quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sangria nos meus olhos mortos



“O homem é um deus em ruínas”
Ralph Waldo Emerson

Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.

É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: Perante o amor todo ser se desnuda.

Marimbondos rondam o quintal e suas asas negras assustam os olhos planetários da minha infância esquecida. Os pés descalços esmagam a terra num misto incoerente de inocência e maldade. Minúsculas formigas deslizam sobre o tronco cinza, se encontram, se beijam e se abandonam. A simplicidade me apavora.

- Você sabia que as larvas entram no figo, comem-no por dentro e morrem sem poder escapar da própria armadilha? Bonito isso, né?

- Existem tantos homens que são como essas larvas... Invadem nossas entranhas, alimentam-se de nossas vísceras e morrem dentro de nós, devorados pela mesma fúria que os impeliu a entrar.

Aperto a polpa tenra.

No início o gosto não me agradava, mas acabei por apreciar o ritual de abrir a fruta e degustar seus desenhos. Me passava pela cabeça todas as teorias matemáticas tentando provar a inexistência do obtuso. O retorno provável-trágico da vida.

Mordo a flor.

Um velho alto e magro, cuja pele insistia em acariciar o mistério, rezava todas as tardes pelos fetos não vingados. Eu dizia amém, esquecida das mortes fecundas do meu útero. Um sol vermelho sai e faz um escarcéu sob minha vagina de puta cansada. Minha carne despenca dia após dia dos ossos e almeja se esconder na solidão omissa de ancestrais porões brancos. Nostalgia da época em que fui criatura insignificante e era possível estrangular o tempo. Despejar toda areia sobre o ar. Enquanto homens e janelas verdes contemplavam passivos todo suicídio.

Vivo só. Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas. O corpo da mulher nasceu deformado para o afeto e para a fratura exposta. É apenas uma caixa vazia de paixões frustradas. A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos. Ocos. O amor se extingue entre as podas drásticas e o descaso das madrugadas. Meu coração é um punho fechado. Abril? Não é tempo de figos.

17 comentários:

Mai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mai disse...

Natureza e condição humana se distinguem.
Ao final, o trabalho de ensacar figos é o mais leve de todos.
(e nada é tão leve nas sangrias)

abraços, Marcia

Diego Moraes disse...

menina você é um monstro. é abismo que não acaba mais... nesse texto senti o perfume de Proust e a

cova de Poe. maravilhoso. faz favor: não fica muito tempo sem postar, plis. vicia a gente e depois desaparece. sacanagem... valeu.

Ahas. disse...

Completamente encantado por seu texto!!! Parabéns!

Rosangela disse...

Parabéns pelo talento! Texto profundo, daqueles que vai lá no âmago e nos faz avaliar todas nossas mazelas...
Grande abraço!

Luciano Fraga disse...

Pura emoção em essência de ser humano,com todas as dores descascadas...maravilhoso! Abraço.

Adriana Godoy disse...

Márcia, nossa, que show de bola! Estava com saudade de seus textos, de sua veia artística única e profunda! Maravilha! Beijo

Anônimo disse...

Achei muito interessante seus textos...porque falas tanto de morte?

Marcia Barbieri disse...

Para anônimo,

é estranho responder para um anônimo rs...não sei porque falo tanto de morte, talvez porque não a tema, talvez porque a considere deslumbrante, talvez porque eu morra todos os dias e isso não me assusta, viver me assusta.

beijos

Lunna Guedes disse...

Estava com saudades daqui, mas andei ausente da paisagem. Aos poucos vou voltando e me deixando volver pelas palavras amigas que encontro pelos caminhos que meus olhos "inventam".
Bom sentir essa carícia em forma de outono e deixar ir lá dentro e voltar como se fosse apenas um afago em alguma coisa que está guardada em algum canto de mim mesma.
bacio carissima

Ricardo Novais disse...

Texto infalivelmente reflexivo! Adorei o teu estilo de escrita, moça.

Um beijo.

fao disse...

Perante o amor todo ser se desnuda.


..tudo...

Mai disse...

Porque "viver é eticétera" e morrer é só atravessar uma rua e a cada segundo é um - a mais e a menos.

Eu me implodo a cada releitura que faço de seus textos.

As vezes me embrenho silenciosamente nos mais antigos.

beijos

Sandra Regina de Souza disse...

Marcia, simplesmente encantadora, que escrita!! Lindo conto, lindo canto! Linda vc! Beijo

Braga e Poesia disse...

e entre abismos e subidas um 2011 de surpresas e alegrias

Lisa Alves disse...

Sempre vou e volto. Já li mais de 2 vezes esse conto e cada vez o sinto de uma forma diferente.

O amor que que se desnuda, as formigas que se beijam, os homens e as larvas e os fetos não vingados. Você vê a vida, seus pontos, seus cruzamentos e o borado inteiro.

Tuca Zamagna disse...

Muito bom, Marcia. Gosto desse uso atrevidamente abusivo de imagens fortes e insólitas. E da estrutura, da divisão em três partes que, embora integradas, podem perfeitamente funcionar como textos independentes.

Voltarei para ler mais textos (e apreciar as ilustrações, que também são muito atraentes).

Abraços