domingo, 3 de julho de 2011

Meu livro de contos "As mãos mirradas de Deus"

O Livro "As mãos mirradas de Deus" editora Multifoco já foi lançado

terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma conversa com Nilto Maciel

Uma conversa com Nilto Maciel, quem puder confira

A ENTREVISTA

NM – Apesar das imensas dificuldades de se publicar livro no Brasil, você se sente com disposição para buscar lugar de destaque na cena literária? Falo em leitores. Ou a publicação na Internet a satisfaz?

MB – A dificuldade em publicar é muito grande. Como provar seu valor literário? Claro que sempre temos a opção das produções independentes ou semi-independentes. Até um lugar apropriado para o lançamento é difícil. Isso porque, em tese, temos vários centros culturais de incentivo à Cultura e vários "personagens empenhados" em apoiar os novos escritores. Eu ainda não consigo enxergar como o livro impresso possa me trazer um número maior de leitores. Acho que isso só ocorreria se eu publicasse por uma grande editora. A publicação na internet me trouxe muitos leitores e leitores competentes, com quem posso dialogar. Isso me satisfaz. A publicação em papel é puro fetiche. Não acredito que ela possa ampliar o número de leitores. Considero um lugar de destaque na cena literária continuar escrevendo, escrevendo, aperfeiçoando, procurando minha voz. O resto é só vaidade. Existe pretensão maior do que o desejo de ser lida e entendida em um mundo rápido e caótico como o nosso?

NM – O que leva um escritor ao catálogo das grandes editoras? Será sorte? Será talento? Não será o próprio mercado, essa entidade tão estranha aos que nela não estão postos? Você escreveria para o mercado, para ser lida, relida, comentada, ovacionada, endeusada? O que o mercado quer? Serão virgens para sacrifício, como na lenda?

continue lendo na página do Nilto Maciel

domingo, 12 de junho de 2011

Meu conto "Sangria nos meus olhos mortos" na Coyote 22

Coyote chega ao número 22 Inéditos de Italo Calvino e dossiê com o poeta e letrista Geraldo Carneiro são alguns destaques do número 22 da revista editada em Londrina (PR)
"Sinto falta de radicalidade. É preciso encarar a prática poética com mais seriedade, violência e humor. Sinto falta de grandes polemistas, como Mário Faustino. Figuras que sejam capazes de tumultuar a cena poética brasileira, no melhor sentido" — diz o poeta e letrista Geraldo Carneiro, em dossiê publicado no novo número da revista Coyote, que chega às livrarias do Brasil esta semana.
Outros destaques do número 22 são dois textos de Italo Calvino, publicados postumamente em Romanzi e Racconti (1993), inéditos no Brasil (em tradução de Eclair Almeida e Bruna Ferraz). Jerusa Pires Ferreira e Josias Abdalla Duarte introduzem e traduzem a poesia do galego Manuel Antonio (1900-1930), também inédito por aqui.
Editada em Londrina (PR), o novo número traz ainda um conto em forma de peça teatral de Veronica Stigger (RS), a poesia nonsense de Edward Lear (1812-1888, traduzida por Vinícius Alves), contos de Sandro Saraiva (SP) e Márcia Barbieri (SP), inéditos de Paulo Moreira (RJ), Wilmar Silva (MG), Ygor Raduy (Londrina) e poemas de Solivan Brugnara (PR), estes dois últimos, novos talentos da poesia paranaense. Traz também o ensaio fotográfico "Desejo Eremita", do amazonense Rodrigo Braga. A contracapa é assinada por Beto.
Em seu nono ano de existência, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária.

A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina, e editada pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção.

COYOTE 22 // 52 páginas // R$ 5,00 (Londrina) e R$ 10,00 (outras cidades) Uma publicação da Kan Editora. Distribuição nacional Editora Iluminuras. Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site:www.iluminuras.com.br

COYOTE EM LONDRINA. Banca Flamengo (Mercado Municipal Shangri-lá) E Revistaria Odisséia (Rua Jorge Casoni, 2242 - Centro)

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA

segunda-feira, 23 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Entrevista com André de Leones


Hoje n' O BULE entrevista com o escritor André de Leones, ganhador do Prêmio SESC de Literatura 2005:


sexta-feira, 15 de abril de 2011

IV ENCONTRO PRÁTICA DE ESCRITA

O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp,Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensuem Criação Literária. A inscrição deve ser feita aqui: http://terracotaeditora.com.br/pcl/?p=545
O limite de vagas é 120 para as mesas e 15 por oficina.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Trem de doido


A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.

Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.

Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.

Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.

Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.

Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.

Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.

Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.

Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Morte no Subúrbio: conto em 6 atos


Ato 1

Depois de três meses adiando, começo a réplica de Lucien Freud. Gosto de pintar durante a noite, as sombras deformam os objetos. Homem nu com um rato na mão. Essa tela me excita. Corpo sonolento, membro descansado. Vertigens. Mil coitos interrompidos. Espermas engarrafados. Água rasa. O rato estrangulado entre os dedos. Abro o zíper. Pau duro. Vejo a polpa branca das jabuticabas percorrendo e saciando o desejo do tronco. Encosto a ponta da língua. Amargo. Porra e vermelho carne escorrem pelos meus punhos em apuros.

Ato 2

Ela me convidou para sair. Éramos confidentes, embora apenas ela falasse por horas, não conhecia sobre nenhum assunto, no entanto, palpitava sobre todos. Era evidente, todo dia me devorava com o olho obsceno da bunda. Fingia não ver, todos viam, não tive como fugir, dissimulei interesse. Ninguém aceita que um homem não coma uma mulher e toda mulher sonha ser bem comida pelo macho que ela escolhe. Em casa, minha mãe perambula pelos cômodos, quer saber se voltarei para dormir. Talvez. Os corpos se saciam rapidamente, apenas o amor tem esse inconveniente de partilhar camas e noites. Tripas de anjos e meninos.

Ato 3

Enfio minha língua em seus lábios. Remexo por dentro dela. Tudo tão diverso. Não me contento. Há sinos repicando em seu útero fértil de puta sagrada. Todos os meus íntimos relógios – anti-horário. Desprezo seus seios, anseio materno. Coloco-a de quatro com força. Volto à infância. Sangue coagulado nos meus joelhos. Muro coberto de cacos de vidro. Os vitrais assumem os mais diversos disfarces. Caio trepando nas árvores. Esfíncter. Quintal de sonhos e merda. Levo-a para casa. Vejo uma triste ternura cambaleando em seus cílios.

Ato 4

Algo me dizia que ele sentia o mesmo que eu. A mesma dor, a mesma vontade de entrega. Quando estávamos perto Ele suava como um animal que traz do nascimento o aniquilamento inevitável da morte. Touros se debatendo nos matadouros. Caio. Não podia mais me enganar, era evidente, desde a primeira vez que o vi. Um anjo barroco do subúrbio. Eu precisava saber. Eu tinha que escutar da boca dele. E escutei: “Você tá louco porra, eu sou homem!!!! Gosto de mulher, sai pra lá bicha du caralho!”. O desafeto é monstruoso. Um peixe engolindo – estuprando o mar. Ventríloquos mudos.

Ato 5

Minha maior tortura foi confessar meus crimes aos pés encardidos do seu ouvido. Olhos de cão em agonia. Babas de raiva - hidrofobia. Não posso mais fingir, omitir o que sou para agradar os delírios de perfeição dos outros. Eu sinto tesão por homens. Reprimi por muito tempo essa vontade quase inata. Não dá mais. Eu me iludi com o Caio, mas isso não muda quase nada. Não altera muita coisa. Vou para o Bar da Lôca e faço muito sexo, sem falsos pudores, como sempre sonhei, sem mutilações. Enquanto como outros homens, penso no Caio. O amor é andrógino, um mar povoado de cavalos marinhos. Suas mãos, seus cascos, um resto de sol, cavalgam no meu sexo. Lembro-me o quanto era difícil espantar as moscas que se distraíam ao redor dos seus olhos de cavalo.

Ato 6

Não posso mais morar aqui. Vou embora. A penumbra agora ocupa o espaço vazio do quarto. A pouca luz que entra pela veneziana escapa pelo buraco da fechadura. Não há grande diferença entre jaulas e janelas. Iago. Iago. Repito exaustivamente até formar um nó cego na garganta. Espero o eco devolver uma imagem sinuosa de mim mesmo. A mala, as frutas esmagadas, o cachorro enterrando ossos. Os olhos da jabuticabeira encravados na minha carne gasta. Pego uma tela. Natureza morta. Hoje eu sei: a saudade é uma morte camuflada e morremos todos os dias na gordura solitária do ralo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Placenta


“Onde é o vasto ventre do nada, prenhe de mundos, que contém agora as raças que virão?”

Arthur Schopenhauer

Enquanto a despia com a alma de viajante, pensava em “Cão Danado”. Se o revólver não tivesse sido roubado. Se ela não tivesse casado com aquele homem rude, se não tivesse parido por tantos anos, tantos filhos brutos rasgando suas entranhas de falsa mulher civilizada... Soluçava e sentia o gosto das goiabas que compartilhávamos quando crianças e com o tempo foi bichando. O esfíncter arrombado da nossa infância prematura.

- Você está diferente, parece que a rudeza te comeu por dentro e por fora, de pensar que já fomos tão parecidas, as pessoas até costumavam confundir.

- Você julga não ter mudado.

- E mudei?

- Minha querida! Não seja tão tonta, eu não envelheci assim, tão de repente, tão sozinha, já faz tantos anos...

- Tantos anos?! Não foram tantos assim.

- Eu apenas parei com essa luta insana contra o tempo. Agora eu comungo com ele, todas as manhãs.

- Uma forma bem cômoda de encarar essa flacidez mórbida estampada em você, toda essa pele manchada de mágoa tropeçando entre seus dedos.

- É triste ver você.

- Que ironia! Digo o mesmo.

- Eu te amo, não há nenhuma ironia em minha voz, não desperdice suas forças comigo, estou ao seu lado, como quando pela manhã nos surpreendíamos porque tínhamos sonhado o mesmo sonho.

- Já não me lembrava.

- Você ainda não percebeu que mudou. Um vestido que nunca foi usado, não significa que não envelheceu.

Suas palavras afundaram como pedras, pungentes como a saudade de um morto. Corri, andei em direção ao quarto. Entrei, fui até o espelho, tirei toda a roupa, peça por peça. Era triste, mas era verdade. Senti-me ridícula. Tentando capturar a juventude a fórceps. Os seios minúsculos e murchos não se acomodavam em minhas mãos inescrupulosas e duras, a artrite já tinha corroído minhas articulações. A rosa tatuada também murchara e jamais seria colhida. No ventre, as trilhas eram profundas e de um perolado fosco. Todos os espermas que, por vaidade, matei estavam ali, vivíssimos, rindo da minha antiga polidez. Tentei bisbilhotar por dentro de mim à procura de consolo. Inviável. Estava morta. No lugar das enguias, tripas secas. Retirei os dedos. Agora uma vagina era apenas uma vagina. Uma matéria escura. E eu estava mijando para o universo. Olho para o chão, alguns tacos estão soltos. Tanto tempo passou e tudo que eu queria era anoitecer e poder ver a Ursa Maior se eternizando na brancura do teto.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Marcio Almeida



A MINIFICÇÃO DO BRASIL, DE MÁRCIO ALMEIDA. OS INTERESSADOS FAVOR ACESSAR:http://www.clubedeautores.com.br/search?what=marcio+almeida&commit

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sangria nos meus olhos mortos



“O homem é um deus em ruínas”
Ralph Waldo Emerson

Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.

É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: Perante o amor todo ser se desnuda.

Marimbondos rondam o quintal e suas asas negras assustam os olhos planetários da minha infância esquecida. Os pés descalços esmagam a terra num misto incoerente de inocência e maldade. Minúsculas formigas deslizam sobre o tronco cinza, se encontram, se beijam e se abandonam. A simplicidade me apavora.

- Você sabia que as larvas entram no figo, comem-no por dentro e morrem sem poder escapar da própria armadilha? Bonito isso, né?

- Existem tantos homens que são como essas larvas... Invadem nossas entranhas, alimentam-se de nossas vísceras e morrem dentro de nós, devorados pela mesma fúria que os impeliu a entrar.

Aperto a polpa tenra.

No início o gosto não me agradava, mas acabei por apreciar o ritual de abrir a fruta e degustar seus desenhos. Me passava pela cabeça todas as teorias matemáticas tentando provar a inexistência do obtuso. O retorno provável-trágico da vida.

Mordo a flor.

Um velho alto e magro, cuja pele insistia em acariciar o mistério, rezava todas as tardes pelos fetos não vingados. Eu dizia amém, esquecida das mortes fecundas do meu útero. Um sol vermelho sai e faz um escarcéu sob minha vagina de puta cansada. Minha carne despenca dia após dia dos ossos e almeja se esconder na solidão omissa de ancestrais porões brancos. Nostalgia da época em que fui criatura insignificante e era possível estrangular o tempo. Despejar toda areia sobre o ar. Enquanto homens e janelas verdes contemplavam passivos todo suicídio.

Vivo só. Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas. O corpo da mulher nasceu deformado para o afeto e para a fratura exposta. É apenas uma caixa vazia de paixões frustradas. A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos. Ocos. O amor se extingue entre as podas drásticas e o descaso das madrugadas. Meu coração é um punho fechado. Abril? Não é tempo de figos.

sábado, 4 de setembro de 2010

CAVALOS MORTOS


“Não ponha o sol sobre vosso ressentimento”
Ef 4, 26b

Fechei devagar minhas pálpebras caídas - inveja de todo peixe, e mais uma vez vi um campo fértil, embora solitário. Desde muito cedo aprendi a observar e em todas as faces eu encontrava minúsculas moscas brancas, criadas entre os carvalhos da ignorância humana. Contemplei o medo nos olhos de vidros dos corvos que testemunharam a morte de Van Gogh.
Sentei nu de frente para o horizonte antes da aurora e fiquei imaginando qual seria o gosto daquelas papoulas encarnadas, nascidas tão à margem dos cavalos mortos.

O dia está quente, não tiro a blusa, remexo os bolsos da calça, mas esqueci o que procurava, tento avançar, não é possível, creio que nenhum um homem pode avançar. Somos cães loucos rosnando para o próprio rabo, escorpiões ferroando as próprias cabeças, experimentando a eficácia de seu veneno. E os velhos são como caranguejos, andam para trás e alimentam-se dos defuntos da memória. Sempre veem multidão na solidão oca das coisas.
A velhice exala o odor do estrume – fetos prematuros nascidos da imensidão dos dias. Não se iluda, o tempo não tem aliados, é um sádico nos arrancando, pacientemente, vértebra por vértebra, recordando a falência dos nossos instantes. Ele me fez tão mesquinho, que agora sou um verme roçando a carne verde e indigesta dos cavalos mortos. Cavalgando com serenidade, todas as manhãs (meus cadáveres), esses animais selvagens que já não precisam de selas. Cascos trotando na reminiscência cíclica dos vitrais.

- Você pode me dar uma chance?
- E quantas mais?
- Eu juro que dessa vez eu farei tudo diferente, eu te provarei que posso ser quem nunca fui.
- E o que eu ganho acreditando?
- Amor em dobro, como na música.
- Estou cansada de servir de tema pra suas metáforas inúteis, é um jogo sórdido, machucar em nome da arte.
- Não, não é um jogo, eu errei, foi só isso, todo mundo erra. Porra!!!! Eu sou humano.
- Tenho percebido. Só que eu não sou tão madura para compreender essa separação entre corpo e alma, afinal, será que realmente o coração é uma casa de putas com mil janelas como disse Gabriel Garcia Márquez?
- Só o tempo te mostrará que mudei.
- Tudo bem, eu aceito esperar... Tenho pouca coisa a perder...
- Eu te amo, eu vou te provar, você não vai se arrepender, eu serei o melhor homem, daqui a cinquenta anos, você se lembrará disso e pensará, enfim, valeu à pena acreditar.
- ...

Nossos homicídios premeditados não renderam grandes prisões. Como disse antes, o tempo é sarcástico, um verdadeiro gozador. Minhas traições ainda estão sendo tragadas, lentamente, feito um cigarro eterno de infelicidades. Enfisemas espalham-se por todo meu corpo. Um vagalume apagado perdido nas noites escuras. Lembro-me agora do verso de Lorca: “a morte botou ovos na ferida”. Espalho o amarelo sujo dos caracóis surgidos de gozos infecundos.
Não foi possível provar nada, não sei se mudei. Também não acredito que fantasmas presenciam nossas condutas. Há trinta anos questionaram-me o motivo de eu não jogar terra em você. E hoje eu sei responder. Afinal, como eu poderia jogar terra perante sua eternidade, se antes já roubara e regurgitara teus sonhos?

Acabo de lembrar o que procurava no bolso, era sua foto três por quatro, desenhei ano a ano as rugas que teria, assim sinto que envelheceu junto comigo.
A manhã parece fria. Volto para nossa casa, ela ainda tem a mesma cor, as nuances do sol do Mediterrâneo. Na minha boca, o gosto amargo dos cavalos mortos...


Conto publicado na Revista Caos e Letras

segunda-feira, 5 de julho de 2010


Côncavo

Cólera nos meus olhos pequenos de passarinho morto
O pior chute é aquele que vem da inocência cortante das palavras
(a ainda menina e sua vulva violentada entre as coxas)
É preciso velar pelas bocas costuradas
Gosto de pintar homens sem faces
Subjugados pela insensatez dos ponteiros e de outros homens
- essa nossa vida anti-horário
A nos comer pelos pés.

Hoje as paredes caiadas discorrem mais a meu respeito
Do que cien años de soledad ao seu lado
De todo nosso amor anárquico
Restam-me ridículos pontos de luz furtados
Escapando rotos pelas venezianas trancadas
Agora seus gozos mancham outros úteros
Suas mãos convulsivas já não me dividem ao meio
Como a mim mesma – autoflagelo.

Contudo, alimento os escorpiões encalacrados das madrugadas.