, eu era funcionário do seu marido, temporário, mas era. Daria tudo para tocá-la novamente. Seus cabelos longos e ruivos, a boca...
Vendo seus olhos. Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique.
Olho o seu corpo inerte, um mar vermelho explode em mim. Sublimo. Um espelho branco me espera no banheiro. No lugar das lágrimas, o pó.
No céu, os últimos pardais sustentam o poente, enquanto cães famintos devoram o próprio rabo.
Olho o seu corpo inerte, um mar vermelho explode em mim. Sublimo. Um espelho branco me espera no banheiro. No lugar das lágrimas, o pó.
No céu, os últimos pardais sustentam o poente, enquanto cães famintos devoram o próprio rabo.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 34
Galos cantam e não assustam meus pesadelos. Não existem despertares ou regressos para os seres inóspitos que vivem em vigília. Fendas sustentam meus mundos. As manhãs têm cheiro de carne e sangue, minhas manhãs acordam tateando o ódio dos anoiteceres. Tenho centenas de olhos cobrindo meu corpo e nenhum deles é capaz de prever a verdade. Cataratas, traves e glaucomas. As mentiras são minhas hóstias de cada dia: purifique e ensine-me a morrer um dia de cada vez, enquanto tetos desabam na minha cabeça e partem meus ossos. Fêmur exposto, vértebras e flautas rompidas. As notas das músicas penetram meus ouvidos como lanças quentes. São Sebastião ajoelha em meu altar e chora. E eu penso, se ao menos eu soubesse cantar o mundo não me retalharia. Não seria necessário costurar colchas e mais colchas para reinventar histórias mortas. No entanto, quem acreditaria em uma Sherazade cega e tola? Lucio permanece em silêncio, ruminando seus duelos. E eu sei que alguns cortes e amputações me atingirão, suas espadas me procuram cheias de sutilezas e rancor. Véus despencam do meu rosto e repetem promessas desfeitas. Um rio verde se abre diante de mim e Jesus lava meus pés com devoção divina. sábado, 18 de abril de 2009
Blogagem Coletiva - Quem foi Monteiro Lobato?

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
Quem já foi criança sabe que não é necessário grande sacrifício para sair do lugar, basta utilizar o pó de pirlimpimpim e voar através do espaço. E eu que me julguei tão atemporal ao procurar palavras para uma crônica percebi o tempo correndo sólido e pedregoso embaixo dos meus pés. Carvalhos submersos em um sítio do meu passado. Vinte anos atrás e eu poderia jurar que todas as bonecas falavam e sabugos de milho pensavam, e como pensavam!!! Ainda hoje olho com respeito às grandes plantações, se a raposa de Saint-Exupery lembra-se do príncipe ao ver os trigais, eu recordo com delícia do Visconde de Sabugosa ao avistar o milharal. Não enxergo apenas Ele, mas uma infância onde haviam risos e quintais.
Não posso dizer com exatidão a influência de Lobato na minha literatura, mas com toda certeza ele esteve presente nas minhas fantasias infantis, não como escritor, porque naquela época eu nem sabia direito o que isso significava, ele era um grande companheiro de aventuras, alguém que não me conhecia, contudo, adivinhava meus pensamentos mais absurdos, talvez tenha surgido aí minha paixão pelo realismo-fantástico.
Monteiro ensinava sem ser chato ou pedante, falava de guerra sem ser pacifista ou soldado. Ou melhor, talvez o sucesso da obra de Lobato foi exatamente sua falta de posição política, ele não dizia nada, absolutamente nada, em compensação, Emília era uma pedra no sapato de qualquer um, e isso era realmente encantador, principalmente para uma boneca de pano mal acabada, tinha a coragem de criança e a petulância dos adultos. Numa atitude totalmente impulsiva, ela foi capaz de transformar homens em miniaturas porque estava chateada com a tristeza gerada pela guerra. Agora, confesse comigo, se você tivesse a chave do tamanho, quantas vezes teria transformado a humanidade num bando de formigas, e se bobear teria até esmagado algumas, não é mesmo??? Emília é a boneca que toda mulher almeja se tornar, casa e descasa a hora que bem entende e não tem papas na língua, como diria minha querida e saudosa avó, que se parecia muito com Dona Benta. Monteiro foi um verdadeiro Jung da alma infantil, ele encontrou figuras que é comum a toda criança. Foi um mestre no que fez.
Também não posso me esquecer que encontrei com Monteiro bem mais tarde em suas crônicas para adultos. Descobri seu engajamento de uma forma bem mais panfletária, ou talvez, eu é que tinha crescido. Confesso, admiro a coragem e a perseverança desse homem, se eu tivesse um décimo de sua força, teria tudo que desejo. Seja como adulto ou como criança, Lobato é uma leitura obrigatória. Lembrei dos ditos de uma velha senhora: “É, Deus sabe como fazer a mulher!!!”. Tomaria suas palavras e diria: “É, Monteiro sabe como fazer um personagem!!!”. Aliás, ele não fez personagens, ele criou universos impensáveis, ou melhor, possíveis somente na cabeça das crianças e como é mágico ver com os olhos primitivos de uma criança, olhos imaculados. Queria que a minha morte tivesse o encantamento primeiro dos livros de Monteiro.
Não posso dizer com exatidão a influência de Lobato na minha literatura, mas com toda certeza ele esteve presente nas minhas fantasias infantis, não como escritor, porque naquela época eu nem sabia direito o que isso significava, ele era um grande companheiro de aventuras, alguém que não me conhecia, contudo, adivinhava meus pensamentos mais absurdos, talvez tenha surgido aí minha paixão pelo realismo-fantástico.
Monteiro ensinava sem ser chato ou pedante, falava de guerra sem ser pacifista ou soldado. Ou melhor, talvez o sucesso da obra de Lobato foi exatamente sua falta de posição política, ele não dizia nada, absolutamente nada, em compensação, Emília era uma pedra no sapato de qualquer um, e isso era realmente encantador, principalmente para uma boneca de pano mal acabada, tinha a coragem de criança e a petulância dos adultos. Numa atitude totalmente impulsiva, ela foi capaz de transformar homens em miniaturas porque estava chateada com a tristeza gerada pela guerra. Agora, confesse comigo, se você tivesse a chave do tamanho, quantas vezes teria transformado a humanidade num bando de formigas, e se bobear teria até esmagado algumas, não é mesmo??? Emília é a boneca que toda mulher almeja se tornar, casa e descasa a hora que bem entende e não tem papas na língua, como diria minha querida e saudosa avó, que se parecia muito com Dona Benta. Monteiro foi um verdadeiro Jung da alma infantil, ele encontrou figuras que é comum a toda criança. Foi um mestre no que fez.
Também não posso me esquecer que encontrei com Monteiro bem mais tarde em suas crônicas para adultos. Descobri seu engajamento de uma forma bem mais panfletária, ou talvez, eu é que tinha crescido. Confesso, admiro a coragem e a perseverança desse homem, se eu tivesse um décimo de sua força, teria tudo que desejo. Seja como adulto ou como criança, Lobato é uma leitura obrigatória. Lembrei dos ditos de uma velha senhora: “É, Deus sabe como fazer a mulher!!!”. Tomaria suas palavras e diria: “É, Monteiro sabe como fazer um personagem!!!”. Aliás, ele não fez personagens, ele criou universos impensáveis, ou melhor, possíveis somente na cabeça das crianças e como é mágico ver com os olhos primitivos de uma criança, olhos imaculados. Queria que a minha morte tivesse o encantamento primeiro dos livros de Monteiro.
Marcadores:
blogagem coletiva - Monteiro Lobato
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Frida Kahlo: um ensaio
PESSOAL, TEM UM TEXTO SOBRE A FENOMENAL PINTORA MEXICANA FRIDA KAHLO NO AMÁLGAMA. OS INTERESSADOS POR FAVOR ACESSEM:http://www.amalgama.blog.br/04/2009/frida-kahlo-maravilhosa-e-visceralESTA ARTISTA MERECE UMA LEITURA.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Catedral
sábado, 4 de abril de 2009
Entrevista com o blogueiro
Informo meus amigos que tem uma entrevista minha no blog da Vanessa http://fio-de-ariadne.blogspot.com/. Espero que gostem. Aproveito e agradeço a divulgação.
beijos
beijos
Marcadores:
entrevista
sexta-feira, 27 de março de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 33
Mais um dia se arrastando entre os retalhos furta-cores da nossa incompreensão. Queria tanto conseguir sorrir com a verdade estampada roxa nos dentes. No entanto, sou alegre apenas entre frestas, palitos e solidões. Meu ventre dói como filmes tristes. Vasculho e arranco fetos. Ninguém merece vingar pra vida. Cobras pendurando as antigas peles em nossos antigos cabides. Inspiro demoradamente e centenas de pregos enferrujados entram e atravancam minhas narinas. Respirar está cada vez mais caro. Parece que nossos mares desembocam em esgotos. Baratas e ratos e traças abrindo trilhas nos lençóis. Roendo as migalhas da nossa tão sonhada felicidade. Gafanhotos devorando homens, a ira abençoada de Deus. A penúltima chuva levou crianças e umedeceu os muros e eles ainda não secaram, rastros de lesmas nos quintais. Queria entender ou mudar os passos desde nosso primeiro encontro. Os sapatos eram novos e incrivelmente confortáveis, agora estão velhos e criam calos, joanetes, olhos de peixe. Ando tropeçando na imagem suja e imperfeita que fez de mim. Eu me enxergo com seus olhos e não gosto do que vejo. Mendigos acariciando cães. Sóis e trovões anoitecem em minhas mãos, enquanto rios atravessam os nós dos meus dedos. Amanheço e manejo a insônia indolente dos dias.quarta-feira, 18 de março de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 32
Não vale a pena encarar guerras para abrir valas e depositar amores mortos. Canhões e tanques estão apontados para mim e eu espero. A grande virtude dos fracos. Os urubus planam felizes sobre suas carniças. Pousam e devoram olhos vazados de dor. Oroboro, o ciclo inútil da vida. Minha boca já sugou picadas de cobras e o veneno ainda abre feridas incuráveis na minha pele. Lepra. Amores arrancam partes e nos aleijam. Tromboses e cadeiras de rodas. Você me possui, escancara meus abismos e tira o resto de luz que me resta. Você jamais foi capaz de percorrer meus porões sem se perder nos meus escombros, sempre trazendo escondidas nas mãos pérolas negras e roubadas. Escafandros afogados no lodo. Anjos debruçados na lama. Cordas enlaçadas com arte envoltas no pescoço. A lâmina afiada do seu mundo me assusta mais do que guilhotinas cegas. Não há como furtar sem deixar impressões digitais ou partes dos dedos. Não quero mais ser A Suplicante de Claudel. É triste dançar uma valsa só ao som de um réquiem. Amá-lo é mergulhar com os bolsos cheios de pedras num rio verde e calmo, onde descansam libélulas e fantasmas de Virginia Wolf.terça-feira, 3 de março de 2009
Desfaço pedras e sonho com as mãos. Seu sexo me excita e me acalma, no entanto, não retira os musgos dos muros que crescem dentro de mim. Cercas elétricas. Carcereiros do que nos restou. Fígados de Prometeu. Bombas de efeito pouco moral. Não há como se proteger dos ladrões que enganam os estômagos vazios das noites. Dragões que escalam escadas e torres e devoram princesas. Você me propôs a paz que jamais te habitará. O Natal passou e nossas meias continuam sujas, murchas e penduradas naquele velho arame farpado. Os espinhos nunca me assustaram e os meus pés são duros, calejados. Penso em nosso amor fraco e hemorrágico. Eutanásias e balões de oxigênio. Procuro antigas cartas, é comum se contentar com alegrias enterradas. Te odeio e isso não me faz forte. Minha carne fresca e esfolada sangra dores passadas, hoje entendo porque as crianças tiram as cascas do machucado, é pra ver o que sobrou da queda. Viajo em ruas de paralelepípedos. Sou alvo e disparo. Tiros para cima atingem minha cabeça. Coágulos sujam sua roupa e eu me pergunto: Pode existir um homem sem sombra? Junto retalhos numa compulsão louca por recriar a vida em coisas mortas. Do jarro de flores escorre um rio verde e denso, vejo homens vindo à tona respirar. Amores não morrem, são sacrificados.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Antes da Ressurreição
Meu corpo adoece, expele fetose multiplica as dores dos meus partos inexistentes,
sobre a cama ainda há o sangue sagrado de Abel,
e eu adormeço, embora nua e dispersa.
Acordo e os cães não me esperam mais na porta,
não lambem nem fazem estancar o sangue das minhas velhas feridas.
É madrugada em mim,
espero pacientemente o gozo das manhãs.
A vida é redundante.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 30
Vermes adormecem na minha cavidade ocular. Olho e acredito somente naquilo que não posso ver. As sombras são tão maiores do que aquilo que reproduzem! Mitos e cavernas e Platões confusos. Cegos em procissões. Percorro seus abraços, mãos amputadas, masturbações interrompidas. Caminho com sapatos de bico fino no vazio do seu corpo, enquanto retiro fiapos de solidão que ficaram entre meus dentes. Nosso amor apodrece, se decompõe na minha boca. O gosto e o gozo de tantas noites. Cabeças de medusas. Jardins petrificados. Figueiras morrem secas nos vãos do meu quarto. A casa está vazia, mas ecoa gritos. A velha histérica não cala a boca. Poderia gritar também, romper as vísceras das madrugadas em vigília dentro de mim. Mas sou louca e devoro com voracidade cada palavra que tenta sair da minha mente desvairada. O peixe morre pela boca. É o que todos dizem, não é? Línguas percorrem minha pele. Navalhas afiadas. Formigamentos. Remorsos. Lúcio me toca. Guilhotinas a um centímetro do pescoço. Como enterrar todos meus mortos em cova tão rasa? Sua língua úmida estupra minha boca. Cardumes despencam em minhas ancas. Mergulho e acaricio a dureza dos carvalhos.Meme proposto por Luciano Fraga
Agradeço pelo meme recebido de Luciano Fraga:
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é O Primeiro Homem de Albert Camus. Na página 161 a 5° frase diz: "Pensam no futuro e esqucem o resto"
Repasso o meme para:
Jenifer
Arabica
Daniel
Ingrid Guerra
Fao
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é O Primeiro Homem de Albert Camus. Na página 161 a 5° frase diz: "Pensam no futuro e esqucem o resto"
Repasso o meme para:
Jenifer
Arabica
Daniel
Ingrid Guerra
Fao
Meme proposto por On The Rocks
Agradeço pelo meme recebido do blog On The Rocks:
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é Fome de Knut Hamsum. Na página 161 a 5° frase diz: "Encaminhei-me de novo para o porto."
Repasso o meme para:
Guru Martins
Heitor Cardoso
Cris Fonseca
JC
Germano Xavier
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é Fome de Knut Hamsum. Na página 161 a 5° frase diz: "Encaminhei-me de novo para o porto."
Repasso o meme para:
Guru Martins
Heitor Cardoso
Cris Fonseca
JC
Germano Xavier
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 29
Pedras fazem ninhos entre meus rins. Árvores da vida semeadas em terreno pedregoso. Há milhares de histórias inscritas na minha pélvis. Fórceps. Restos mortais de outros homens. E o meu corpo descansa em desafeto. Fetos abortados fora de mim. Felicidades geradas in vitro. As desculpas descansam cínicas em cima da mesa. Poderia cerrar as cortinas e deixar o sol secar a poça que se forma no meu peito, cegar minha vista. Não posso me mover, qualquer passo e esmago as flores ao redor de mim. Fleurs du mal. Rimas raras, versos brancos. Nosso amor é uma estrofe esquecida de acontecer. Poesia marginal em boca burguesa. Fecho o livro, mas as frases não saem da minha cabeça. Você voltou como se nada tivesse acontecido. Pause. A mesma roupa, o mesmo cheiro, os mesmos verbos mal conjugados, a mesma língua... Trezentos e sessenta graus. E para você eu continuo igual, uma equação resolvida, soluções fáceis, números inteiros. E eu me julgo cálculo integral. Rios verdes passaram por mim e não mudaram seu curso. Continuo à margem, contando lírios. Desapego.
Assinar:
Postagens (Atom)

