quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mosaico de Rancores: capítulo 42


Tenho você dentro do meu corpo, dividindo-me ao meio. Kama sutra. Tê-lo comigo não impede que uma legião invada nossos lençóis. O amor é traiçoeiro e traz restos de outras carnes, gosto de outras almas, salivas espessas de outras bocas, cascos galopantes de outras mãos. Rastros de lesmas. Perversos mosaicos. Decúbito ventral. Minhas costelas doem, contorcem-se e me pergunto de que homem fui subtraída - numa intenção tola de ser multiplicada. O amor é um salto mortal, um tripé pronto para estripar. Um ódio ralo e verde percorre minha espinha. Mantenho-me viva, alimentando as suas sanguessugas. Simbioses??????? Lúcido. Os olhos negros das fechaduras me vigiam. Retiro os pontos dos cortes dos últimos dias. Nenhum crepúsculo me salvou desse translúcido oscilante, oco e homicida, que desmonta vértebras, rompe vísceras, como num quadro alucinado de Grünewald. Meus seios te observam, enquanto um rio branco surge de seu púbis. O mar de ressaca despenca sobre nossos corpos exaustos. Lírios da paz.

sábado, 3 de abril de 2010

sábado, 6 de março de 2010

Campos ceifados


“Não há falta na ausência. / A ausência é um estar em mim. / E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços (...)”.
Carlos Drummond de Andrade

O rio é um mar pequeno, infinito e tenebroso. Cavalos marinhos devorando submarinos de todas as cores e mastigando cadáveres frescos. Carvalhos sentimentais. Cardumes de olhos me olham. Espiões. Peixes esperando serem fisgados.

Relembrar é estranho... É viver duplamente o que deveria ser subtraído da memória. Reencarnações. Engulo estranhas pílulas brancas. Não se compra a paz. A sanidade num frasco de vidro. Medley. Duzentos anos para decompor. Tarja preta.
O divã é um culto intelectual às emoções mortas. Lazaro e suas roupas em farrapos.
- O que você está sentindo?
Moscas mortas. É o que eu vejo toda vez que fecho os olhos. O perolado das moscas mortas. Varejeiras.
- Conte mais. O que mais você vê?
Redes resgatando enguias. Cristo mergulhado em ódio e silêncio. Sinestesias. Mantos revestindo pedras. Sanguessugas cobrindo meu corpo.
- E a sua infância? Qual o cheiro da sua infância?
Vísceras frescas. Leitos. Vidas submersas. Chuvas e escombros de janeiro. Velas queimando sobre carne. Diálogos escorregando entre os vãos obscuro da portas.
- E a morte? Você tem medo da morte?
Não. Penso na morte como números cabalísticos. Inevitável. Roda da fortuna.
- A morte não te surpreende?
A morte, algumas vezes, não é surpreendente. Não chega feito um batedor de carteiras. Vem mansa e certa, como a correnteza... Como uivos em noite de lua plena. Como o suicídio previsível dos desesperados.
- E a sua mãe, gostaria de falar dela?
A minha mãe estava na beira do rio comigo no colo, não me recordo nitidamente, acho que meu irmão brincava um pouco mais distante, aí então...
- pode continuar.
... foi então que ela perdeu os sentidos, a vida perdeu o sentido. Eu puxei-a pelos cabelos e gritei, gritei, gritei, mas a correnteza foi levando, levando... Ainda sinto seus cabelos escorregando entre meus dedos finos e enrugados, sua vida se tornando fluida e transparente.

Era um aquário, depois virou rio, depois virou mar.
- E o mar?
O mar é apenas um rio grande, infinito e tenebroso. Tão somente... Campos ceifados.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As mãos mirradas de Deus


“Deus tem também seu inferno, seu amor pelos homens”
F.W. Nietzsche

A infância me traz um terço de contas inumeráveis, escorregando entre as membranas dos meus dedos, embora muitos desacreditem que exista algo entre um dedo e outro, além de minúsculos abismos. Sou um anfíbio me alimentando de rochas e lavas frias.
Ainda sonho com aquele homem bizarro, do cheiro rude da velhice desprendendo devagar da sua pele cinza, o tempo transforma a carne tenra num laboratório de horrores. O homem grande das mãos mirradas... Olhava e não compreendia os desígnios de Deus. A geometria torta a conceber desejos gordos para concretudes magras. A menor distância de um ponto ao outro é uma curva. Suas mãos finas e pequenas sustentavam um neto corado e robusto. As dualidades são sempre bárbaras... Naquela época as crianças me traziam um sentimento ruim, um ódio inexplicável, em forma de espinhos, sabe aqueles espinhos que vivem entrando em nosso pé e precisam ser retirados com agulha fina? É, era um incomodo assim. Mesmo hoje não as quero bem, há uma rivalidade muda entre nós. Guerra fria. E toda vez que vejo uma, acho suas cabeças grandes, vazias e desproporcionais, como grandes campos minados. Strawberry Fields Forever. Tento despistar a curiosidade insana dos meus olhos, mas eles sempre acabam nas extremidades. Então, novamente tenho diante de mim, o homem das mãos mirradas... Alguém me grita:
- Lembra de mim?
Observo profundamente aqueles olhos azuis e tenho certeza que eles já fizeram parte do meu mundo. Mas onde, quando, em que circunstâncias? Aqueles olhos de um azul raro não pareciam pertencer aquele rosto: delicado, anguloso e tão perversamente angelical.
- Olha bem pra mim. E aí?
Pensei que ela bem poderia ser protagonista de um daqueles filmes antigos, preto e branco, nos quais todas as mulheres eram anjos intocáveis. Andróginos. E seus olhos... Tão fora de órbita, flutuando num universo há muito esquecido.
- É impossível que não se lembre! O Juninho, meu irmão e você...
Como poderia me esquecer? O meu primeiro amigo. Os olhos, era isso, eram os mesmos.
- Claro, como ele está?
- É uma longa história...Triste história.
Não ousei perguntar.Não queria saber. Eu sei muito bem viver de lembranças... E elas eram muitas e boas. Amávamos como dois seres antes da criação, antes do bem e do mal.
Reflito e minha imagem é um quadro alucinado de Edward Munch. Sigo a fome, abro cada curva do meu intestino e ele dá voltas e voltas em torno de mim, como uma roda da fortuna girando sobre o próprio eixo. No jardim crescem os baobás, se espremendo numa realidade limitada, num tempo oco, sem espaço.
Rumino mitologias, o homem grávido. Também gravitam seres no meu ventre, na contradição plena do meu membro ereto, masturbam-me, as mãos diabolicamente mirradas de Deus...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 41

Todos os dias rezo pela cegueira dos meus olhos vitrificados. Negro olhar implorando clemência. Coroa do Diabo. Cãos-guias me seguem e mostro-lhes com devoção a porta do Inferno. Porões. Telescópios descobrindo escuridões. Caminho até a cama e lá está você. Nu. Membros eretos. O espelho duplicando meus prazeres. Plenamente meu, ao alcance de todos os meus insanos desejos. Nirvana às avessas. Desejo e medo. A maçã repousa morta em minha boca. Um gosto de podridão amarga entre meus dentes. Enquanto polvos se enrolam em minhas pernas lívidas. Entregues. Refém da perversidade das minhas vontades, da tara das minhas mãos, da fúria do meu ventre quente, macio e úmido. Envolto em minhas vulvas de rancor desmedido. Violência e paixão. Caravanas e cachorros vadios percorrem minha pele. Ladro. Paralelepípedos balançam meus seios inóspitos. Caleidoscópios multiplicam minhas mãos e minhas línguas. Sinto a incoerência do seu corpo. Meus dentes te cravam e criam novos estigmas. Fisgadas. Cavalgo ideias e brota do meu púbis um mar de peixes vermelhos famintos. Descanso meus olhos nos antigos corais. Fósseis de um tempo que passou.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mundo das ideias


Toda badalada nos fere, a última nos mata”
Provérbio latino-americano


Morrer é como pisar um rio pela primeira vez, nunca sabemos ao certo o que há no fundo.

Rua Aurora. Os jovens riem dos velhos, achando serem imunes à velhice, pensando que a adolescência jamais arrumará as malas e partirá sem recados, abrupta, como um mochileiro irresponsável. Eles falam em códigos e contam piadas até o amanhecer e para eles as noites são estreladas e não lembram em nada os suicídios e os ciprestes de Van Gogh e passam rápidas e o sol e o gozo nasce quente novamente todos os dias. Também acreditei nisso, bebi dessa fonte enganosa da eterna juventude. Hoje as moedas que joguei alimentam os desajustados.
Meus olhos eram flutuantes e verdes... Tão verdes e impressionantes como as lagartas antes das asas. Envelhecer era ter mais de dezoito. Os cavalos passam sempre a galopes... Famintos. Como não percebi antes? Ah, a eterna adolescência de Leminski...Aos quinze também era poeta, mas as palavras foram morrendo aos poucos, sufocadas por sondas e cateteres, algumas engolidas, outras despejadas em conchas azuis, na esperança tola de virarem pérolas, as coisas apodrecem mais rápido do que imaginamos. Olho a beleza furtiva no breve e absurdo afogamento dos corais. Comungo com a perversidade dos espelhos e com os labirintos em braille de Borges. Apenas suspeito da ingenuidade dos caracóis sempre envoltos em cascas duras, vendo a vida passar lambendo o chão e a merda de todo homem. O mundo visto pelo buraco omisso da fechadura. Regurgito: e a vida pode ser mais cruel que a morte. Afiem as facas!!!! Ela nos desossa como um açougueiro louco, contaminado pela frieza do ofício.
Rua Brinco de Princesa. Passo as mãos trêmulas pelos cabelos ralos. Olho através da janela, trespasso gerações. O moço de cabelos compridos e anarquista, agora anda de terno, com ares de pai, é gerente de uma multinacional. A moça, outrora sorridente, passa contando os rejuntes dos pisos, tão cúmplice da tortura do tempo, eu não fui o único a ser trapaceado... Sua mãe que desfilava distraidamente sem blusa com as cortinas abertas, agora guarda com vergonha os seios flácidos, e apenas seus decotes são vermelhos e vivos. E apenas eu sou seu voyeur e todas as janelas lembram o suspense de Hitchcock. Seu rosto tem o cheiro e as manchas próprias das frutas amadurecidas à força. O tempo é um cão cego e sem faro a nos guiar.
Rua das Ilusões. Vejo o mundo e posso ver a pena através dos seus vitrais embaçados. De tudo o que me restou a piedade é o sentimento maior de todos, Camille Claudel me entenderia, apesar da sua loucura e devassidão. Ninguém fica pra semente, escuto um coro rouco gritando. Espero sinceramente que não, porque a morte se instalou entre meus ossos e minha pele, ela é agora minha nova e digníssima carne.
Rua sem saída. Aqui, agora, percebo o relógio se arrastando num compasso tão diferente do meu, eu diria inversamente proporcional. Os relógios de bolso e os pêndulos não mais existem. Percebo o quanto envelheci, meu corpo já não responde aos meus comandos, já não posso correr disso tudo. E o moço me diz gravemente: “Você jamais teve minha idade!”. Sou escravo dessa visão parcial da minha janela. Jamais poderei sentir novamente o corpo de uma mulher estremecendo sobre meu peso. Sou leve como o pensamento, estou tão próximo do mundo pervertido das idéias. Estou tão debilitado que durante toda essa conversa, apenas passei do corredor para a tristeza úmida do quarto.
O tempo me fisga com seu membro de aço ejaculando um esperma gosmento, branco e estéril. A velhice é como amanhecer e anoitecer sob o giro alucinante do sol do Alaska.
Na placa do carro preto 8888. Revivo o invento das bombas de napalm da Segunda Guerra. Afundo meus pés, não creio nos submarinos dos sonhadores... Escafandros emergem de repente... Sigo e escuto os galopes... Finalmente avisto os cavalos de Tróia.

domingo, 4 de outubro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 40

Um anjo caído. Agora era assim que eu me referia a você. O chão sempre foi meu lugar de destaque, mas agora era seu. A vida é de uma comicidade única. Pão e circo todos os dias.Você que jamais precisou de mim, tão seguro de si, absoluto, agora estava ali, a um palmo das minhas minúsculas mãos. Manso e arredio com um homem castrado. Sem poder se movimentar, implorando auxilio de uma doida, de alguém que nunca enxergou a verdade estampada, óbvia, nua, crua e de mau gosto. Sou sua roupa mais incomoda, seu traje de domingo. Mofado. Pode se debater, porém não mudará a ordem perversa das coisas. Escorpiões devidamente verdes percorrem seu sexo e você não é capaz de removê-los. Ainda estou tentando entender como você pode cair do terceiro degrau da escada. Na certa a sua pretensão não pode usar o corrimão. Agora quem me contará cada detalhe idiota dos dias? Cada mudança de nuance de um céu que é sempre cinza? Pipas e balões em dias nublados. O tempo é um espelho enrugado, partido e oxidado. Não tente me provar o contrário com teorias baratas. A tristeza é ausência absoluta de cor. E meus olhos são de um branco leitoso e fosco. E dizem que o branco é o resultado de todas as cores juntas. Não na incongruência homicida dos meus olhos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 39


Passo minhas mãos no seu corpo e me retrato, despenco em mim. Afundo no meu particular mito da caverna – cegueiras. O ciúme é inútil como águas-vivas sem vítimas. Meus olhos castanhos-negros-esbranquiçados perdidos na lama fétida dos manguezais. Meus olhos pretos-abismos devorados pelos caranguejos amarelos e famintos. Sorvendo vida entre os buracos das minhas falsas costelas - Ainda sobrevivo - Sugando o sangue, lambendo a flor exposta das feridas do meu último coma. Adão e o Inferno pouco generoso de Dante. Levanto e me derramo em prantos, a solidão me acompanha e afia seu cajado, já não estou sozinha entre os homens vermelhos canibais. Sacudo meu corpo e dele caem pequenas estrelas verdes sem esperança. Pedras furta-cores. Os filhos de Afrodite só chegam ao amanhecer. Tantos espelhos partidos e não sou capaz de inverter imagens. Todas as minhas ilusões de ótica foram arrastadas pela força vulgar do ralo. Não peça coerência, os loucos são devidamente alegres e atravessam muros multicolores, enquanto exterminam pássaros com suas espingardas de festim.

sábado, 22 de agosto de 2009

LSD


Corro em disparada em direção ao descaminho
Trilhos me fazem andar em linhas curvas e perigosas
Tenho vertigens, vejo imagens ocas e brancas
Eu sabia que não poderia haver amor entre um escorpião e uma cobra
Guizos presos no meu dorso
Dentes e pernas não me afligem
Atalhos e mãos não cessam minha fúria de fêmea no cio
Crinas nascem e morrem no meu sexo
Cavalos feridos são simplesmente assassinatos sem golpes cruéis de faca
Minha dor é olhar o mundo e não ver nada além de um poço
fundo e imundo - desalinho - cavo o meu próprio umbigo
Flores não nascem em mim
Esterco
A morfina não adormeceu noites nem aliviou o terror das minhas lobotomias
Do lado de fora, o sol e a lua se encaram, frente a frente,
como se não houvesse precipícios
Insulinas me invadem e me tornam menos doce.
Não sei se punge mais os meus rasgos ou meus remendos.
Queria entender o vermelho-morte de Almodóvar.
O amarelo suicida de Van Gogh
Arrancar com carinho os lírios que nascem à margem do meu corpo
O nosso amor é um labirinto repleto de portas falsas
Caranguejos roçando folhas à procura de abrigo
E eu, de cócoras no escuro, devorando com aflição meus pequenos defuntos
Fetos inocentes flutuam dispersos na minha barriga
Quente feito mármore
E eu não tenho coragem de arrancá-los com os dedos
Punhos verdes e inertes. Meu corpo delgado vomita pores-de-sóis
Arco-íris entorpecidos adormecem depois das tempestades
Tudo se foi e minha cegueira não me deixou degustar os detalhes mórbidos dessa partida
Deito na minha gaiola de aço e espero o pássaro negro e cego devorar o resto dos meus olhos. Esbranquiçado.

sábado, 15 de agosto de 2009

selo gentilmente cedido por Chico

SELO BLOG DE OURO.


Recebi do blog Coisas do Chico,
o Selo Blog de Ouro



As regras:

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.



os meus indicados:


Penetra surdamente no reino das palavras ...
VERSOS & PERVERSOS
Bragas e Poesia
On The Rocks

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 38


Você jamais me poupou dos detalhes. Uma simples chave em cima do criado-mudo era comentário pra uma semana. Era sua maneira egoísta de me escancarar o mundo. Abrir meus olhos esbranquiçados de não ver. Eu procurava explicações e você me estendia dálias negras e úmidas. Aveludadas e amargas. Por que todos imaginam que flores são doces? Ergo os lençóis e vejo os imensos marimbondos. É preciso mastigar com ternura a singularidade das coisas. Você foi meus olhos, cru e perverso, e isso me incomodava. Enxergar o mundo com suas distorções, com sua visão fraca e pouco viril. Quartos escuros e vidros canelados. Fotos invertidas no varal. Uma poética 3X4. É incoerente encontrar vida na mansidão rouca dos dias. Minha garganta muda, cheia de nós, está envolta em cachecóis. Você tem esse poder de dar dimensões absurdas ao cotidiano, transformar migalhas em pães. Água turva em vinho. E eu presa às urgências. Cão-guia atravessando faróis. Obedecendo a tolice linear do mundo. Túneis desfeitos. Indigentes apodrecendo nos acostamentos. Canibalismos. A morte é um ser louco e pensante. Trituro o troco do entardecer. Escurece depressa. Olhos à espreita. Apalpo minhas costelas e ainda percebo a fúria de Deus no meu corpo. A costela rejeitada. A cegueira não me poupou de enxergar minúcias. Alavancas proporcionam uma falsa impressão de força. Sigo limpando a sujeira do amanhecer, aquela cor rosa esperança que não me recordo mais.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Boca de Lobo

tela: Jose Luis Fuentetaja
Minh'alma deita suas vísceras no asfalto estrelado,
as tripas ainda esverdeadas digerem
sonhos e vertigens de outros tempos
vejo olhos e âncoras suspensas no espaço.

meu corpo é um cão pardo e faminto,
é uma cidade durante a noite
quando todas as casas trazem seus lixos à porta

Meu coração é um esgoto a céu aberto.

domingo, 12 de julho de 2009

Enquanto a lona cai por Marcia Barbieri


Convido todos os amigos que acompanham este blog a conferir a publicação do meu primeiro livro através do site: http://clubedeautores.com.br/ , não sei se conhecem este espaço, a iniciativa deles é muito legal. O custo do livro é um pouco alto, mas amei ter meu livro mais palpável. O link do livro é:
http://clubedeautores.com.br/book/3114--Enquanto_a_lona_cai

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A morte e o sapateiro


Nunca tive medo da morte, achei que houvesse algo de branco e libertário nela. Luzes e corredores infinitos. Na minha infância a morte tinha uma tristeza glamourosa como nos filmes: guardas-chuvas, roupas pretas, uma garoa fina e o salmos com seu cajado e seus vales verdejantes. Agora, estava ali, diante de mim, um corpo grande e inchado para caber na fúria tempestuosa da vida, um sol bonito e brilhante de uma falsa primavera e um Cristo gordo que nega mostrar o sangue quente de suas feridas. Lembro que sempre havia uma atmosfera tenebrosa quando meu pai lustrava seus sapatos e cortava seus cabelos. A morte é um velho e cansado sapateiro, ele ruminava entre os dentes amarelos e sem frestas. Não havia nenhum tipo de falhas naquele homem. Eu observava-o com olhos gulosos de infância. Eram rituais que acompanhavam as mortes e sua boca, quase cotidianamente muda, procurava explicações para o obtuso, ele que era péssimo até mesmo com o óbvio. Sentia um cheiro amargo de flores e grama, milimetricamente plantada com a petulância própria dos vivos. Mas não sentia dor, isso era privilégio dos homens que já tinham passado dos quarenta, eu era nova demais para conhecer o gosto telúrico e aveludado da saudade. Aquele caixote de madeira afundava na boca da terra, enquanto mãos espremiam botões de rosas de todas as cores. E a morte me parecia ainda mais branca. A mortalha me fascinava, vestir-se para um jogo, no qual não há adversários nem juízes, apenas derrotados.
Do meu lado uma muda apalpava um lenço de pano, dele saiam centenas de pássaros negros e cobriam o teto do velório, enquanto isso ela flertava lascívia com o silêncio da revoada.
- Quem é?
- Nelson.
- Era seu marido?
- Não.
Poderia responder milhares de coisas para aquele trombadinha, no entanto, não disse nada. Afinal, ele sabia tanto da vida e tão pouco da morte, que nenhuma explicação seria plausível. Ele pisava os pés encardidos nos defuntos, violava suas covas, mas não sabia nada sobre morrer. A morte era uma multidão de gente falando de feitos estrangeiros, uma intrusa, eram corvos penetrando virgens.
Os gatos pardos reviram a noite e anseiam serem vistos.
Penso em arrastar-me e seguir o cortejo. Entretanto, não há mais cortejos, apenas os urubus esperam famintos do lado de fora.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 37


Persigo a fúria amarela dos escorpiões. As ferroadas adormecem meus tendões e meus rancores. Vozes silenciosas e gramofones me distraem. As argolas alongam meu pescoço e não posso ver a gangrena dos meus próprios pés. Lúcio ri da minha paralisia. O presente congelado e soberano. A vida deixada para depois. Tantas histórias se passaram e não mudaram o curso tortuoso das minhas vértebras. Escolioses e lordoses me pouparam de carregar o mundo nas costas. Corpos sãos apodrecendo na lama dos leitos. Nossa cama vasculhando nossos segredos mais imundos. Eu sorvendo água turva de sua boca. Frutas verdes amarrando minha língua. Castigos imprevisíveis para meus crimes brancos. Armas brancas, mãos negras e culpadas. Não perco a mania de inverter os jogos, virar tabuleiros e te amaldiçoar pelas minhas faltas. Apalpo teu corpo, procuro as feridas, remexo suas vísceras como um São Tomé insano. Não vejo verdade nenhuma, sinto apenas um sangue coagulado e morto. Descalcifico seus ossos, você resistiu às piores quedas, continua em pé, à espreita. Eu continuo pisando nos mesmos ovos, triturando as mesmas pedras, chutando mistérios ao amanhecer. Você dorme em posição fetal, sem se importar com o destino da tempestade. Barcos de papel afundam no nosso riso. Desvie, meus olhos são parados, frios e fatais como abismos.