
sexta-feira, 15 de abril de 2011
IV ENCONTRO PRÁTICA DE ESCRITA

terça-feira, 12 de abril de 2011
Trem de doido

A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.
Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.
Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.
Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.
Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.
Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.
Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.
Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.
Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Morte no Subúrbio: conto em 6 atos
sábado, 29 de janeiro de 2011
Placenta

“Onde é o vasto ventre do nada, prenhe de mundos, que contém agora as raças que virão?”
Arthur Schopenhauer
Enquanto a despia com a alma de viajante, pensava em “Cão Danado”. Se o revólver não tivesse sido roubado. Se ela não tivesse casado com aquele homem rude, se não tivesse parido por tantos anos, tantos filhos brutos rasgando suas entranhas de falsa mulher civilizada... Soluçava e sentia o gosto das goiabas que compartilhávamos quando crianças e com o tempo foi bichando. O esfíncter arrombado da nossa infância prematura.
- Você está diferente, parece que a rudeza te comeu por dentro e por fora, de pensar que já fomos tão parecidas, as pessoas até costumavam confundir.
- Você julga não ter mudado.
- E mudei?
- Minha querida! Não seja tão tonta, eu não envelheci assim, tão de repente, tão sozinha, já faz tantos anos...
- Tantos anos?! Não foram tantos assim.
- Eu apenas parei com essa luta insana contra o tempo. Agora eu comungo com ele, todas as manhãs.
- Uma forma bem cômoda de encarar essa flacidez mórbida estampada em você, toda essa pele manchada de mágoa tropeçando entre seus dedos.
- É triste ver você.
- Que ironia! Digo o mesmo.
- Eu te amo, não há nenhuma ironia em minha voz, não desperdice suas forças comigo, estou ao seu lado, como quando pela manhã nos surpreendíamos porque tínhamos sonhado o mesmo sonho.
- Já não me lembrava.
- Você ainda não percebeu que mudou. Um vestido que nunca foi usado, não significa que não envelheceu.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Marcio Almeida

quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Sangria nos meus olhos mortos

sábado, 4 de setembro de 2010
CAVALOS MORTOS

Ef 4, 26b
Fechei devagar minhas pálpebras caídas - inveja de todo peixe, e mais uma vez vi um campo fértil, embora solitário. Desde muito cedo aprendi a observar e em todas as faces eu encontrava minúsculas moscas brancas, criadas entre os carvalhos da ignorância humana. Contemplei o medo nos olhos de vidros dos corvos que testemunharam a morte de Van Gogh.
Sentei nu de frente para o horizonte antes da aurora e fiquei imaginando qual seria o gosto daquelas papoulas encarnadas, nascidas tão à margem dos cavalos mortos.
O dia está quente, não tiro a blusa, remexo os bolsos da calça, mas esqueci o que procurava, tento avançar, não é possível, creio que nenhum um homem pode avançar. Somos cães loucos rosnando para o próprio rabo, escorpiões ferroando as próprias cabeças, experimentando a eficácia de seu veneno. E os velhos são como caranguejos, andam para trás e alimentam-se dos defuntos da memória. Sempre veem multidão na solidão oca das coisas.
A velhice exala o odor do estrume – fetos prematuros nascidos da imensidão dos dias. Não se iluda, o tempo não tem aliados, é um sádico nos arrancando, pacientemente, vértebra por vértebra, recordando a falência dos nossos instantes. Ele me fez tão mesquinho, que agora sou um verme roçando a carne verde e indigesta dos cavalos mortos. Cavalgando com serenidade, todas as manhãs (meus cadáveres), esses animais selvagens que já não precisam de selas. Cascos trotando na reminiscência cíclica dos vitrais.
- Você pode me dar uma chance?
- E quantas mais?
- Eu juro que dessa vez eu farei tudo diferente, eu te provarei que posso ser quem nunca fui.
- E o que eu ganho acreditando?
- Amor em dobro, como na música.
- Estou cansada de servir de tema pra suas metáforas inúteis, é um jogo sórdido, machucar em nome da arte.
- Não, não é um jogo, eu errei, foi só isso, todo mundo erra. Porra!!!! Eu sou humano.
- Tenho percebido. Só que eu não sou tão madura para compreender essa separação entre corpo e alma, afinal, será que realmente o coração é uma casa de putas com mil janelas como disse Gabriel Garcia Márquez?
- Só o tempo te mostrará que mudei.
- Tudo bem, eu aceito esperar... Tenho pouca coisa a perder...
- Eu te amo, eu vou te provar, você não vai se arrepender, eu serei o melhor homem, daqui a cinquenta anos, você se lembrará disso e pensará, enfim, valeu à pena acreditar.
- ...
Nossos homicídios premeditados não renderam grandes prisões. Como disse antes, o tempo é sarcástico, um verdadeiro gozador. Minhas traições ainda estão sendo tragadas, lentamente, feito um cigarro eterno de infelicidades. Enfisemas espalham-se por todo meu corpo. Um vagalume apagado perdido nas noites escuras. Lembro-me agora do verso de Lorca: “a morte botou ovos na ferida”. Espalho o amarelo sujo dos caracóis surgidos de gozos infecundos.
Não foi possível provar nada, não sei se mudei. Também não acredito que fantasmas presenciam nossas condutas. Há trinta anos questionaram-me o motivo de eu não jogar terra em você. E hoje eu sei responder. Afinal, como eu poderia jogar terra perante sua eternidade, se antes já roubara e regurgitara teus sonhos?
Acabo de lembrar o que procurava no bolso, era sua foto três por quatro, desenhei ano a ano as rugas que teria, assim sinto que envelheceu junto comigo.
A manhã parece fria. Volto para nossa casa, ela ainda tem a mesma cor, as nuances do sol do Mediterrâneo. Na minha boca, o gosto amargo dos cavalos mortos...
segunda-feira, 5 de julho de 2010

Cólera nos meus olhos pequenos de passarinho morto
O pior chute é aquele que vem da inocência cortante das palavras
(a ainda menina e sua vulva violentada entre as coxas)
É preciso velar pelas bocas costuradas
Gosto de pintar homens sem faces
Subjugados pela insensatez dos ponteiros e de outros homens
- essa nossa vida anti-horário
A nos comer pelos pés.
Hoje as paredes caiadas discorrem mais a meu respeito
Do que cien años de soledad ao seu lado
De todo nosso amor anárquico
Restam-me ridículos pontos de luz furtados
Escapando rotos pelas venezianas trancadas
Agora seus gozos mancham outros úteros
Suas mãos convulsivas já não me dividem ao meio
Como a mim mesma – autoflagelo.
Contudo, alimento os escorpiões encalacrados das madrugadas.
sábado, 5 de junho de 2010
A matança
Walt Whitman
Toda manhã tem uma cor leitosa. Desespero. Apesar das buzinas, sou despertado por grunhidos de porcos. O tempo é uma puta despencando filhos de sua vulva raivosa.
O assassino calcula friamente as características de sua vítima. O escolhido observa com olhos humanos e imundos. Seu corpo é devidamente raspado. Do lado de fora, barulho e cachaça. Fugas inúteis no terreiro. Todo quintal termina num abismo. Há uma luta crua entre a pedra e o fio da navalha. Não há rituais, a faca desliza pela carne gorda e branca. Salve o pouco de alma que resta em mim, porque ainda guardo com ternura as noites escuras de menino mau.
Sinto os olhos dele cravados nas minhas vértebras podres. Vastos e piedosos como os olhos dos porcos antes do esquartejamento. A sua bondade sempre me custou caro. Ser pai é viver ruminando a solidão das dores clonadas. A beleza torturante das cerejeiras em flor. Era o que ele dizia. Também costumava crer que a chuva era capaz de vencer as badaladas incessantes de Deus. No fim das contas, as pequenas coisas acabavam por diluir as grandes, como numa regra de infinitas compensações.
Depois da presa debater-se em vão, um corte preciso perfura sua jugular. Lama e sangue espalham-se pelos pés do oponente. O animal continua vivo. Ao redor da mesa, os homens bebem, apenas meu pai mostra-se comovido: “Para com isso, sua pena prolonga a dor do animal!”. No almoço, recusa a carne morta.
Raspado e pendurado. Pago caro pelos meus erros, todos os dias revivo meus homicídios, apunhalo os mesmos inimigos. Ressuscitados a cada amanhecer. Fui coberto como os animais. Aquela baba branca e gosmenta continua despencando das minhas ancas: Las babas del diablo. E no final tudo que me lembro é dos seus olhos de gado penetrando a cela, perversamente generosos, esperando pacientemente para recusar minhas vísceras que serão servidas a pouco.
texto publicado originalmente No Caos e Letras e Cronópios
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Conto na revista Caos e Letras
http://caoseletras.blogspot.com/2010/04/morte-e-o-sapateiro.html
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Mosaico de Rancores: capítulo 42

sábado, 3 de abril de 2010
Contos na revista Cronópios e na revista Germina
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4470
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/naberlinda_marciabarbieri_mar10.htm
beijos
sábado, 6 de março de 2010
Campos ceifados

Carlos Drummond de Andrade
O rio é um mar pequeno, infinito e tenebroso. Cavalos marinhos devorando submarinos de todas as cores e mastigando cadáveres frescos. Carvalhos sentimentais. Cardumes de olhos me olham. Espiões. Peixes esperando serem fisgados.
Relembrar é estranho... É viver duplamente o que deveria ser subtraído da memória. Reencarnações. Engulo estranhas pílulas brancas. Não se compra a paz. A sanidade num frasco de vidro. Medley. Duzentos anos para decompor. Tarja preta.
O divã é um culto intelectual às emoções mortas. Lazaro e suas roupas em farrapos.
- O que você está sentindo?
Moscas mortas. É o que eu vejo toda vez que fecho os olhos. O perolado das moscas mortas. Varejeiras.
- Conte mais. O que mais você vê?
Redes resgatando enguias. Cristo mergulhado em ódio e silêncio. Sinestesias. Mantos revestindo pedras. Sanguessugas cobrindo meu corpo.
- E a sua infância? Qual o cheiro da sua infância?
Vísceras frescas. Leitos. Vidas submersas. Chuvas e escombros de janeiro. Velas queimando sobre carne. Diálogos escorregando entre os vãos obscuro da portas.
- E a morte? Você tem medo da morte?
Não. Penso na morte como números cabalísticos. Inevitável. Roda da fortuna.
- A morte não te surpreende?
A morte, algumas vezes, não é surpreendente. Não chega feito um batedor de carteiras. Vem mansa e certa, como a correnteza... Como uivos em noite de lua plena. Como o suicídio previsível dos desesperados.
- E a sua mãe, gostaria de falar dela?
A minha mãe estava na beira do rio comigo no colo, não me recordo nitidamente, acho que meu irmão brincava um pouco mais distante, aí então...
- pode continuar.
... foi então que ela perdeu os sentidos, a vida perdeu o sentido. Eu puxei-a pelos cabelos e gritei, gritei, gritei, mas a correnteza foi levando, levando... Ainda sinto seus cabelos escorregando entre meus dedos finos e enrugados, sua vida se tornando fluida e transparente.
Era um aquário, depois virou rio, depois virou mar.
- E o mar?
O mar é apenas um rio grande, infinito e tenebroso. Tão somente... Campos ceifados.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
As mãos mirradas de Deus
F.W. Nietzsche
A infância me traz um terço de contas inumeráveis, escorregando entre as membranas dos meus dedos, embora muitos desacreditem que exista algo entre um dedo e outro, além de minúsculos abismos. Sou um anfíbio me alimentando de rochas e lavas frias.
Ainda sonho com aquele homem bizarro, do cheiro rude da velhice desprendendo devagar da sua pele cinza, o tempo transforma a carne tenra num laboratório de horrores. O homem grande das mãos mirradas... Olhava e não compreendia os desígnios de Deus. A geometria torta a conceber desejos gordos para concretudes magras. A menor distância de um ponto ao outro é uma curva. Suas mãos finas e pequenas sustentavam um neto corado e robusto. As dualidades são sempre bárbaras... Naquela época as crianças me traziam um sentimento ruim, um ódio inexplicável, em forma de espinhos, sabe aqueles espinhos que vivem entrando em nosso pé e precisam ser retirados com agulha fina? É, era um incomodo assim. Mesmo hoje não as quero bem, há uma rivalidade muda entre nós. Guerra fria. E toda vez que vejo uma, acho suas cabeças grandes, vazias e desproporcionais, como grandes campos minados. Strawberry Fields Forever. Tento despistar a curiosidade insana dos meus olhos, mas eles sempre acabam nas extremidades. Então, novamente tenho diante de mim, o homem das mãos mirradas... Alguém me grita:
- Lembra de mim?
Observo profundamente aqueles olhos azuis e tenho certeza que eles já fizeram parte do meu mundo. Mas onde, quando, em que circunstâncias? Aqueles olhos de um azul raro não pareciam pertencer aquele rosto: delicado, anguloso e tão perversamente angelical.
- Olha bem pra mim. E aí?
Pensei que ela bem poderia ser protagonista de um daqueles filmes antigos, preto e branco, nos quais todas as mulheres eram anjos intocáveis. Andróginos. E seus olhos... Tão fora de órbita, flutuando num universo há muito esquecido.
- É impossível que não se lembre! O Juninho, meu irmão e você...
Como poderia me esquecer? O meu primeiro amigo. Os olhos, era isso, eram os mesmos.
- Claro, como ele está?
- É uma longa história...Triste história.
Não ousei perguntar.Não queria saber. Eu sei muito bem viver de lembranças... E elas eram muitas e boas. Amávamos como dois seres antes da criação, antes do bem e do mal.
Reflito e minha imagem é um quadro alucinado de Edward Munch. Sigo a fome, abro cada curva do meu intestino e ele dá voltas e voltas em torno de mim, como uma roda da fortuna girando sobre o próprio eixo. No jardim crescem os baobás, se espremendo numa realidade limitada, num tempo oco, sem espaço.
Rumino mitologias, o homem grávido. Também gravitam seres no meu ventre, na contradição plena do meu membro ereto, masturbam-me, as mãos diabolicamente mirradas de Deus...
domingo, 6 de dezembro de 2009
Mosaico de Rancores: capítulo 41
Todos os dias rezo pela cegueira dos meus olhos vitrificados. Negro olhar implorando clemência. Coroa do Diabo. Cãos-guias me seguem e mostro-lhes com devoção a porta do Inferno. Porões. Telescópios descobrindo escuridões. Caminho até a cama e lá está você. Nu. Membros eretos. O espelho duplicando meus prazeres. Plenamente meu, ao alcance de todos os meus insanos desejos. Nirvana às avessas. Desejo e medo. A maçã repousa morta em minha boca. Um gosto de podridão amarga entre meus dentes. Enquanto polvos se enrolam em minhas pernas lívidas. Entregues. Refém da perversidade das minhas vontades, da tara das minhas mãos, da fúria do meu ventre quente, macio e úmido. Envolto em minhas vulvas de rancor desmedido. Violência e paixão. Caravanas e cachorros vadios percorrem minha pele. Ladro. Paralelepípedos balançam meus seios inóspitos. Caleidoscópios multiplicam minhas mãos e minhas línguas. Sinto a incoerência do seu corpo. Meus dentes te cravam e criam novos estigmas. Fisgadas. Cavalgo ideias e brota do meu púbis um mar de peixes vermelhos famintos. Descanso meus olhos nos antigos corais. Fósseis de um tempo que passou.
