sábado, 22 de agosto de 2009

LSD


Corro em disparada em direção ao descaminho
Trilhos me fazem andar em linhas curvas e perigosas
Tenho vertigens, vejo imagens ocas e brancas
Eu sabia que não poderia haver amor entre um escorpião e uma cobra
Guizos presos no meu dorso
Dentes e pernas não me afligem
Atalhos e mãos não cessam minha fúria de fêmea no cio
Crinas nascem e morrem no meu sexo
Cavalos feridos são simplesmente assassinatos sem golpes cruéis de faca
Minha dor é olhar o mundo e não ver nada além de um poço
fundo e imundo - desalinho - cavo o meu próprio umbigo
Flores não nascem em mim
Esterco
A morfina não adormeceu noites nem aliviou o terror das minhas lobotomias
Do lado de fora, o sol e a lua se encaram, frente a frente,
como se não houvesse precipícios
Insulinas me invadem e me tornam menos doce.
Não sei se punge mais os meus rasgos ou meus remendos.
Queria entender o vermelho-morte de Almodóvar.
O amarelo suicida de Van Gogh
Arrancar com carinho os lírios que nascem à margem do meu corpo
O nosso amor é um labirinto repleto de portas falsas
Caranguejos roçando folhas à procura de abrigo
E eu, de cócoras no escuro, devorando com aflição meus pequenos defuntos
Fetos inocentes flutuam dispersos na minha barriga
Quente feito mármore
E eu não tenho coragem de arrancá-los com os dedos
Punhos verdes e inertes. Meu corpo delgado vomita pores-de-sóis
Arco-íris entorpecidos adormecem depois das tempestades
Tudo se foi e minha cegueira não me deixou degustar os detalhes mórbidos dessa partida
Deito na minha gaiola de aço e espero o pássaro negro e cego devorar o resto dos meus olhos. Esbranquiçado.

18 comentários:

Adriana Godoy disse...

Márcia, um texto desse é mais que uma viagem de LSD, é um encontro com o inconsciente, com o onírico, visto de uma maneira crua, amarga e coberto de cores e dor. Isso é Van Gogh, é Almodóvar, são sentimentos às avessas que vc trata poeticamente, cruamente e belamente. Amei. Beijo.

BAR DO BARDO disse...

Poema para viajar...

Belo, belíssimo!

Dá vontade de retirar ele do colo de Deus e criá-o como nosso, de sangue...

Luciano Fraga disse...

Márcia, que viagem fabulosa na cauda de um grande cometa, cometa poesia sempre para nos acalentar, imagens duras e cruéis, mas reais e transtornadoras,"a insulina tornou o meu sangue menos doce", fantástico, beijo terno amiga.
PS. vou pegar o sêlo, estive ausente estse dias, muito obrigado pela indicação.

Arabica disse...

Marcinha,

o pássaro nunca devorará.
Será deles subdito e deles levará o mundo que neles reside.
O pássaro será o novo olhar.
à noite deitar-se~`a num girassol adormecido e rodopiará com a lua.
E os olhos rirão, rirão, alucinados...

Gostei de te ler e de "elessedar" contigo :))

Beijos meus

Adriana Karnal disse...

Nssa,Márica...há ferocidade no poema...ipressionante

Adriana Karnal disse...

tantos erros no post,ah, era efeito do impressionismo,rs

Thiago Cerqueira disse...

Oi Márcia,

Em seus textos não consegui obter palavras para expressar o que me fez sentir, só sei que gostei da sensação, e irei visitá-los mais vezes. .

Thiago Cerqueira disse...

Obrigado, apareça mesmo! Irei te adicionar depois com mais calma para minha lista de blogs,

abraço...

Carlos Cavalcanti disse...

Seus textos me lembram muito as letras oníricas do Underworld (a banda, não o filme).

; )

Luciano Pfeifer disse...

Passar por aqui é certeza de uma ótima viagem, sempre. Só posso agradecer pelas palavras tão bem dispostas, da força poética nelas contidas e pelas imagens que me são trazidas ao lê-las
Bjão e abraço de arte menina.

Braga e Poesia disse...

Corro em disparada em direção ao descaminho
Trilhos me fazem andar em linhas curvas e perigosas
Tenho vertigens, vejo imagens ocas e brancas
Eu sabia que não poderia haver amor entre um escorpião e uma cobra
Guizos presos no meu dorso
Dentes e pernas não me afligem



assim tambem eu me sinto.
Marcia aadmiravel texto, ele canta encanta e mais ainda ele desencanta. maravila.


obs
me desculpe a ausencia são tantas coisas que não vale a pena falar.
mau eu sempre que posso olho o blog leio e nem sempre posso comentar

Anônimo disse...

Escritura poderosa;- raro desejo de reler : bom ter você como colega de Literatura: essa nossa praia onde rebentam ondas de pungente sedimentação de significados....abraço,
FLAVIO VIEGAS AMOREIRA

priscilapimentel disse...

Olá Márcia
Estou precisando falar com você. Por favor, me envie o seu endereço de e-mail.
meu e-mail: priscilapimentel112hotmail.com
Um abraço

priscilapimentel disse...

Olá Márcia
Estou precisando falar com você. Por favor, me envie o seu endereço de e-mail.
meu e-mail: priscilapimentel11@hotmail.com
Um abraço

ismael silva disse...

quando eu for bom, eu irei escrever assim... muito bom.
sucesso.

disse...

Não existe pássaro negro nem cego... a penas o céu e a viagem de te ler...

ronaldo braga disse...

marcia eu ainda estou tonto pela porrada do texto, lembra alguma coisa de mim. me deixou bebado. LSD.


"Deito na minha gaiola de aço e espero o pássaro negro e cego devorar o resto dos meus olhos. Esbranquiçado."

ARRANCAR LIRIOS. CORPO.
um texto imagens-cinema-vida-angustia-verdade.
Um texto sem a vergonha de ser ser humano, antes um texto que escancara como um mafioso que grita
-eu sou da máfia.
o texto grita
-eu sou um ser humano cruel. Um abandonado e que abandona, eu sou um paradoxo.
marcia esse texto é a afirmação do paradoxo e não da dialetica. e eu adoro isso. bjos.

Lisa Alves disse...

Como já disse um viajante uma vez: LSD:Louvado Seja Deus! Cada detalhe profundo de consciencias e sentidos em tua poética são sinestesias almodovarianas. :)