quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mundo das ideias


Toda badalada nos fere, a última nos mata”
Provérbio latino-americano


Morrer é como pisar um rio pela primeira vez, nunca sabemos ao certo o que há no fundo.

Rua Aurora. Os jovens riem dos velhos, achando serem imunes à velhice, pensando que a adolescência jamais arrumará as malas e partirá sem recados, abrupta, como um mochileiro irresponsável. Eles falam em códigos e contam piadas até o amanhecer e para eles as noites são estreladas e não lembram em nada os suicídios e os ciprestes de Van Gogh e passam rápidas e o sol e o gozo nasce quente novamente todos os dias. Também acreditei nisso, bebi dessa fonte enganosa da eterna juventude. Hoje as moedas que joguei alimentam os desajustados.
Meus olhos eram flutuantes e verdes... Tão verdes e impressionantes como as lagartas antes das asas. Envelhecer era ter mais de dezoito. Os cavalos passam sempre a galopes... Famintos. Como não percebi antes? Ah, a eterna adolescência de Leminski...Aos quinze também era poeta, mas as palavras foram morrendo aos poucos, sufocadas por sondas e cateteres, algumas engolidas, outras despejadas em conchas azuis, na esperança tola de virarem pérolas, as coisas apodrecem mais rápido do que imaginamos. Olho a beleza furtiva no breve e absurdo afogamento dos corais. Comungo com a perversidade dos espelhos e com os labirintos em braille de Borges. Apenas suspeito da ingenuidade dos caracóis sempre envoltos em cascas duras, vendo a vida passar lambendo o chão e a merda de todo homem. O mundo visto pelo buraco omisso da fechadura. Regurgito: e a vida pode ser mais cruel que a morte. Afiem as facas!!!! Ela nos desossa como um açougueiro louco, contaminado pela frieza do ofício.
Rua Brinco de Princesa. Passo as mãos trêmulas pelos cabelos ralos. Olho através da janela, trespasso gerações. O moço de cabelos compridos e anarquista, agora anda de terno, com ares de pai, é gerente de uma multinacional. A moça, outrora sorridente, passa contando os rejuntes dos pisos, tão cúmplice da tortura do tempo, eu não fui o único a ser trapaceado... Sua mãe que desfilava distraidamente sem blusa com as cortinas abertas, agora guarda com vergonha os seios flácidos, e apenas seus decotes são vermelhos e vivos. E apenas eu sou seu voyeur e todas as janelas lembram o suspense de Hitchcock. Seu rosto tem o cheiro e as manchas próprias das frutas amadurecidas à força. O tempo é um cão cego e sem faro a nos guiar.
Rua das Ilusões. Vejo o mundo e posso ver a pena através dos seus vitrais embaçados. De tudo o que me restou a piedade é o sentimento maior de todos, Camille Claudel me entenderia, apesar da sua loucura e devassidão. Ninguém fica pra semente, escuto um coro rouco gritando. Espero sinceramente que não, porque a morte se instalou entre meus ossos e minha pele, ela é agora minha nova e digníssima carne.
Rua sem saída. Aqui, agora, percebo o relógio se arrastando num compasso tão diferente do meu, eu diria inversamente proporcional. Os relógios de bolso e os pêndulos não mais existem. Percebo o quanto envelheci, meu corpo já não responde aos meus comandos, já não posso correr disso tudo. E o moço me diz gravemente: “Você jamais teve minha idade!”. Sou escravo dessa visão parcial da minha janela. Jamais poderei sentir novamente o corpo de uma mulher estremecendo sobre meu peso. Sou leve como o pensamento, estou tão próximo do mundo pervertido das idéias. Estou tão debilitado que durante toda essa conversa, apenas passei do corredor para a tristeza úmida do quarto.
O tempo me fisga com seu membro de aço ejaculando um esperma gosmento, branco e estéril. A velhice é como amanhecer e anoitecer sob o giro alucinante do sol do Alaska.
Na placa do carro preto 8888. Revivo o invento das bombas de napalm da Segunda Guerra. Afundo meus pés, não creio nos submarinos dos sonhadores... Escafandros emergem de repente... Sigo e escuto os galopes... Finalmente avisto os cavalos de Tróia.

domingo, 4 de outubro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 40

Um anjo caído. Agora era assim que eu me referia a você. O chão sempre foi meu lugar de destaque, mas agora era seu. A vida é de uma comicidade única. Pão e circo todos os dias.Você que jamais precisou de mim, tão seguro de si, absoluto, agora estava ali, a um palmo das minhas minúsculas mãos. Manso e arredio com um homem castrado. Sem poder se movimentar, implorando auxilio de uma doida, de alguém que nunca enxergou a verdade estampada, óbvia, nua, crua e de mau gosto. Sou sua roupa mais incomoda, seu traje de domingo. Mofado. Pode se debater, porém não mudará a ordem perversa das coisas. Escorpiões devidamente verdes percorrem seu sexo e você não é capaz de removê-los. Ainda estou tentando entender como você pode cair do terceiro degrau da escada. Na certa a sua pretensão não pode usar o corrimão. Agora quem me contará cada detalhe idiota dos dias? Cada mudança de nuance de um céu que é sempre cinza? Pipas e balões em dias nublados. O tempo é um espelho enrugado, partido e oxidado. Não tente me provar o contrário com teorias baratas. A tristeza é ausência absoluta de cor. E meus olhos são de um branco leitoso e fosco. E dizem que o branco é o resultado de todas as cores juntas. Não na incongruência homicida dos meus olhos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 39


Passo minhas mãos no seu corpo e me retrato, despenco em mim. Afundo no meu particular mito da caverna – cegueiras. O ciúme é inútil como águas-vivas sem vítimas. Meus olhos castanhos-negros-esbranquiçados perdidos na lama fétida dos manguezais. Meus olhos pretos-abismos devorados pelos caranguejos amarelos e famintos. Sorvendo vida entre os buracos das minhas falsas costelas - Ainda sobrevivo - Sugando o sangue, lambendo a flor exposta das feridas do meu último coma. Adão e o Inferno pouco generoso de Dante. Levanto e me derramo em prantos, a solidão me acompanha e afia seu cajado, já não estou sozinha entre os homens vermelhos canibais. Sacudo meu corpo e dele caem pequenas estrelas verdes sem esperança. Pedras furta-cores. Os filhos de Afrodite só chegam ao amanhecer. Tantos espelhos partidos e não sou capaz de inverter imagens. Todas as minhas ilusões de ótica foram arrastadas pela força vulgar do ralo. Não peça coerência, os loucos são devidamente alegres e atravessam muros multicolores, enquanto exterminam pássaros com suas espingardas de festim.

sábado, 22 de agosto de 2009

LSD


Corro em disparada em direção ao descaminho
Trilhos me fazem andar em linhas curvas e perigosas
Tenho vertigens, vejo imagens ocas e brancas
Eu sabia que não poderia haver amor entre um escorpião e uma cobra
Guizos presos no meu dorso
Dentes e pernas não me afligem
Atalhos e mãos não cessam minha fúria de fêmea no cio
Crinas nascem e morrem no meu sexo
Cavalos feridos são simplesmente assassinatos sem golpes cruéis de faca
Minha dor é olhar o mundo e não ver nada além de um poço
fundo e imundo - desalinho - cavo o meu próprio umbigo
Flores não nascem em mim
Esterco
A morfina não adormeceu noites nem aliviou o terror das minhas lobotomias
Do lado de fora, o sol e a lua se encaram, frente a frente,
como se não houvesse precipícios
Insulinas me invadem e me tornam menos doce.
Não sei se punge mais os meus rasgos ou meus remendos.
Queria entender o vermelho-morte de Almodóvar.
O amarelo suicida de Van Gogh
Arrancar com carinho os lírios que nascem à margem do meu corpo
O nosso amor é um labirinto repleto de portas falsas
Caranguejos roçando folhas à procura de abrigo
E eu, de cócoras no escuro, devorando com aflição meus pequenos defuntos
Fetos inocentes flutuam dispersos na minha barriga
Quente feito mármore
E eu não tenho coragem de arrancá-los com os dedos
Punhos verdes e inertes. Meu corpo delgado vomita pores-de-sóis
Arco-íris entorpecidos adormecem depois das tempestades
Tudo se foi e minha cegueira não me deixou degustar os detalhes mórbidos dessa partida
Deito na minha gaiola de aço e espero o pássaro negro e cego devorar o resto dos meus olhos. Esbranquiçado.

sábado, 15 de agosto de 2009

selo gentilmente cedido por Chico

SELO BLOG DE OURO.


Recebi do blog Coisas do Chico,
o Selo Blog de Ouro



As regras:

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.



os meus indicados:


Penetra surdamente no reino das palavras ...
VERSOS & PERVERSOS
Bragas e Poesia
On The Rocks

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 38


Você jamais me poupou dos detalhes. Uma simples chave em cima do criado-mudo era comentário pra uma semana. Era sua maneira egoísta de me escancarar o mundo. Abrir meus olhos esbranquiçados de não ver. Eu procurava explicações e você me estendia dálias negras e úmidas. Aveludadas e amargas. Por que todos imaginam que flores são doces? Ergo os lençóis e vejo os imensos marimbondos. É preciso mastigar com ternura a singularidade das coisas. Você foi meus olhos, cru e perverso, e isso me incomodava. Enxergar o mundo com suas distorções, com sua visão fraca e pouco viril. Quartos escuros e vidros canelados. Fotos invertidas no varal. Uma poética 3X4. É incoerente encontrar vida na mansidão rouca dos dias. Minha garganta muda, cheia de nós, está envolta em cachecóis. Você tem esse poder de dar dimensões absurdas ao cotidiano, transformar migalhas em pães. Água turva em vinho. E eu presa às urgências. Cão-guia atravessando faróis. Obedecendo a tolice linear do mundo. Túneis desfeitos. Indigentes apodrecendo nos acostamentos. Canibalismos. A morte é um ser louco e pensante. Trituro o troco do entardecer. Escurece depressa. Olhos à espreita. Apalpo minhas costelas e ainda percebo a fúria de Deus no meu corpo. A costela rejeitada. A cegueira não me poupou de enxergar minúcias. Alavancas proporcionam uma falsa impressão de força. Sigo limpando a sujeira do amanhecer, aquela cor rosa esperança que não me recordo mais.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Boca de Lobo

tela: Jose Luis Fuentetaja
Minh'alma deita suas vísceras no asfalto estrelado,
as tripas ainda esverdeadas digerem
sonhos e vertigens de outros tempos
vejo olhos e âncoras suspensas no espaço.

meu corpo é um cão pardo e faminto,
é uma cidade durante a noite
quando todas as casas trazem seus lixos à porta

Meu coração é um esgoto a céu aberto.

domingo, 12 de julho de 2009

Enquanto a lona cai por Marcia Barbieri


Convido todos os amigos que acompanham este blog a conferir a publicação do meu primeiro livro através do site: http://clubedeautores.com.br/ , não sei se conhecem este espaço, a iniciativa deles é muito legal. O custo do livro é um pouco alto, mas amei ter meu livro mais palpável. O link do livro é:
http://clubedeautores.com.br/book/3114--Enquanto_a_lona_cai

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A morte e o sapateiro


Nunca tive medo da morte, achei que houvesse algo de branco e libertário nela. Luzes e corredores infinitos. Na minha infância a morte tinha uma tristeza glamourosa como nos filmes: guardas-chuvas, roupas pretas, uma garoa fina e o salmos com seu cajado e seus vales verdejantes. Agora, estava ali, diante de mim, um corpo grande e inchado para caber na fúria tempestuosa da vida, um sol bonito e brilhante de uma falsa primavera e um Cristo gordo que nega mostrar o sangue quente de suas feridas. Lembro que sempre havia uma atmosfera tenebrosa quando meu pai lustrava seus sapatos e cortava seus cabelos. A morte é um velho e cansado sapateiro, ele ruminava entre os dentes amarelos e sem frestas. Não havia nenhum tipo de falhas naquele homem. Eu observava-o com olhos gulosos de infância. Eram rituais que acompanhavam as mortes e sua boca, quase cotidianamente muda, procurava explicações para o obtuso, ele que era péssimo até mesmo com o óbvio. Sentia um cheiro amargo de flores e grama, milimetricamente plantada com a petulância própria dos vivos. Mas não sentia dor, isso era privilégio dos homens que já tinham passado dos quarenta, eu era nova demais para conhecer o gosto telúrico e aveludado da saudade. Aquele caixote de madeira afundava na boca da terra, enquanto mãos espremiam botões de rosas de todas as cores. E a morte me parecia ainda mais branca. A mortalha me fascinava, vestir-se para um jogo, no qual não há adversários nem juízes, apenas derrotados.
Do meu lado uma muda apalpava um lenço de pano, dele saiam centenas de pássaros negros e cobriam o teto do velório, enquanto isso ela flertava lascívia com o silêncio da revoada.
- Quem é?
- Nelson.
- Era seu marido?
- Não.
Poderia responder milhares de coisas para aquele trombadinha, no entanto, não disse nada. Afinal, ele sabia tanto da vida e tão pouco da morte, que nenhuma explicação seria plausível. Ele pisava os pés encardidos nos defuntos, violava suas covas, mas não sabia nada sobre morrer. A morte era uma multidão de gente falando de feitos estrangeiros, uma intrusa, eram corvos penetrando virgens.
Os gatos pardos reviram a noite e anseiam serem vistos.
Penso em arrastar-me e seguir o cortejo. Entretanto, não há mais cortejos, apenas os urubus esperam famintos do lado de fora.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 37


Persigo a fúria amarela dos escorpiões. As ferroadas adormecem meus tendões e meus rancores. Vozes silenciosas e gramofones me distraem. As argolas alongam meu pescoço e não posso ver a gangrena dos meus próprios pés. Lúcio ri da minha paralisia. O presente congelado e soberano. A vida deixada para depois. Tantas histórias se passaram e não mudaram o curso tortuoso das minhas vértebras. Escolioses e lordoses me pouparam de carregar o mundo nas costas. Corpos sãos apodrecendo na lama dos leitos. Nossa cama vasculhando nossos segredos mais imundos. Eu sorvendo água turva de sua boca. Frutas verdes amarrando minha língua. Castigos imprevisíveis para meus crimes brancos. Armas brancas, mãos negras e culpadas. Não perco a mania de inverter os jogos, virar tabuleiros e te amaldiçoar pelas minhas faltas. Apalpo teu corpo, procuro as feridas, remexo suas vísceras como um São Tomé insano. Não vejo verdade nenhuma, sinto apenas um sangue coagulado e morto. Descalcifico seus ossos, você resistiu às piores quedas, continua em pé, à espreita. Eu continuo pisando nos mesmos ovos, triturando as mesmas pedras, chutando mistérios ao amanhecer. Você dorme em posição fetal, sem se importar com o destino da tempestade. Barcos de papel afundam no nosso riso. Desvie, meus olhos são parados, frios e fatais como abismos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 36

A chuva chega e traz um cheiro forte de terra, mágoa e receio. Paro o meu destino, sinto as rodas e engrenagens enferrujadas do meu corpo. Não posso simplesmente fingir que os pingos não existem e não me incomodam. Eles doem como mordidas de loucos raivosos em minha carne, me perseguem feito cães sarnentos e famintos e aumentam minha fome nunca saciada. Agora Lúcio está lá, flagrando os momentos, na sua inércia idiota de sempre. Carrego Ele dentro de mim e ele pesa míseros 200 quilos. Ele vive na sua belle époque. O ciúme perfura minhas tripas, invade minhas veias. São agulhas quentes de sangue e insulina. Calvários, enterros e missas de sentimentos vivos. A maioria das coisas é enterrada viva, posso ver as unhas agredindo o caixão e perfurando os ossos. Calcificações. Não existem dias ou noites para os enfermos, a vida se perde na atemporalidade, se esvai nos intervalos das insignificâncias. Presto atenção na ausência de cor dos rejuntes. Posso sentir, mas não posso ver o tamanho das dentadas.

domingo, 10 de maio de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 35

Saio e o asfalto engole o resto de vida dos meus sapatos. Eles enxergam o que jamais serei capaz de sonhar em ver. Eles pisam em cima daquilo que penso entender. Choro, pois não posso esconder minha cegueira atrás de óculos escuros. Sons metálicos me invadem e domam meus ouvidos. É o bater de asas das grandes e covardes moscas azuis. Meus dedos sangram e me condenam. Lâminas e crucifixos. Não há crimes perfeitos, todos sabem disso, mas eu sempre ignorei as grandes verdades, elas me pareciam com os rótulos enganosos e com as fórmulas fáceis. Eu levanto com dificuldade e caio em minha própria merda. Tento me consolar lembrando do cheiro do café da minha mãe preenchendo tudo, mas logo vem os zunidos, o enxofre, os olhos doces e mortos de Belinha... Meu passado todo em desalinho. Meu corpo costurado, vermelho e cremado. Colcha de retalhos. O vento bate e leva tudo, até o pior de nós, que antes parecia tão inútil e dispensável. Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Calibre 12

“A culpa é do hipócrita (... ) que atira a pedra e esconde a mão.”
Documentário Estamira


Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique. Miro num labirinto colado na porta do quarto. Olho e disparo. Não foi dessa vez. Atiro num pardal, nessa cidade os pardais se multiplicam a cada dia, parece uma febre, uma epidemia. Eles balançam as cabeças e aceitam as balas com a mesma naturalidade e cortesia que agradecem pelas migalhas. Existem pessoas que admiram o voo libertino das aves, eu prefiro seus velórios humildes nas sarjetas.
Pego um bloco em cima da escrivaninha e verifico alguns nomes. A pia está cheia de louça, a cafeteira quebrou e meu estômago está colado nas costas. Mastigo um pão amanhecido e saio. O trabalho espera.

Giro em frente ao espelho. Conto quantas rugas nasceram desde que nos casamos. Miro meu corpo. A silhueta continua a mesma, a não ser por uma pequena saliência na região do abdômen, nada muito perceptível. Atiro uma pequena bola de tênis no cachorro, ele corre, dá voltas sobre o seu corpo e em seguida lambe minhas mãos. Fidelidade canina. Eu me intrigo com os cães que tentam devorar o próprio rabo. Ele ainda dorme, mas parece permanecer em eterna vigília, observando tragédias com o canto imundo dos olhos. Alguns pelos grisalhos cobrem seu peito. Meu Deus, conceda a esse homem um coração de carne, cansei de ruminar pedras e de quebrar picaretas.
Penteio o cabelo, coloco os sapatos e saio. A vida espera. Centrífuga.

Nosso encontro aconteceu ao acaso, eu sei que algumas pessoas não acreditam nisso, não sou uma delas. Estava sentada num café, como faço todas as manhãs, há tempo não me sinto mais à vontade em casa. A colher caiu da minha mão e ele gentilmente se abaixou e pegou. Começamos a conversar e foi necessário pouco mais de meia hora para percebermos o quanto tínhamos em comum. Depois disso não é necessário contar, aconteceu o previsível. Ele tinha o mesmo sorriso do Felipe antes do casamento. Eu fechava os olhos e podia jurar que o tempo regressara, era Felipe ali comigo, devorando meus mistérios, sorvendo cada pedaço insípido de mim.

Ela jamais desconfiou de nada. Romântica demais, sonhava com amores que salvam e não retalham. Não posso negar que ela mexeu comigo e que, talvez, em outra situação até me deixasse levar. Mas eu estava ali a trabalho, e eu respeito meu trabalho. O trabalho dignifica o homem, não é o que dizem? Admito que me custou caro fazer o que fiz. Não tinha outra escolha, eu era funcionário do seu marido, temporário, mas era. Daria tudo para tocá-la novamente. Seus cabelos longos e ruivos, a boca...
Vendo seus olhos. Giro o tambor. Conto até seis e escuto o clique.
Olho o seu corpo inerte, um mar vermelho explode em mim. Sublimo. Um espelho branco me espera no banheiro. No lugar das lágrimas, o pó.

No céu, os últimos pardais sustentam o poente, enquanto cães famintos devoram o próprio rabo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 34

Galos cantam e não assustam meus pesadelos. Não existem despertares ou regressos para os seres inóspitos que vivem em vigília. Fendas sustentam meus mundos. As manhãs têm cheiro de carne e sangue, minhas manhãs acordam tateando o ódio dos anoiteceres. Tenho centenas de olhos cobrindo meu corpo e nenhum deles é capaz de prever a verdade. Cataratas, traves e glaucomas. As mentiras são minhas hóstias de cada dia: purifique e ensine-me a morrer um dia de cada vez, enquanto tetos desabam na minha cabeça e partem meus ossos. Fêmur exposto, vértebras e flautas rompidas. As notas das músicas penetram meus ouvidos como lanças quentes. São Sebastião ajoelha em meu altar e chora. E eu penso, se ao menos eu soubesse cantar o mundo não me retalharia. Não seria necessário costurar colchas e mais colchas para reinventar histórias mortas. No entanto, quem acreditaria em uma Sherazade cega e tola? Lucio permanece em silêncio, ruminando seus duelos. E eu sei que alguns cortes e amputações me atingirão, suas espadas me procuram cheias de sutilezas e rancor. Véus despencam do meu rosto e repetem promessas desfeitas. Um rio verde se abre diante de mim e Jesus lava meus pés com devoção divina.

sábado, 18 de abril de 2009

Blogagem Coletiva - Quem foi Monteiro Lobato?




EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Quem já foi criança sabe que não é necessário grande sacrifício para sair do lugar, basta utilizar o pó de pirlimpimpim e voar através do espaço. E eu que me julguei tão atemporal ao procurar palavras para uma crônica percebi o tempo correndo sólido e pedregoso embaixo dos meus pés. Carvalhos submersos em um sítio do meu passado. Vinte anos atrás e eu poderia jurar que todas as bonecas falavam e sabugos de milho pensavam, e como pensavam!!! Ainda hoje olho com respeito às grandes plantações, se a raposa de Saint-Exupery lembra-se do príncipe ao ver os trigais, eu recordo com delícia do Visconde de Sabugosa ao avistar o milharal. Não enxergo apenas Ele, mas uma infância onde haviam risos e quintais.

Não posso dizer com exatidão a influência de Lobato na minha literatura, mas com toda certeza ele esteve presente nas minhas fantasias infantis, não como escritor, porque naquela época eu nem sabia direito o que isso significava, ele era um grande companheiro de aventuras, alguém que não me conhecia, contudo, adivinhava meus pensamentos mais absurdos, talvez tenha surgido aí minha paixão pelo realismo-fantástico.

Monteiro ensinava sem ser chato ou pedante, falava de guerra sem ser pacifista ou soldado. Ou melhor, talvez o sucesso da obra de Lobato foi exatamente sua falta de posição política, ele não dizia nada, absolutamente nada, em compensação, Emília era uma pedra no sapato de qualquer um, e isso era realmente encantador, principalmente para uma boneca de pano mal acabada, tinha a coragem de criança e a petulância dos adultos. Numa atitude totalmente impulsiva, ela foi capaz de transformar homens em miniaturas porque estava chateada com a tristeza gerada pela guerra. Agora, confesse comigo, se você tivesse a chave do tamanho, quantas vezes teria transformado a humanidade num bando de formigas, e se bobear teria até esmagado algumas, não é mesmo??? Emília é a boneca que toda mulher almeja se tornar, casa e descasa a hora que bem entende e não tem papas na língua, como diria minha querida e saudosa avó, que se parecia muito com Dona Benta. Monteiro foi um verdadeiro Jung da alma infantil, ele encontrou figuras que é comum a toda criança. Foi um mestre no que fez.

Também não posso me esquecer que encontrei com Monteiro bem mais tarde em suas crônicas para adultos. Descobri seu engajamento de uma forma bem mais panfletária, ou talvez, eu é que tinha crescido. Confesso, admiro a coragem e a perseverança desse homem, se eu tivesse um décimo de sua força, teria tudo que desejo. Seja como adulto ou como criança, Lobato é uma leitura obrigatória. Lembrei dos ditos de uma velha senhora: “É, Deus sabe como fazer a mulher!!!”. Tomaria suas palavras e diria: “É, Monteiro sabe como fazer um personagem!!!”. Aliás, ele não fez personagens, ele criou universos impensáveis, ou melhor, possíveis somente na cabeça das crianças e como é mágico ver com os olhos primitivos de uma criança, olhos imaculados. Queria que a minha morte tivesse o encantamento primeiro dos livros de Monteiro.