quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mundo das ideias


Toda badalada nos fere, a última nos mata”
Provérbio latino-americano


Morrer é como pisar um rio pela primeira vez, nunca sabemos ao certo o que há no fundo.

Rua Aurora. Os jovens riem dos velhos, achando serem imunes à velhice, pensando que a adolescência jamais arrumará as malas e partirá sem recados, abrupta, como um mochileiro irresponsável. Eles falam em códigos e contam piadas até o amanhecer e para eles as noites são estreladas e não lembram em nada os suicídios e os ciprestes de Van Gogh e passam rápidas e o sol e o gozo nasce quente novamente todos os dias. Também acreditei nisso, bebi dessa fonte enganosa da eterna juventude. Hoje as moedas que joguei alimentam os desajustados.
Meus olhos eram flutuantes e verdes... Tão verdes e impressionantes como as lagartas antes das asas. Envelhecer era ter mais de dezoito. Os cavalos passam sempre a galopes... Famintos. Como não percebi antes? Ah, a eterna adolescência de Leminski...Aos quinze também era poeta, mas as palavras foram morrendo aos poucos, sufocadas por sondas e cateteres, algumas engolidas, outras despejadas em conchas azuis, na esperança tola de virarem pérolas, as coisas apodrecem mais rápido do que imaginamos. Olho a beleza furtiva no breve e absurdo afogamento dos corais. Comungo com a perversidade dos espelhos e com os labirintos em braille de Borges. Apenas suspeito da ingenuidade dos caracóis sempre envoltos em cascas duras, vendo a vida passar lambendo o chão e a merda de todo homem. O mundo visto pelo buraco omisso da fechadura. Regurgito: e a vida pode ser mais cruel que a morte. Afiem as facas!!!! Ela nos desossa como um açougueiro louco, contaminado pela frieza do ofício.
Rua Brinco de Princesa. Passo as mãos trêmulas pelos cabelos ralos. Olho através da janela, trespasso gerações. O moço de cabelos compridos e anarquista, agora anda de terno, com ares de pai, é gerente de uma multinacional. A moça, outrora sorridente, passa contando os rejuntes dos pisos, tão cúmplice da tortura do tempo, eu não fui o único a ser trapaceado... Sua mãe que desfilava distraidamente sem blusa com as cortinas abertas, agora guarda com vergonha os seios flácidos, e apenas seus decotes são vermelhos e vivos. E apenas eu sou seu voyeur e todas as janelas lembram o suspense de Hitchcock. Seu rosto tem o cheiro e as manchas próprias das frutas amadurecidas à força. O tempo é um cão cego e sem faro a nos guiar.
Rua das Ilusões. Vejo o mundo e posso ver a pena através dos seus vitrais embaçados. De tudo o que me restou a piedade é o sentimento maior de todos, Camille Claudel me entenderia, apesar da sua loucura e devassidão. Ninguém fica pra semente, escuto um coro rouco gritando. Espero sinceramente que não, porque a morte se instalou entre meus ossos e minha pele, ela é agora minha nova e digníssima carne.
Rua sem saída. Aqui, agora, percebo o relógio se arrastando num compasso tão diferente do meu, eu diria inversamente proporcional. Os relógios de bolso e os pêndulos não mais existem. Percebo o quanto envelheci, meu corpo já não responde aos meus comandos, já não posso correr disso tudo. E o moço me diz gravemente: “Você jamais teve minha idade!”. Sou escravo dessa visão parcial da minha janela. Jamais poderei sentir novamente o corpo de uma mulher estremecendo sobre meu peso. Sou leve como o pensamento, estou tão próximo do mundo pervertido das idéias. Estou tão debilitado que durante toda essa conversa, apenas passei do corredor para a tristeza úmida do quarto.
O tempo me fisga com seu membro de aço ejaculando um esperma gosmento, branco e estéril. A velhice é como amanhecer e anoitecer sob o giro alucinante do sol do Alaska.
Na placa do carro preto 8888. Revivo o invento das bombas de napalm da Segunda Guerra. Afundo meus pés, não creio nos submarinos dos sonhadores... Escafandros emergem de repente... Sigo e escuto os galopes... Finalmente avisto os cavalos de Tróia.

23 comentários:

Lisa Alves disse...

Maravilhoso e denso texto, para não dizer um longo relato do tempo. A visão de um mundo que envelhece com as rugas vistas no espelho. Adorei seu espaço na blogosfera, a raridade de contos nas ruas da net é contada nos dedos.

Lisa

f@ disse...

Olá Márcia,

…“Tão verdes e impressionantes como as lagartas antes das asas”…
...
Na infinitude da vida cabe a passagem plena e o encontro com o desconhecido…
O Verde do olhar permanece e ainda nascem as asas…

Desvendamos todas as cores…

Mtas vezes mergulhamos no negro… branco que extraímos da neve…

Márcia… a tua prosa é a vida é o poema… eu gosto imenso de te ler…
sublime.......
....

!nfinito beijinho

f@ disse...

Marcia desculpa devia ter-te dito á + tempo... passa no meu SUMO COM GELO aqui:
http://sumocomgelo.blogspot.com/

beijinhos

Entorpecida(a)mente: ... @ n@h! disse...

fabuloso!!!
adoro o modo de como transpões suas ideias em contos!!!
simplesmente adoro!!!

BAR DO BARDO disse...

A lâmina de sua escrita permanece afiadíssima e brotando o sangue do estilo.

OM!

Jenifer disse...

"... nunca sabemos ao certo o que há no fundo."

fantástico querida!

viajei aqui lendo.

a cada dia fico mais encantada com a força de suas palavras.

beijos poéticos.

Adriana Godoy disse...

É bom vir aqui encontrar um texto como esse. É bom saber que vc continua afiada, intensa, poética. Li uma vez, vou ler de novo, vale a pena! Beijo.

Anônimo disse...

vibro com seus contos..... lance a luz do dia toda tua escritura....
anima-se mais e mais :
releia Hilda Hilst.....
assista mais e mais Bergman e Visconti...
beijo,
FLAVIO VIEGAS AMOREIRA

meus instantes e momentos disse...

Uau....muito bom tudo aqui, belo texto.
Maurizio

Braga e Poesia disse...

lembranças e criticas, um presente triste e um passado que sempre nos faz chorar de alegria e saudades, e ruas e ruas onde os jovens perdidos se enganam nos sorrisos prudentes e jã sem dantes, ruas floridas ruas e ruas nos troncos das memórias.
a construção desse texto me encantou ruas ... maravilhoso a rua como ilhas e acontecimentos onde o passado critica o futuro e não o contrario.

Papagaio Mudo disse...

Well... well...
lá em Tróia vai tudo muito bem e Tristão continua fazendo jús ao nome que sua mãe lhe deu.
Bj.

Gustavo

Marcelo Novaes disse...

Percurso lido/ descrito como fratura.









Beijos,








Marcelo.

Luciano Fraga disse...

Márcia, passei rápido, estou sanando alguns problemas com a net, volto logo, abração.

Cadinho RoCo disse...

Ainda bem que os cavalos apareceram.
Cadinho RoCo

Luciano Fraga disse...

Márcia,texto que corta as ruas da vida,todas vivas e muito mais perigosas que a morte e como um turista passamos pelas pontes da saudade, da lembrança, da desilusão,seguramente debaixo de um frio que congela ossos,grandiosa escrita, abraço.

Raissa disse...

esse texto me levou ao sentimento de medo, no entanto é necessário ter consciência do tempo como algo finito.

ótimo texto, adorei aqui, voltarei mais vezes. =]

Luciano Fraga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
o Cheff disse...

Texto excelente de se ler.
Ao contrário do q disseram não achei nada denso, pelo contrário, parece que estamos em uma montanha russa de imagens literárias.
vou passar mais vezes por aqui.

Assis de Mello disse...

Vim reverenciar minha "ídala". Sua escrita sempre me arrebata.

Braga e Poesia disse...

um texto com sabor e cheiro, mas com a intensa busca do entendimento do que é o viver e antes do querer viver

Demóstenes disse...

O seu blogue é dos melhores que visitei nos últimos tempos.

Parabéns.

PS: Frida Kalho impressiona-me não tanto pela obra mas mais pela vida.

fao disse...

sempre forte, lirico e belo seus textos...

Gerusa Souza disse...

Talvez!