terça-feira, 15 de setembro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 39


Passo minhas mãos no seu corpo e me retrato, despenco em mim. Afundo no meu particular mito da caverna – cegueiras. O ciúme é inútil como águas-vivas sem vítimas. Meus olhos castanhos-negros-esbranquiçados perdidos na lama fétida dos manguezais. Meus olhos pretos-abismos devorados pelos caranguejos amarelos e famintos. Sorvendo vida entre os buracos das minhas falsas costelas - Ainda sobrevivo - Sugando o sangue, lambendo a flor exposta das feridas do meu último coma. Adão e o Inferno pouco generoso de Dante. Levanto e me derramo em prantos, a solidão me acompanha e afia seu cajado, já não estou sozinha entre os homens vermelhos canibais. Sacudo meu corpo e dele caem pequenas estrelas verdes sem esperança. Pedras furta-cores. Os filhos de Afrodite só chegam ao amanhecer. Tantos espelhos partidos e não sou capaz de inverter imagens. Todas as minhas ilusões de ótica foram arrastadas pela força vulgar do ralo. Não peça coerência, os loucos são devidamente alegres e atravessam muros multicolores, enquanto exterminam pássaros com suas espingardas de festim.

14 comentários:

Devir disse...

Meu Deus, tão humilhado, não sei
a piora parece tão saudável
quanto estações do ano
faltando o triste inverno
acho que alucino por prazer ou
na dádiva esperança da Arte
Amor e tudo mais que vier...

Se existir restos ainda
que sejam somente Eu
que me deixo passar
sem voce na eternidade

Um beijo bem mais dentro
que própriamente dentro
do seu corpo em convulsões
destas palavras tão duras
quanto um orgasmo roubado

Marcos Satoru Kawanami disse...

o texto e a ilustração parecem melancólicos, mas elegantes.

Adriana Godoy disse...

Nossa!! Que intenso, que denso, que cacetada! Aliás, bela cacetada! Amei. beijo.

Adriana Karnal disse...

Você sabe das coisas...

Devir disse...

Assim como fogos na passagem do ano
ganham em beleza às imagens
recentes virtuais do Iraque
Tudo é como se fossem reais
como se fossem festas 'dos outros'
Tudo à distância
geográfica ou pelo olhar
somente ao monitor
se faz hilariante
para não dizer
aberrações românticas
Ao amanhecer
saberemos ao sol
que só se fará presente
porque aquela estrela
única naquele escuro 'total'
conteve pelo menos
um sentimento pleno
de ternura

um beijo
a despeito de tantos desejos
de vidas
que não valem
um conto

Luciano Fraga disse...

Márcia,uma viagem e uma morte na lama dos mangues, os horrores devorados diante dos próprios olhos e uma outra morte, a da liberdade de um passáro com uma bala de festim, bela metáfora,grato pela atenção amiga, abraço forte.

On The Rocks disse...

os loucos são corajosos. alguém disse:

deus presenteia com a loucura os seus escolhidos.

bj

Devir disse...

O que é isso, companheiro(a)?
Um batismo de sangue?
"Nada, esquece."
Valeu, muito embora.

BAR DO BARDO disse...

Texto bem construído e emoldurado em ouro literário...

Gosto de seus textos.

Diego Pinheiro: disse...

Gostei muito do texto...
Todo texto é evocador por natureza, mas poucos evocam tão bem, e este é um exemplo belo.
Parabéns, Márcia.

Abraços

f@ disse...

Olá Márcia,

Sempre impressionante e B E L O... sempre a sent ir aqui cada palavra
cintilante como as estrelas verdes de seu texto...

!menso beijinho

Luciano Pfeifer disse...

Quantas imagens. Uma mais forte que a outra.
Vir aqui e te ler é ter a certeza de um momento literariamente especial :)
Bj em ti, Ma.

disse...

A boca seca do sonho encadeado em imagens tão fortes quanto a noite...
magia essa forma genial de escrever...

Parabéns pelos textos notáveis...
muito bom
beijo

Braga e Poesia disse...

"Sugando o sangue, lambendo a flor exposta das feridas do meu último coma."
eu adoro como vc junta as palavras,
muito bom e muito dolorido. a alma em estado dilacerante sorri dores em partos lunaticos.