terça-feira, 9 de junho de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 37


Persigo a fúria amarela dos escorpiões. As ferroadas adormecem meus tendões e meus rancores. Vozes silenciosas e gramofones me distraem. As argolas alongam meu pescoço e não posso ver a gangrena dos meus próprios pés. Lúcio ri da minha paralisia. O presente congelado e soberano. A vida deixada para depois. Tantas histórias se passaram e não mudaram o curso tortuoso das minhas vértebras. Escolioses e lordoses me pouparam de carregar o mundo nas costas. Corpos sãos apodrecendo na lama dos leitos. Nossa cama vasculhando nossos segredos mais imundos. Eu sorvendo água turva de sua boca. Frutas verdes amarrando minha língua. Castigos imprevisíveis para meus crimes brancos. Armas brancas, mãos negras e culpadas. Não perco a mania de inverter os jogos, virar tabuleiros e te amaldiçoar pelas minhas faltas. Apalpo teu corpo, procuro as feridas, remexo suas vísceras como um São Tomé insano. Não vejo verdade nenhuma, sinto apenas um sangue coagulado e morto. Descalcifico seus ossos, você resistiu às piores quedas, continua em pé, à espreita. Eu continuo pisando nos mesmos ovos, triturando as mesmas pedras, chutando mistérios ao amanhecer. Você dorme em posição fetal, sem se importar com o destino da tempestade. Barcos de papel afundam no nosso riso. Desvie, meus olhos são parados, frios e fatais como abismos.

18 comentários:

JC disse...

Como sepre adoro os teus textos. Escritos com uma intensidade própria, de alguém com uma força interior muito grande.
Beijinhos

Luciano Fraga disse...

"não vejo verdade nenhuma..." Se é que ainda existem verdades ou meias verdades, talvez culpas e mentes desocupadas, nunca culpados.Certo é que as mesmas(verdades), estão descalcificadas, incineradas,enlameadas pela falta de tudo e de vergonha.Um mosaico de aflições e questionamentos, são os nossos dias, abração.

Adriana Godoy disse...

Márcia, que porretada !! A gente vai ao fundo, toma fôlego e volta. E se enebria com tantas imagens e sentidos. Muito bom, bom mesmo, de revirar os olhos e sentir aquela dorzinha no estômago. Beijo.

Braga e Poesia disse...

"Eu continuo pisando nos mesmos ovos, triturando as mesmas pedras, chutando mistérios ao amanhecer. Você dorme em posição fetal, sem se importar com o destino da tempestade. Barcos de papel afundam no nosso riso. Desvie, meus olhos são parados, frios e fatais como abismos""


Essas palavras finais da personagen narradora que na primeira pessoa entoa seu canto deseperado, revela como ela desmistifica sua propria dor, na dor do outro e acima de tudo revela como a sua visão de mundo é reduzida pela propria vida do outro. o outro é sua propria dor e sempre é visto dessa forma. a infelicidade ou felicidade do outro é o seu proprio inferno.
Um texto intrigante e surpreendente.
e com a marca MARCIA

rakyatindonesia disse...

hola .. Soy de Indonesia ... lo siento, si mi español es el idioma bad.I READI su artículo, es bueno. Y me gusta tu blog y quiero ser tus amigos, y espero que visite mi blog y dejar tu comentario. si las dificultades en el lenguaje se puede usar google traductor para traducir mi entrada. gracias a los amigos.

indo-online disse...

hola, tu artículo es genial. i como este y espero que quieras visitar mi blog.

Infinito Particular disse...

sem palavras...


tu és maravilhosa.

parabéns!


um beijo querida!

Inominável Ser disse...

Inomináveis Saudações, senhora.

A intensificação desses escritos em uma esplêndia força intelectiva são formidáveis, senhora. Não li os demais, confesso, mas este capítulo 37 de vossa obra é de uma resplandecente força que atrai e traz uma relíquia bem sincera, que é o que torna alguém um escritor. Desculpe-me por falar-te assim, senhora, mas me atraiu este escrito e, portanto, estou aqui expondo o que ele n'alma disse-me.

Saudações Inomináveis, senhora.

On The Rocks disse...

márcia,

você e seus poemas afiados... impactantes...

nem sei mais o que dizer sobre a sua obra. eu sou um felizardo por ter descoberto teu blog e me alimentado dele.

só tenho a agradecer.

bj

Assis de Mello disse...

A viceralidade dos seus textos são chocantes. Nunca vi nada de coloquial ou superficial por aqui... Densidade, refinamento, contundência, introspecção profunda, sensualidade, sensação de esmagamento e domínio da escrita não faltam.
Bom demais !!!
Bjo,
Chico

f@ disse...

Olá Márcia,

… Sublime forma de dizer o que a noite esconde…
Mas não há gangrena… só o peso do corpo e dos sentimentos… coitados dos pés… entendo essa gangrena… de tanto que me doem as solas dos sapatos…
E isto resume quase tudo…
Adoro o que escreves…
sempre…

Imenso beijinho

Arabica disse...

Os corpos dos homens nas chagas do insano, a busca do fruto.

Sempre a busca do fruto.

Da polpa que salva-o gesto?

E raramente se encontra.

E caminhemos...

Abraço grande´.

PS-os acontecimentos em catadupa já se disciplinaram na ordem metódica dos dias? :))

Adriana disse...

Os teus olhos fractais...adorei o texto.

BAR DO BARDO disse...

Seus devaneios verbais sempre nos levam ao limite do silêncio.

BAR DO BARDO disse...

Seria muito bom tê-la no papel. Como seria!

Se eu fosse editor...

Devir disse...

Olá, Marcia

Atróz poema
vigília cruel
que pode o poeta
autor de alma branca
e negra lira?
Inveter o jogo
desnudar o rei
atacar de bispos
só para martirizar
Cerrar os olhos
trair sentimentos
entregar-se mudo
sofrer a fatalidade

Ufa! Mas foi um prazer

Aquele abraço

Cristiana Fonseca disse...

Olá Márcia,
em primeiro lugar deixo minhas desculpas pela ausência e agradeço sempre as tuas doces visitas.
Escrita sublime , não se tem dúvidas,vc resgata em tua escrita a beleza das complexas pronfundezas.
Beijos,
Cris

Marcos Satoru Kawanami disse...

o texto parece propositadamente áspero devido ao uso concentrado de sons das letras R, V e Z.