sábado, 14 de julho de 2012

O jardim branco


“O homem é a semente da degradação”

Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da rocha a minha combinação incerta de átomos.
Volto ao jardim branco em frente ao salão de festas, um acorde ainda ressoa longe no meu ouvido esquerdo. Ele continuava lá sentado no banco, como se eu estivesse ali o tempo todo mirando seu perfil. Ele me falava sobre a sua misoginia, sobre o quanto repugnava as mulheres, no entanto, elas nem eram capazes de retribuir tal aversão, eram tolas demais para experimentar o ódio. Considerava que o buraco no meio de suas pernas era a prova mais evidente e atroz de sua fraqueza. Nunca conseguira encontrar uma mulher que sustentasse a palavra até o fim, sua língua é mais ágil que seu cérebro. Diferente dos homens, que podiam ser calhordas, mas jamais voltavam atrás em seus acordos.
Divaguei um pouco enquanto ele pronunciava suas blasfêmias, o que bem poderia ser o que ele chamava de um defeito tipicamente feminino. Apalpei meu externo, à procura inútil dos meus seios, eles são ridiculamente pequenos e escorregam facilmente...
Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua.
Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair.
A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento.
Consegue sentir a música? Uma mulher não conseguiria, ela ficaria horas analisando sobre a importância das notas utilizadas, o compasso, o ritmo, a harmonia, porque para ela é mais  importante a origem do que o produto final. Remói os miomas do seu útero e não é capaz de reconhecer a cria que rasga sua vulva.
Ele continuava discorrendo como um maníaco depressivo. Olhei para seu rosto animalesco, para a curvatura das suas costas, um pouco disfarçada pelo terno escuro, para os seus débeis e longos dedos. Recordei da primeira vez que o vi sem roupa através da fechadura, não conseguia entender como eu podia amar um homem como aquele, um primata, eu me perguntava se ele participara daquela tal evolução que transformou os macacos em homo erectus, a sua coluna vertebral era tão envergada que eu poderia também ver a sua semelhança com um cachorro, nunca com outro homem ou com um ser divino, feito de matéria porosa e perfeita.
Embora ele não percebesse, ele também não passava de um símio, que por um erro conceitual do Ser ganhou o nome de homem.
Toquei de novo o avesso da minha cartografia. A mulher era um corpo oco até que Deus a sodomizou, ejaculou o sêmem da desgraça na sua cloaca. Então, ela deu o primeiro suspiro, descobriu que o mundo era semelhante a um pântano, deixou de ser objeto vazio para se tornar um simulacro e simultaneamente um criadouro de homem.
Quando vi o quanto era ridícula minha forma, pensei em partir. Contudo, ao olhar ao meu redor, eu percebi que estava só, não havia ninguém além de mim no jardim branco, não havia nenhuma festa no saguão, nem danças e o som de jazz que escutava não passava do coaxar dos loucos do outro lado do muro das lamentações e tampouco o jardim branco existia. Um escaravelho rolava um esterco de um lado para o outro imitando os movimentos de translação e rotação. Eu estava suspenso por uma espécie invisível de corda, eu poderia despencar a qualquer momento e experimentei o medo pela primeira vez. Dei uma cutucada embaixo das minhas costelas, não senti nada, minha carne se tornou gelatinosa e transparente. Definitivamente eu estava no não-lugar e meu nome era Deus.



4 comentários:

Sueli Maia (Mai) disse...

Cada um a si é o bastante. Parece imagens de um umbral. E sempre me impressiono com o que e como escreve, Márcia. Não há narcisos, porque esse antropocentrismo resseca as relações. Há tanta simbologia neste teu conto, que se fosse um sonho e estivéssemos em um divã caberia revelar.
Excelente!

Fernando Rocha disse...

Uau! Confesso que fiquei um pouco tonto após a leitura,o ritmo é intenso, o que dá força a alegoria.
Epifania, visões, misticismo.
Este é um dos textos que registra a impossibilidade dos homens com um determinado tipo de escrita.

Wagner Bezerra Pontes disse...

Uau Marcia! Eu, cada vez estou sem palavras pra o que andas escrevendo... preciso de um tempo pra digerir... a atrocidade com que escreves e com que os narradores vomitam as palavras... as imagens, eu fico encantado por me perder nesses vales... Afinal, todas as suas palavras têm uma absoluta e absurda onipotência q acho fantástica!!! [desculpa ter babado tanto...hehe]
Mas a poética de tuas narrativas me seduz e encaminham pra um labirinto quase sem saída... pensando bem eu nem sei se entendi e não precisa explicar pq o Massa é se perder mesmo!

Bjão e abraço! ;*

Fanzine Episódio Cultural disse...

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