quarta-feira, 18 de março de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 32

Não vale a pena encarar guerras para abrir valas e depositar amores mortos. Canhões e tanques estão apontados para mim e eu espero. A grande virtude dos fracos. Os urubus planam felizes sobre suas carniças. Pousam e devoram olhos vazados de dor. Oroboro, o ciclo inútil da vida. Minha boca já sugou picadas de cobras e o veneno ainda abre feridas incuráveis na minha pele. Lepra. Amores arrancam partes e nos aleijam. Tromboses e cadeiras de rodas. Você me possui, escancara meus abismos e tira o resto de luz que me resta. Você jamais foi capaz de percorrer meus porões sem se perder nos meus escombros, sempre trazendo escondidas nas mãos pérolas negras e roubadas. Escafandros afogados no lodo. Anjos debruçados na lama. Cordas enlaçadas com arte envoltas no pescoço. A lâmina afiada do seu mundo me assusta mais do que guilhotinas cegas. Não há como furtar sem deixar impressões digitais ou partes dos dedos. Não quero mais ser A Suplicante de Claudel. É triste dançar uma valsa só ao som de um réquiem. Amá-lo é mergulhar com os bolsos cheios de pedras num rio verde e calmo, onde descansam libélulas e fantasmas de Virginia Wolf.

14 comentários:

JC disse...

Por vezes tentamos descobri caminhos, caminhos dos quais pensamos que conhecemos já aluma coisa, lentamento vamos tateando, vamos palmilhando cada paço um mais devagar que o outro par que não surjam enganos, no entanto eis que surge uma biforcação, não sabemos por onde ir, deciimos à sorte. Enganámo-nos fomos para o porão errado. Com tanto cuidado que iamos. Pensávamos que conheciamos relativamente bem os caminhos. Afinal...Enganámo-nos. Quando será que deixmos de errar e temos a certeza do que percoremos?
Adorei o teu texto. Divaguei um pouco, à minha maneira, sobre ele.
Beijinhos

williamlial disse...

Gostei da imagem que criou com essa frase: "Você jamais foi capaz de percorrer meus porões sem se perder nos meus escombros". E essa outra me fez lembrar do romance de Michael Cunningham, "As Horas", quando ele descreve o suicídio de Virgínia Wolf: "Amá-lo é mergulhar com os bolsos cheios de pedras num rio verde e calmo, onde descansam libélulas e fantasmas de Virginia Wolf".

Um beijo, menina!

William

Adriana disse...

"A lâmina afiada do seu mundo me assusta mais do que guilhotinas cegas." Márcia, que beleza de texto. Um apanhado se sensações, estranhas e dolorosas sensações permeadas de entrega. As referências couberam como uma luva no seu texto. Adorei. Bj

PS: Bom retorno, você fez falta!

f@ disse...

Olá Marcia... quanto tempo...
bom que voltas-te pois tinha saudades dos teus textos...
mas hoje fico aqui calada e volto amanhã para te ler e comentar com atenção...

bem vinda
e beijinhos

BAR DO BARDO disse...

não sei como consegue sorrir de forma tão tão...

seu texto me intriga.

usar oroboro e "Escafandros afogados no lodo.", meu pai santíssimo!

que texto bom!!!

espero que vc, márcia, nunca chegue a concluir, para nosso prazer de leitura, o seu "romance".

Luciano Fraga disse...

Intrigante e extremamente doloroso.Vem com uma carga de angústia estonteante, amor com pedras no bolso, mergulho no fundo de um rio, máximo, grande retorno, espero mais.Beijo

f@ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Braga e Poesia disse...

nossos escombros estão sempre ai para alguns, e esse texto mexe e remexe com os intimos escombros de todos os nós e em nós.

On The Rocks disse...

certeiro. tenho sentido sua falta por lá.

por aqui, vejo que as coisas estão como sempre...

marginal, belo, tocante.

bj

f@ disse...

Marcia...mil desculpas
exclui comentário sem querer ... apenas para emendar erro e agora não consegui repor ... falhou a net e nem consegui salvar...
se puderes repor tu faz-me isso por favor...
beijinho
se não der eu comento de novo...
imensas desculpas

Luciano disse...

Sem muitas palavras. Lindo, Forte e poético são apenas tr~es que já dizem desse todo.
Obrigado pelo post.
Bj carinhoso em ti.

williamlial disse...

Oi, M'a Bella:
Há um selo pra você no meu blog, menina.
Um beijo!

Heitor Cardoso disse...

Peço perdoes mais do que sinceros e urgentes, por nao ter podido ler pela falta de tempo aos seus textos, que sempre me serviram de inspiraçao e sempre foram extremamente sinestesicos, sem o exagero da palavra.
Deixo-lhe meus beijos, e minha saudade.

António Gallobar disse...

Um belissimo texto, muitos parabens pelo blog

Antonio Gallobar