quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Livro "A Puta"

Quem quiser adquirir o livro, me procure: 


Resenha do "Mosaico de Rancores" no blog da Nova Alexandria

Resenha escrita pelo talentoso Éder Lima:





Quem quiser conferir, é só seguir o link: http://blognovaalexandria.blogspot.com.br/2014/08/pequenas-impressoes-sobre-mosaico-de.html


Raias Poéticas - V.N. de Famalicão - Portugal


Participo desse grande evento em Portugal de arte e pensamento, sob a curadoria do poeta Luís Serguilha.

Homo literaturs - resenha do conto "Pianista boxeador" de Daniel Lopes



Para quem quiser conferir a resenha, siga o link.

Fragmento II de "A Puta" na Polichinello 16 - outubro/2014


Uma honra participar dessa grande Revista mais uma vez!!!!



Lançamento do livro "A Puta" na 1ª FliParanapiacaba






Antologia de poemas - Hiperconexões Realidade expandida vol. 2 e lançamento

Participo dessa antologia de poemas (vol.2) organizada pelo grande Luiz Bras. O lançamento será dia 18 de outubro no Hussardos.

Desassossego - antologia organizada por Luiz Ruffato

Participo dessa antologia, organizada pelo grande Luiz Ruffato, com o conto "Medula", publicado originalmente pela Revista Pessoa.

sábado, 31 de maio de 2014

Resenha do "Mosaico de rancores" por Eduardo Sabino no Balaio de notícias

Resenha do "Mosaico de rancores" por Eduardo Sabino no site Balaio de notícias:

Livros

Prosa em fúria poética
Romance mergulha em psique apaixonada

Por Eduardo Sabino
Foto: Facebook da autora

Marcia Barbieri: poesia e metalinguagem
 
Acompanho há algum tempo a produção de Márcia Barbieri. Suas publicações em sites, revistas literárias e blogs. Desde o começo, chamou-me a atenção o caráter estilístico de seu texto. Uma escritora com voz reconhecível, fiel a si mesma na composição das frases, com escolhas vocabulares e saltos poéticos que se repetem no ponto de vista da técnica, mas sempre gerando novas imagens e experiências estéticas, lugares ousados e incomuns.
Em Mosaico de Rancores, o estilo está lá, mais barbieriano do que nunca: a prosa poética forte, densa e peculiar. Agora, porém, os capítulos, que poderiam, pela força e o acabamento linguístico que têm, ser vistos como peças independentes, precisam funcionar em prol de um todo. Estão em busca de um projeto maior: a abrangência e a coesão de um romance.
Interessante notar como o texto de Márcia, agora imerso na estrutura do romance, dialoga com os aspectos mais comuns dessa narrativa, reiventado-os a seu modo. Mosaico de rancores não abre mão, por exemplo, das figuras de referência do romance: os personagens. E mesmo que a linguagem às vezes pareça um fim em si mesmo, ela também caracteriza as pessoas do texto e vai expandindo seus conflitos. Como em todo bom romance, não sabemos exatamente para onde a leitura nos leva, mas há um mosaico sendo composto, capítulo a capítulo.
Subjetividade exposta
Normalmente, em boa parte dos romances contemporâneos, o enredo é a parte mais visível. As ações dos personagens estão claras, a história se desenrola e, aos poucos, os traços mais subjetivos dos personagens vão sendo colocados, de maneira sutil ou direta, a depender do autor. Mosaico de Rancores inverte essa lógica.
O foco está, desde o início, no universo subjetivo da estilista Maria Luiza, ou, simplesmente, Malu. O texto está bem próximo da personagem, no centro de uma consciência lírica e atormentada. O tempo ali parece quase suspenso, cristalizado numa linguagem na qual Malu, a voz narradora, funde lembranças, traumas, desejos e obsessões. O enredo é justamente o que vai se desenhando aos poucos, sempre pelas frestas da cabeça de Malu. Os acontecimentos alimentam o seu grande conflito interior: o ciúme que sente pelo marido Lúcio.
Na narração de Malu, algumas palavras vão e voltam, e servem como chaves para abrir as portas de sua percepção de mundo. Os “vermes”, a “carne morta”, “as moscas”, “flores e frutas aprodrecidas” e um rio verde, no quintal da infância, transcorrendo nos finais de cada capítulo. Como no simbolismo, algumas imagens se repetem, especialmente as imagens de morte, sempre presentes. Mas, se no caso de poetas como Cruz e Souza a morte representa a libertação, a emancipação de uma condição de sofrimento, no texto de Márcia ela aparece quase sempre como uma barreira para o desejo. Uma pedra que bate contra uma consciência que se projeta para o infinito.
Nada diverso, nem fora, nem dentro de mim. Orgasmos nascem e morrem entre os meus dedos. - pág. 44.
Meu corpo são cavalos arredios e sem freios, são ladeiras esperando precipícios, suicidas à beira do abismo. Meu ventre inchado ferve e eu espero lavas. – pág. 59.
Ou, ainda:
A morte começa nos pés. Eu sei que sairei e metade da casa irá junto comigo, me entortando as costelas. Um caracol velho e sem asas.
O ciúme parece brotar da força do desejo de Malu. A vontade de retornar ao “rio verde do quintal”, uma imagem recorrente da infância e da pureza. O amor, para ela, surge como o maior de todos os desejos, algo que ela busca com desespero embora sinta como inalcançável:
O amor é assim, arrumação de camas, ruas sem saída, novelos de uma Ariadne perdida no labirinto. Não há barcas para atravessar o rio verde que invade meu quarto. – pág. 50.
O desejo pelo que Malu entende como amor acaba alimentando, na personagem, o monstro do ciúme. A todo tempo ela imagina Lúcio, o marido fotógrafo, com outras mulheres. Remói detalhes e indícios de traições que para ela são evidentes e escancarados. Aqui reside o grande conflito interno de Malu. Ela sabe que a paixão por Lúcio a está cegando. Parte de si tem consciência da cegueira, mas quer continuar investigando a própria caverna:
Escurece depressa. Apalpo as costelas e ainda percebo a fúria de Deus no meu corpo. A costela rejeitada. A cegueira não me poupou de enxergar minúcias. – pág. 73.
Ou, ainda:
Afundo no meu particular mito da caverna – cegueiras. O ciúme é inútil como águas-vivas sem vítimas.
A abrangência do mosaico
O romance navega no rio interior e furioso de um personagem que deseja completar-se no outro, unir-se a ele a qualquer custo. O mergulho de Malu se torna mais intenso na ausência de Lúcio, que viaja para participar de uma exposição. Ajuda a compor a riqueza da narradora uma intertextualidade constante com a pintura, o cinema, as artes plásticas, as mitologias grega e cristã.
Na parte II do livro, “Clareira”, Lúcio assume a narrativa, mostrando seu ponto de vista a respeito do relacionamento. Por ter uma visão menos subjetiva das coisas, Lúcio amplia o nosso conhecimento sobre Malu e os conflitos do casal.
O resultado é um romance bem-acabado e com uma harmonia incrível entre suas partes. Após a leitura, me lembrei, imediatamente, de um trecho do próprio livro, na página 38, que funciona também como metalinguagem, um exercício de reflexão da autora sobre o próprio texto:
Recolho como louca os retalhos da colcha que estou terminando. Todas as cores num só pedaço de tecido. Elenir sempre diz não entender como sou capaz de colocar essas cores em tão perfeita harmonia! Nem eu. Às vezes, imagino que são infinitos tons de cinza e, quando vejo, está pronto. Isso me comove.
A mim também.

Eduardo Sabino é escritor, autor do livro Ideias noturnas - sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século). Blog do autor: http://www.eduardosabino.com.


Publicado originalmente no site: http://www.balaiodenoticias.com.br/artigos-e-noticias-ler.php?codNoticia=291&codSecao=42&q=Prosa+em+f%FAria+po%E9tica

Meu conto "Quando os maracujás florirem" na Revista Flaubert


Meu caro, não, meu querido, não, meu esposo, não, meu companheiro, não, melhor poupar designações, tudo que nomeio me compromete e não diz nada, talvez por isso as letras me interessem tanto, sim, pela sua incrível ineficácia. Melhor eu começar assim, escrevendo assim, do início, sem remetente, uma carta nunca deve ser lida por apenas um leitor, uma carta tem segredos que dizem respeito a quase todos, pequenas banalidades e deslizes que muitos cometem. Também não colocarei data, as coisas foram acontecendo assim, ao longo de tantos anos que colocar um número exato daria uma impressão errada dos acontecimentos e parecerá que um dia preciso nos desentendemos e resolvemos desembaraçar e você sabe, não foi bem assim, as tragédias acontecem um pouco a cada dia. Primeiro um hematoma perto da virilha, um tombo pequeno, uma ralada no joelho, depois uma queda e um braço quebrado, depois uma escada e uma fratura exposta, depois as varizes que estouram de repente e inundam a sala de um sangue vermelho e grosso. Não, também não foi assim, acho que primeiro foram os cachos, as uvas em cima da fruteira, sim, aquelas brilhantes, feita de plástico. Não sei bem, nunca fui muito ligada a métodos e números cardinais. Não, foi ainda antes disso, desde muito cedo me apaixonei pelas parreiras e nem sei ao certo porque elas me causavam tal encanto, eu poderia passar tardes inteiras olhando os caminhos que seus ramos percorriam e ao anoitecer já não me recordava das trilhas e era necessário pela manhã recomeçar meu trabalho de catalogação. O primeiro ramo a nascer se estendia em direção ao telhado se furtando do compromisso de seguir o estaleiro-quadrilátero que compomos quando trouxemos as minúsculas mudas. Essas mudas não irão pra frente, veja estão tão fraquinhas, se eu fosse você eu plantaria maracujás, você já viu como são bonitas as flores do maracujá¿ Ou quem sabe aquelas margaridas miudinhas, eles dão em qualquer lugar. Sim, eu compreendia e sim ele não era eu, de forma que se fosse, ele jamais plantaria maracujás e se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não suporto os maribondos que perseguem as florações e nem qualquer outro tipo de inseto voador. Não, ele não era eu, caso fosse saberia que minha infância inteira eu vi os maracujás penderem da cerca que separava minha casa da casa vizinha. Se ele fosse eu ele saberia que não suportava lembrar a brutalidade que minha mãe arrancava os frutos ainda verdes do pé para que a mulher da casa ao lado não tocasse suas mãos sujas no fruto. Se ele fosse eu ele saberia que a única moça que eu amei na vida morava na casa ao lado, sim ele saberia e sim ele não me chamaria de lésbica quando conto essa história, não diria que no tempo dele mulheres que amavam mulheres morriam solteiras, não ele não diria, ele não diria que no bairro, ele e seus amigos comiam mulheres que gostavam de mulheres. Sim, ele saberia que as mulheres se camuflam de homens muito melhores que os homens. Ah, se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não me empenharia em cuidar de flores miúdas que dão em qualquer matagal, que eu não me abaixaria, não tocaria minha bunda na terra e não tiraria os capins que cobrem as flores pequenas e se ele fosse eu ele saberia que eu só cuidaria em vida das parreiras, só delas e de mais ninguém... Mas sim, ele nem passava perto do que eu era e nas raras vezes em que pedi para que ele se colocasse no meu lugar, ele se levantava do sofá e dizia que não ligava a mínima, e de baboseira e pontos de vista e referência já bastavam as aulas de geografia e que elas tinham ficado para trás faz tempo, se eu quisesse mesmo que ele se colocasse no meu lugar que lhe arranjasse uma buceta, só assim saberia ser mulher e pensar com a futilidade de uma mulher. Falava e espirrava pequenos jatos de água com a boca. Então, eu tinha certeza, ele jamais seria capaz de ter uma buceta e nessas horas eu tinha fé, Deus não teria colocado um buraco no meio das pernas dos homens, não mesmo, até mesmo o cu duvido que seja coisa de Deus. Passei muitas noites acordada pensando em uma maneira de me vingar, se tivéssemos filhos poderia levá-los para longe e proibir suas visitas, mas ele nunca quis ter filhos, dizia que a próxima geração era de pervertidos e ele não se arriscaria, podíamos ter gatos e cachorros e uma tartaruga, se quisesse ser mais exótica. Não, eu não era exótica, exceto as parreiras. Às vezes, durante a noite, eu escutava sua barriga fazer barulhos terríveis e então, pensava, ele podia ter uma úlcera incurável, no entanto, logo depois você arrotava alto e dizia, puxei minha mãe, tenho estomago de avestruz, eu desanimava com minhas pequenas vinganças invisíveis, não seria tão fácil te perder. Maquinava em minha cabeça diversas formas de machucá-lo, fazer com que não voltasse mais, enquanto isso, eu via cachos verdes em miniatura despencando da parreira, logo as uvas poderiam ser colhidas, no começo do ano talvez. Uma noite escrevi uma novela de duzentas páginas inspiradas em você, foi inútil, você dizia que detestava literatura, era tudo uma balela e que aquelas páginas só serviriam mesmo para limpar a bunda. Esquece, literatura não serve para nada mesmo, é como disse, as letras me interessam pela sua ineficácia. Agora não haveria erro, minha vingança não tinha como falhar, você não teria como escapar, você estava preso no estaleiro-quadrilátero que compomos. Esqueci de perguntar ao meu pai as pragas que atingem as parreiras, depois resolvo isso. Sim, o mais importante agora era a minha vingança. Sim, o estaleiro parecia forte, sim, você era bom com as construções. Cinquenta e dois quilos, sim, era um bom peso. Como fazia todas as tardes, coloquei a cadeira embaixo e fiquei admirando os ramos e agora também admirava o espetáculo dos primeiros frutos. Amarrei a corda, subi na cadeira e depois o chute. Ainda sinto o cheiro das flores de maracujá e o gosto do beijo de Estela e da surra e da briga eterna entre meus pais e a vizinha-vadia-mãe-solteira que não sabia dar educação para filha, a filha que tinha gostos exóticos. Sim, você tinha razão, devíamos ter escolhido os maracujás ou as margaridas ordinárias. Não, não se preocupe, o capim não está tão alto, peça um pouco de mata-mato para meu irmão, vamos você deveria saber que os cachos demoram para crescer, sim, melhor eram as margaridas ordinárias.

Pulicado originalmente na Revista Flaubert número 1: http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert

"A Puta" na Polichinello 15

Publicado um trecho do romance "A Puta" na Polichinello 15- Poéticas da transgressão
 
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Veredas - panorama do conto contemporâneo brasileiro (Eu & outros)



Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro é a afirmação da multiplicidade dos caminhos narrativos contemporâneos. O projeto baseia-se na ideia contrária a das últimas antologias lançadas no mercado: em vez de um pódio e de um elenco de melhores narradores — o que é exagerado em um país constituído de centenas de escritores, entre famosos e anônimos — decidimos optar por um levantamento das estratégias narrativas, em que seus escritores empenham-se em propor novos caminhos e soluções para a sua ficção. Veredas não é, e não quer ser, a palavra definitiva sobre o assunto, mas é o gesto mais adequado em uma proposição democrática, pretendendo um panorama cromaticamente mais rico da prosa brasileira.

Para adquirir siga o link

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O desencaixe do sol - poema da coletânea "Hiperconexões" organizada por Luiz Bras



Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplandoseus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde

Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva

Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele

E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Medula - texto publicado na Revista Pessoa


Siga o link: http://www.revistapessoa.com/2013/10/medula/










O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas- texto originalmente publicado na Zunái



Eram coisas minúsculas que me faziam não entender o mundo, como dois interruptores para apagar a mesma luz ou o som vindo da Ásia e saindo de uma caixa negra ou morangos mofarem tão rápido ou o gosto das pitangas serem tão parecidos com os das cerejas ou as flores que terminam em um falo ou a teta alimentar o universo ou um espelho esférico invertendo meu pânico ou dois homens se amando com o desespero que nunca conheci ou o amor ser um criadouro de moscas estéreis zunindo zunindo zunindo dó ré mi fá sol lá si cataclismas no meu cérebro larvas obesas ruindo a carne vespas negras no fundo do quintal ou o tédio enferrujado esburacando a manhã ou buchada ser uma iguaria ou crianças comendo testículos de bois ou um escorpião amarelo atravessando o deserto comendo a própria cria ou a diáspora das nossas mãos durante as masturbações ou bonecas infláveis serem tão perfeitas ou o ódio insano dos homens pelos touros ou a beleza dos chifres espiralados dos antílopes negros ou mulheres clonando-parindo como animais ou a disputa selvagem dos homens pela buceta das fêmeas. O pensamento da aranha tecia absurdos sobre minha tíbia rótula patela minha vizinhança meus membros eram uma máquina de encaixes arruinados e eu era um ser obtuso e ter o crânio de um animal era o menor dos meus problemas. Coma logo a aranha antes que suas ideias se tornem matéria coma logo a aranha antes que ela teça a revolução coma logo a aranha antes que cem luas despenquem de suas patas peguem a faca e cortem o verbo ao meio só sobrará a ação. E nossa cópula fosse a união de mil garras, armistício, campo minado, fratura de invertebrados. Não entendi quando percebi que essas coisas pequenas entre as pernas num ângulo diálogo monólogo obscuro não fosse capaz de provocar asco, não entendi quando percebi que existiam idiossincrasias em todas as genitálias, eram todas tão diferentes uma das outras… Olhei de novo para minha e tive vergonha. De que espécie eu era¿ Por que meus buracos e seus contornos eram tão pavorosos¿ Ela era rosada e grande, uma membrana pesada e com bainhas desproporcionais os pelos cresciam em direções variadas perdidos entre uma ordem e outra. As estrias formavam ramificações difíceis de entender. Desviei o olhar não gostava de encará-la por muito tempo. Eu jamais deixaria que ele me visse, não assim, onde eu não era normal, onde a duração do tempo se distendia nos meus pequenos-lábios, pensei na solidão dos ornitorrincos… na feiúra incompreensível dos peixes abissais… nas dobraduras se desdobrando na minha pele fina. De novo os ornitorrincos e os peixes abissais. Eles como eu não eram daqui e eu pensei: é bem estranho ser estrangeira no próprio corpo é bem estranho ser estrangeira no seu país é bem estranho estar sitiada nas escórias da própria carne é bem estranho conhecer apenas as superfícies das coisas inanimadas.

Olhei para seus olhos castanhos e clamei, você que não me conhece não me deixe nunca sair da minha terra não me deixe pisar em outros solos áridos não quero conhecer outros países não quero conhecer outros dementes não quero lamber a falência de outro corpo não quero sentar na rigidez de outro pau não quero enrolar minha língua em outras línguas não quero ter certeza que a felicidade não existe em parte alguma, quero ter essa esperança rasa de que em alguma parte o ar é rarefeito, as palavras são todas francesas e a lama é branca…

Você me olha com um olhar idiotizado, o olhar de todo homem que já passou dos trinta e eu desfaleço. Você podia me fazer parar, agarrar meus pulsos, amarrar minhas mãos nas grades da cama. Você não faz nada, só me olha, um gato paralisando sua presa. Retiro a armadura do eu penduro na parede texturizada grandes rosas secas arabescos que não existem mais a arquitetura falida nostalgia rococó retiro as carrancas retiro as máscaras japonesas enfio o dedo na sujeira do umbigo retiro os caranguejos da minha última morte retiro a penugem do buço agora sou não eu essa cor opaca massa mole matéria quase morta parecendo o abdômen de um inseto ou um incesto de dois irmãos.

Você sussurra no meu ouvido surdo labirinto bigorna eu eu eu eu o eco ensurdecedor de todas as suas ideias olho seu palato em decomposição e você continua agora num grito sufocado eu eu eu e eu coloco a corda frouxa e suicida em torno do seu pescoço vejo a língua enrolada e a baba grossa de um epilético.

Você sopra no meu olho sem cílios eu eu eu e recorda um velho refrão cavalos cavalgam na cartografia do seu dorso–cavalos negros selvagens cavalgam no seu leito– mas isso não é importante–o eu está morto. Sou uma massa amorfa e coalhada e o sol apodrece minhas vértebras e o líquido que me tirou das penúltimas meninges explode na minha garganta há um pêndulo enferrujado entre minha laringe e minha traqueia falar não é tão indolor quanto parece ainda mais nesse lugar suspenso onde cada palavra cai um rifle ainda mais nesse campo de marionetas onde não perdura a consciência íntima do tempo.