terça-feira, 26 de maio de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 36

A chuva chega e traz um cheiro forte de terra, mágoa e receio. Paro o meu destino, sinto as rodas e engrenagens enferrujadas do meu corpo. Não posso simplesmente fingir que os pingos não existem e não me incomodam. Eles doem como mordidas de loucos raivosos em minha carne, me perseguem feito cães sarnentos e famintos e aumentam minha fome nunca saciada. Agora Lúcio está lá, flagrando os momentos, na sua inércia idiota de sempre. Carrego Ele dentro de mim e ele pesa míseros 200 quilos. Ele vive na sua belle époque. O ciúme perfura minhas tripas, invade minhas veias. São agulhas quentes de sangue e insulina. Calvários, enterros e missas de sentimentos vivos. A maioria das coisas é enterrada viva, posso ver as unhas agredindo o caixão e perfurando os ossos. Calcificações. Não existem dias ou noites para os enfermos, a vida se perde na atemporalidade, se esvai nos intervalos das insignificâncias. Presto atenção na ausência de cor dos rejuntes. Posso sentir, mas não posso ver o tamanho das dentadas.

12 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Oi, Márcia!

É muito difícil fazer um comentário para um texto contemporâneo, escrito por uma contemporânea tão louca quanto eu. Vou me reservar ao silêncio de quem gostou. Vou me reservar ao silêncio de meus cotovelos...

(Já escrevi em outros momentos, seria me repetir repetir repetir repetir, digo, repetir).

Felicidades.

- Henrique Pimenta

Adriana Godoy disse...

Faço minhas as palavras do Bardo. Um texto que já arrebata nas primeiras linhas e continua até o final do texto. Li e reli e gostei muito mesmo. Beijo.

Heitor Cardoso disse...

É Incrivel como sempre que te leio me percebo, e sempre que me percebo fico sem palavras. Procuro-as nessa arrevoada de sentimentos que se dispersam para dentro e para fora de mim. Procuro-as, mas mesmo sem achar, eu sei que elas estão lá, me espreitanto, desdenhando da minha lentidao.
Nossa, sentia falta de falar assim, e de pensar assim e de sentir, nao só assim, mas de qualquer outra maneira. Parece que eu passei um tempo morto, agora vejo. Eu sinto, logo existo (?).

Beijos minha alma.

Arabica disse...

Só muito depois, Marcinha, quando a carne já não arrepanha a alma, através dos dentes.


Abraço com o carinho de sempre.

Luciano Fraga disse...

Estamos mesmo cercados por cães sarnentos e invisíveis, trancados em armários entre grades, sendo enterrados vivos, atormentados pelo medo, invadidos por um terror velado.Seu texto é indescritível, por mais que tente.Maravilha amiga,grande abraço.

Luciano disse...

Bah, muito, muito forte isso que tu escreves. Como é bom passar por aqui e te ler.
Bjs amiga blogueira.

f@ disse...

Márcia.......
já volto....

Sublime...

imenso beijinho

Braga e Poesia disse...

tudo que vem sempre exala um cheiro de magoas e receio pra quem já viveu o bastante pra entender a dialetica da vida e perceber que ela sempre é renovada em sua entediosa realidade.
um texto que renova nossas conversas com os ratos e ilumina nossas idas aos esgotos.
a marca da marcia. a marca da qualidade.

Fabrício Fortes disse...

gostei muito do seu blog.. há aqui alguma coisa de violento e delicado.. virei aqui mais vezes.
abç

Assis de Mello disse...

Oi Márcia,
Seus textos- todos- foram tocados pela pedra filosofal.
"Presto atenção na ausência de cor dos rejuntes"- essa frase foi colocada no momento exato do texto, e causou grande impacto quando a li; ela chegou como uma divisora de águas. Você é uma escritora pronta, madura e hábil. Te ler é deixar o queixo cair. Ficamos todos maravilhados.
Estaremos no Simpoesia.
Um beijooo,
Chico

Vanessa disse...

Este é um comentário-convite :-). Quer participar da Leitura Coletiva em julho no Fio de Ariadne? Veja como no post: Leitura Coletiva

Bom fim de semana

f@ disse...

Olá Márcia...

disse já volto mas demorei tanto que fiquei distante ...não esqueci a beleza do teu texto nem o conteúdo deste mosaico...

imenso beijinho