sábado, 13 de setembro de 2008

Cordão

Na estante ficavam à mostra várias fotos, o malabarista, a bailarina, o soldado de chumbo, o picadeiro, o palhaço que nunca me fez rir e a corda que nunca teve coragem de envolver meu pescoço.

Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome

Facas de dois gumes penduradas nas paredes denunciavam tua ânsia suicida. Não fora homem suficiente para enforcar seus últimos pesadelos. Covarde! Nem tivestes peito de fazer jorrar teu ódio ralo desses pulsos finos, brancos e esquálidos... Os suicidas farejam lentos no lado negro e infinito do tabuleiro. Uma travessia longa e bestial. Ela gargalhando feita esquizofrênica: “Um homem de 1,70 quase não é homem”.
Venha a nós o vosso reino seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

Não gostava de olhar para sua cintura, eu via cobras saltarem do seu umbigo numa acrobacia louca, perigosa e incompreensível.

O pão nosso nos daí hoje.

Anões povoavam seus sonhos mais pervertidos. Metade da vida já atrofiada no nascimento, por pouco fórceps não deformam seus pescoços. Causavam-te pena e soberba aqueles pedaços de gente que traziam transfigurados na face a morte vindoura.

Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido...

Brinquedos quebrados enfeitavam seu quarto. Você gostava de rir da desgraça alheia. Era teu patético divertimento, saber que algo no mundo sangrava com uma dor mais pungente do que as tuas chagas secas de ressentimento. Um Deus sádico regia teu universo.
O jardim estava sempre coberto de rosas brancas. A cor excessiva das flores te incomodava, parecia uma afronta. Lembrava do suicídio que nunca teve força pra cometer, gostava de acreditar na palidez de tudo. O sangue corre tímido e anêmico nas tuas poucas veias.
A água da privada girando, girando... Um velho disco riscado vomitando aquele mesmo trecho “... batidas na porta da frente é o vento... eu bebo pra ter argumento... ele zomba do quanto eu chorei...”. Despejo o resto da bílis no vaso. O espelho alonga minha cara. O barbeador na pia me entristece, há anos não sou mais menino, mas ainda posso ver nitidamente o talho que fiz no meu rosto com cinco anos me barbeando pela primeira vez, ainda escuto os gritos desesperados da minha mãe e meu pai dizendo: “eu também já fiz isso mulher!” Esse espelho me envelhece.
Na cama você era gigante de cem braços. Sempre me esmagando, me fazendo pequeno e sarcástica repetia!: “Um homem de 1,70 quase não é homem”. Todos os meus membros tentavam percorrer seu corpo, numa luta insana e inútil, pequenas lâminas rubras brotavam da sua pele dilacerando meus dedos, uma guerra de perdedores. O sangue escorria incolor entre seus seios, mas isso não te saciava. Cartas de baralho em cima da cama, você jamais se cansava de jogar. Nunca descobri se eu era o Coringa ou um simples palhaço que te fazia gargalhar feito uma insana.
Deu olhar tinha o encanto de fogos de artifício e como eles não bastavam dois minutos e eu já podia sentir sobre os lençóis o peso de pólvora, chumbo e enxofre. Essa nuvem de fumaça nunca mais me deixou respirar em paz. O gosto de fósforo e desodorante barato continua nas frestas grandes dos meus dentes, seja talvez, a causa de todas as cáries de minha boca.
Garrafas de todas as cores estão dispostas na prateleira. Azul, roxo, rosa, amarelo, verde, vermelho. Um copo de cherry. Todo teu sangue me escorrendo goela abaixo. Um porre o teu rosto se duplica na minha cabeça. Os carros passam rápido como flashs, lembranças de uma peça que nunca assisti. As pessoas me encaram como se eu tivesse cometido um assassinato. Vejo miolos espalhados pelo bar. Não se olha um homem com as esquinas dos olhos, nem se fixa em sua retina cega por mais de um minuto. Posso vê-la jogando convulsivamente a cabeça para trás, posso escutar ela gargalhando: “Um homem de 1,70 quase não é homem”.
Ao seu lado eu era sério, não ria e só me permitia pensar de olhos fechados, como quando criança sonhando ver o sol do Chile nascendo entre os montes, seus seios imensos na concha ridícula da minha mão, qualquer descuido e... Você seria capaz de roubar todos os meus segredos. “Um homem de 1,70 quase não é homem”. A sombra da cruz na porta invadia o quarto. Você se incomodava, eu me ausentava, sabia da sua saudade da época em que trabalhava com um grupo de mambembes, percorrendo o mundo, cada dia vestia com um fantasia diferente. Encenando vidas interessantes, adiando essa insipidez hoje estampada na tua pele, esse câncer lento que corrói tua alma. E agora? A que se reduzira? A uma boneca de porcelana barata trancada sempre no mesmo quarto implorando a Deus um gozo rápido e indolor, vendo infinitamente o sol nascendo no mar e se pondo na esquina sem movimento da nossa casa. Era só o que eu podia te oferecer, miligramas do meu esperma. Levantava nua e colocava a cruz embaixo da cama. Achava tudo aquilo profano, mas me calava “... perdoai as nossas ofensas. Amém”. No criado-mudo um cinzeiro e um vaso com flores: “Mares de lírios, essas suas mãos lívidas e mortas tecendo ausências”.
Ultimamente minha pele cobria-se de uma penugem loira, que me tornava ainda menos atraente para seus olhos de tigresa no cio. Choros de criança e barulho de chocalhos estouravam meus tímpanos.
Os garçons, as garrafas... no fundo todos nós um dia sentimos vontade de fugir com o Circo ao lado do Homem-bala. Agora somos apenas tolos espectadores esperando o Circo passar só mais uma vez na cidade de terra e descobrir como o mágico tirava tantos coelhos da cartola. Os líquidos derramam-se sobre os corpos. Coágulos nojentos despencam da sua boca. Vinte e cinco anos e rebola feito uma vaca de dezoito. Rebola como se ainda estivesse num bordel cheio de vedetes. E agora? Como posso acreditar que um porre irá me salvar de tudo isso? Buracos se abrem ao redor do meu banco. Rodas gigantes, carrosséis, cavalinhos de pau. Sonho todas as noites com você, mas não consigo enxergar seu rosto. Cadela, sempre com tinta na cara sardenta.
Sonho todas as noites com o sol do Chile nascendo na concha ridícula das minhas mãos. Minha língua cortante percorrendo cada centímetro das suas costas.
O homem empilha as cadeiras vermelhas do bar maquinalmente, é o tipo que trepa com a esposa em cinco minutos e apesar da infelicidade não tem paciência para uma amante. As pessoas desaparecem sem deixar vestígios. Apenas alguns filtros amarelados de cigarro barato e restos de cerveja derramados no chão. Quarenta anos e o meu quadril gira no compasso daquela vadia. Chocalhos coloridos invadem as órbitas tortas dos meus olhos.
Um anjo negro de asas púrpuras rompe do seu ventre, deixando um abismo no lugar. Você se ajoelha e se contorce fingindo arrependimento: “...bendito é o fruto do vosso ventre Jesus...”
Só lamento por ela não sentir as dores do parto.
Respiro aliviado, aquela vadia não saberia ser mãe. Cuspo uma saliva amarga, acendo o último cigarro do maço. “...perdoai as nossas ofensas. Amém”.

25 comentários:

Antunes Ferreira disse...

Olá!
Há um novo concurso no Travessa do Ferreira – www.travessadoferreira.blogspot.com . Até às 24:00 de quarta-feira, 17.
Com prémios, como habitualmente. Concorre! Ainda vais a tempo!!! Espero nova visita.

JC disse...

Ach um texto muito forte, que nem todos gostam, mas pessoalmente gosto. Um texto à semelhança daqueles que habitualmente escreve.
Beijinhos

f@ disse...

Mares delirios mas sem lamentos...
Conto assim na terra a orar o incompreensivel das acrobacias da vida....
beijinhos das nuvens

biazinha disse...

Está espetacular!
A oração automata a demarcar a crueldade da vida.
Não havia reparado que havias feito etiqueta para o teu romance. Falha minha...
Essa semana venho ler mais dele...é melhor ler pelo teu blogue, pois no outro entra muito post.
Beijos.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Por motivos horríveis que não pude contornar, fui obrigada a fazer um post cala-boca. Pegue suas flores, não é preciso ler tudo.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
DEsculpe, amiga, não comentar o seu texto, mas os meus olhos estão cheios de lágrimas

Danilo Aman disse...

Parabéns pelo trabalho!

Prazer em conhecê-la.

Luciano Fraga disse...

Márcia,um filme, reflexos de espelhos, um prisma refletindo facetas enigmáticas?Imagens e imagens sobrepostas por uma oração que busca tanto encobrir nosso lado amargo quanto pedir um alívio para nossas amarguras. Pesado,cruel e fascinante, parabéns pela escrita. Beijo.

Alice disse...

Seus textos sempre são fortes. Fui lendo e lembrando que todos pensamos coisas quando rezamos. É o filho, a obrigação, a vida que temos que levar adiante. E já ouvi tanta gente dizendo que fugiria com o circo e ninguém nunca foge.
Bjs...
E leio sempre.

João da Silva disse...

Adorei essa mistura de "fas" e "nec-fas". O profano e o sagrado, a morte e a vida, essas antíteses da psiqué que nos deixam atônitos, você as descreveu maravilhosamente.
Viajei no seu devaneio.
Beijos, linda!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Marcia:
Queria saber por que vc e o Pianista Boxeador não vai mais ao meu Blog. Depois que lhes disse que queriam pôr-me para fora daqui, vcs não foram mais. Por favor, minha amiga, vá. Preciso do seu apoio. Fiz um post ajudada por muita gente, porque estou adoentada, mas preciso que as pessoas o apreciem. Não precisa ler tudo, aliás não precisa ler nada. Pegue o seu buquê de flores e deixe um comentário. Assim saberei que tenho o seu apoio. Sempre passo por aqui e dou uma lida nos seus textos e os julgo ótimos. Arrume uma editora, está perdendo tempo aqui. Se bem que num Blog a gente se exercista. Conto com vocês dois.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

João da Silva disse...

Linda, deixei um selinho para você lá no "As Rosas". Se quiser, é só passar lá e pegar. Ele vem carregado de beijinhos meus.
João

marcio mc disse...

Márcia a cada palavra lida eu me envolvia mais.Um conto de expressões fortíssimas,extremamente maravilhoso...

Blood Tears disse...

uau.... depois de tal profusão de palavras, de ver as imagens a passar-me pela mente, não há coentário que dignifique este texto...

MARAVILHOSO!

Blood Kisses

r_ogeri_o disse...

uauu sem duvida um texto iluminado;) lirica poética e sentimento a alimentar musas da realidade.

Klatuu o embuçado disse...

O mundo não é raso, e tanto a literatura como a filosofia, a religião e a política nunca o abarcarão inteiramente - mas Aristóteles deixou-nos uma bela advertência: «o ser é múltiplo».

Ingrid Guerra disse...

Desculpe a pergunta, assim, tão direta e intrometida, mas, ‘cê guarda muitas mágoas, Marcia? Explico! É que seus textos são sempre tão forte e repletos de frases que se repetem à exaustão, como que matando aos poucos as personagens, que ao sofrerem também causam dores aos outros, com suas frustrações e reflexões ácidas, que fiquei pensando: será uma forma de exorcizar todos os demônios que lhe perturbam ou apenas a experiência de uma “realidade” totalmente distinta a sua? Afinal, você me parece tão meiga, não sei. Espero não ter lhe chateado com meu questionamento. Bom, fico por aqui... porém, não saio sem antes dizer que a canção da Nana Caymmi me trouxe a lembrança (meio tola, mas querida) de uma época em que assistia Hilda Furacão.
Super abs. procê, moça.

Ricardo Soares disse...

bonita construçao...intercalando a oração com a situaçao... beijáo...

Xavier disse...

aqui eu dou um aleluia, senhor!
e digo que é verbo bem feito, Márcia.

estou sem tempo para ler com mais afinco, Márcia.

mas venho e digo que passei aqui.
um carinho.

Marcia Barbieri disse...

PARA A QUERIDA INGRID,

sua pergunta é engraçada, pq. houve uma época em que me perguntei se era uma homicida em potencial ou uma suicida,afinal,todos os meus personagens acabavam mortos,pelas próprias mãos ou pelas mãos alheias. Quem me conhece sabe que não guardo mágoas,embora qdo me magoam sempre arrancam um pedaço bonito de mim,talvez esses pedaços se juntem e se transformam em literatura. Talvez eu exorcize meus mortos,mas acho que eu os pinto muito piores do que são realmente.
E adoro Nana,fico feliz por trazer recordações e obrigada pela leitura sempre atenta.

Beijos ternos pra você

Luciano Fraga disse...

Querida Ingrid, atento ao seu pertinente comentário e à resposta de Márcia, vou intrometer uma pequena opinião, com sua licença é claro, como dizia F.Pessoa, " o poeta é um fingidor..." abraço.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Querida:
São 3 horas da manhã. Mas como as coisas se acalmaram, fiz um post sobre um filme que todo mundo no mundo já viu e sempre vê de novo. Tirei aquele monte de flores e só deixei as do João. Esta postagem dá para ser bem apreciada.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Ingrid Guerra disse...

Nossa, eu poderia jurar que tinha deixado um comentário de agradecimento pela sua gentil resposta, Marcia. Infelizmente devo ter clicado em algo errado. Bom, mas volto aqui para agradecer-lhe, então: 'BRIGADÃO. Aliás, super apropriada a lembrança de seu leitor, Luciano, que complemento "Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente". Ou seja, sempre há um pouco de nós no que escrevemos, o que justifica a pergunta,né? (risos)
Bom, fico por aqui, aguardando novas estórias. Super abração.

Luciano Fraga disse...

Querida Ingrid, adorei a resposta/réplica, sabe de uma: você tá certíssima. A poesia tira lascas de nós...Felicidades, abraço.

Ricardo Jung disse...

Mate a dor com outra dor mais forte... o desconhecido é sempre a última opção, a melhor, na tola opinião do coração do esperançoso .... pouco dinheiro talvez também torne uma amante inviável

Mas é tudo vaidade... como misturar um gene de cada obra achando que assim será perfeito

Guru Martins disse...

....que
intensidade...

bj