segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 13


Acordo. Tenho saudade das minhas antigas crenças, dos meus antigos sonhos, dos meus pesadelos e dos rancores escondidos nas minhas impressões digitais. A santa Luzia, o escapulário que me protegia da forca. Levanto e bebo um copo da água. Sinto uma fisgada no dedo. Estou farta de atravessar muros dentro de minha própria casa. Fissuras abrem a sola do meu sapato. A morte sempre começa nos pés. Eu sei que sairei e metade da casa irá junto comigo, me entortando as costelas. Um caracol velho e sem asas. Tudo bem, acho que posso carregar minhas cruzes. Às vezes, até solto uma risada sarcástica, afinal, no meu dedo sinto apenas leves agulhadas, enquanto na mão hemorrágica de Cristo, as chagas se multiplicam e escorrem feito um rio caudaloso e sem curso. As padarias se enchem de bêbados infelizes,que adiam o fatídico momento de olharem para as caras enrugadas e indiferentes de suas esposas.Os filhos estão em algum beco, cheirando e olhando pra coxa de alguma puta desavisada. A cerveja espuma um lirismo que eles jamais conhecerão. Histórias da humanidade escorregam e se repetem em suas línguas. Nesse tempo suas mulheres se masturbam na cama, imaginando a boca molhada e ágil de outro homem. O gozo as acalma. Já não esperam. Apenas comem em silêncio. A morte avança em progressão geométrica. Um antigo lago verde e calmo nasce na indecência do meu corpo, pequenos acrobatas giram sobre a linha da vida.

12 comentários:

f@ disse...

Acrobacia das tuas palavras e o circo da vida...
Brilho e estilhaços neste texto... gostei mto...

Beijnhos da nuvens

Germano Xavier disse...

Vento balouçando as anáguas das palavras. sucessão de interlúdios. e ainda quero descobrir se a morte começa mesmo nos pés, Márcia.

Um carinho.
Continuemos...

JC disse...

Texto que descreve bem as agruras da vida. Quanto à morte não sei por onde começa. O que se é que muitas vezes há pessoas vivas, que mais parecem mortas.
Não é fácil a vida. Não é fácil viver. Cada vez há mais vicicitudes que nos levam muitas vezes a situações de desespero.
Beijinhos

Germano Xavier disse...

"Apenas comem em silêncio."

Ah, "as pessoas na sala de jantar"...

Continuemos, Márcia...
Um carinho.

Guru Martins disse...

...certa vez li
em algum lugar,
não sei onde e quando,
que os poetas se utilizam
das letras pra formar
palávras que os ajudem
a se livrarem das emoções
com estética literária,
digamos em grande estilo.
Não concordei de todo
com aquilo, mas também
não esqueci...
e lendo seus textos
sinto que isso acontece
plenamente contigo.
Voce está em constante
kátharsis avec elegance...

bj. O Balaio te acolhe

Ingrid Guerra disse...

Tô em dívida com você, Marcia querdida. Desculpe. As palavras andam me faltando e, às vezes, acho que deveria expressar mais do que apenas um "gostei", então, me calo. Mas, prometo voltar, em breve, com comentários mais especificos. ok? Espero que não fique chateada. Grande abraço.
P.S: muito triste a história de sua máquina de lavar roupas. Nem elas escapam mais da ação de ladrões!? A coisa tá feia, mesmo.

discursosimperfeitos disse...

Gostei também eu muito. Saudades dos seus próprios medos... Nunca me tinha ocorrido, talvez apenas daqueles que me lembram de uma ingenuidade passada. Incrível como passámos tanto tempo a desejarmos abandonar a nossa infância, e tanto mais a ressentirmo-nos dessa partida sem regresso. Enfim... Só para dizer que gostei muito.

Germano Xavier disse...

"Fissuras", gosto dessa palavra...

E deixei resposta no clube, Márcia.
Continuemos...

Bill Stein Husenbar disse...

Líndissimo.

Gostei.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

Blood Tears disse...

Explosões culminam em vórtice, antes do definitivo não sentir. Sim, porque muitas das vezes o corpo respira e alimenta-se, mas já não sente.

Magnífico texto

Blood Kisses

João da Silva disse...

Minha ausência reiterada do mundo virtual tem-me imposto privações inconcebíveis. Uma de tais privações, o deixar de ler suas linhas, querida.
Sabe que também sinto saudade das minhas antigas crenças, dos meus antigos sonhos, dos meus pesadelos e dos rancores? Só não os havia conseguido imaginar escondidos nas minhas impressões digitais. Atravessar muros dentro de minha própria casa é das imagens mais fortes que vejo nos últimos meses. Pensei nos muros que tenho de atravessar dentro em mim mesmo, pensei no "vel" de Lacan (Seminário, Livro 11). Carregar as cruzes, feito um Simão, de Cirene... e ele carregou só uma. Essa mão hemorrágica de Cristo... que às vezes chego a pensar vem banhar-nos de sangue. Não sei por quê, mas puta desavisada senti-me eu, diante da vida. Adorei a imagem contida nas histórias da humanidade que escorregam e se repetem em suas línguas.
Parei, estarrecido, no meu ponto fraco: "suas mulheres se masturbam na cama, imaginando a boca molhada e ágil de outro homem."
Você me faz voar, e vôo feliz, para onde você quiser e determinar.
Beijos carinhosos do João

Anônimo disse...

Extremamente poético,parabéns.