sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 14

Fios elétricos se enroscam em meus sonhos. Pombas e corvos. No varal roupas brancas, pretas e alguns negativos queimados. Fico imaginando as pernas daquelas vadias. As bocas em desalinho. A câmera invertendo as imagens. Ele gritando: “O pior cego é aquele que não pode ver!”. Um tapa no meio assimétrico da minha cara. Às vezes, ele faz isso, mira no meio do rosto e enfia as duas mãos inteiras, ácidas na minha cara. Um abismo vermelho entre eu e ele. Ele dá gargalhadas quando percebe que meu riso se fecha. E eu tantas vezes perdida na inconveniência de suas mãos. Deixo-o falando sozinho. Ciclopes correm atrás de mim, me cercam, me mostram cordas fortes e longas: “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.”. Ando sem rumo, nas ruas as pessoas velam seus defuntos, algumas levam seus mortos nas costas. Tropeço em caixões. Os meus fantasmas são tão palpáveis, tão concretos, tão reais! Eles acabam riscando o brilho fosco dos meus sapatos. Algumas pessoas encostam-se a mim, pedem desculpas constrangidas. Que se fodam elas e seus constrangimentos. Por que não engolem suas desculpas? Seria mais fácil eu disfarçar minha cara de nojo e tédio. As buzinas me lembram aquela velha louca que não para de gritar, parece um rádio fora de estação. Um rio verde e calmo explode dentro de sua boca. Pequenos caranguejos devoram meu presente já morto.

16 comentários:

Germano Xavier disse...

Prisma de se não arrefecer certidões. O homem que já nasce morto é o melhor porque não vai sofre. Há quem mate e quem humilhe. Como nada há no mundo também. Catafalco segurando uma escada de imagens é o texto. E a imagem diz muito.

Um carinho, Márcia.
Continuemos...

João da Silva disse...

Marcia, seus textos são deliciosos, pois você brinca com as hipálages de uma forma que pouquíssimas vezes eu vi nos meus longos 38 anos.
Vi seus corvos e, naturalmente, fui arremessado a E.A. Poe; depois o abismo, e então lembrei-me do episódio bíblico de Lázaro e o "homem rico". Sangue e penas de Dante. Maria da Penha, na violência contra a mulher... mas será real esse golpe, ou metáfora, ou emoção, ou incompreensão? Não sei. E prefiro não saber. Prefiro girar o caleidoscópio das suas visões. Prefiro apanhar junto e, de maneira masoquista mesmo, sofrer também. E que cada tapa seja uma nova descoberta. E que cada vinda minha aqui seja este orgasmo intelectual incontrolável.
Você é maravilhosa.
Beijos carinhosos do João

f@ disse...

Mto….bom… talento penetrante de sentir e transmitir assim… aprecio mto esse impacto de tocares assim nas feridas abertas… duma forma lancinante e serena
Espiral de estar vivo nesta “fragilidade” de fantasmas a deambular por todo o lado… respirar o mesmo “ar” insípido e suspirar o que sentimos… “seres humanos” que nos ajudam ou nos empurram …
E, trocar assim saliva e palavras envolvidas em gritos silenciosos e gestos fúteis a tactear tentativa e busca de mudança urgente…
como se fosse possível renascer…

Beijinhos das nuvens

Luciano Fraga disse...

Márcia, vamos em frente, os fantasmas perdurando, martelando, nos mantendo reféns, talvez de nós mesmos.Texto condizente com a tela acima,corrosivo...Parabéns pela escrita maravilhosa, beijo.

JC disse...

A vida não é fácil. O relacionamento entre as pessoas cada vez é mais difícil. Cada vez temos menos tempo para nos ouvir uns aos outros. Depois acabamos por nos insulta, por nos agredir e por não nos respeitar uns aos outros.
Este é o mundo que estamos a criar e ao qual temos que por freio, senão não sei mesmo onde vamos parar.
Beijinhos

Blood Tears disse...

todas as imagens vão sendo invertidas no cemitério da vida, em que tropeçamos em mortos que ainda falam e caminham.

Blood Kisses

Lord of Erewhon disse...

Sua prosa se esmera cada vez mais no lado negro dos dias...

Germano Xavier disse...

Estou aqui a lembrar do começo do teu blog, Márcia. Acho que fui um dos primeiros a visitar você. Sempre bom ver o progresso de um ato.

Esse eu li e deixo agora mais um carinho.

Continuemos...

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Marcia:
Passe no meu Blog, no Galeria e não no Resenhas Antigas, pois fiz a resenha do filme "Uma relação pornográfica", que de pornográfico não tem nada. É um filme de amor. Não há nenhuma cena de pornografia.
Um beijo,
Renata

Anônimo disse...

Sábias palavras...

Marcia Barbieri disse...

Anônimo,

se um dia voltar receba meus agradecimentos.

beijos

mariazinha disse...

Todos carregamos fantasmas, uns mais leves do que outros...
Prosa impressionante!
beijo*

Jaque Lima disse...

e os que não nascem mortos. se matam. porque não vale a pena. ou vale. mas não se completam. não se encaixam. não aceitam. não se limitam. são maiores que o mundo. ou pelo menos se sentem assim. melhores. mas não. infelizmente. são como os outros. que sofrem. por coisas quaisquer. e por isso. morrem. por morrer. morte morrida. despedida.

Beijos!

Germano Xavier disse...

Márcia,

fiquei meio perdido com o que você me falou ontem no Clube. Estou por fora do assunto.

Mas deixo outro carinho e outro continuemos...

Braga e Poesia disse...

que se fodam os "educadinhos".
marcia eu sou fã tanto da sua forma de escrever como sei que o alvo de suas escrita é o mesmo alvo meu. combater a falsidade e a educação para ser exibida e lembrada.
as pessoas estão perdewndo não o sentido da vida, mas a propria vida ta indo bueiro adentro

Guru Martins disse...

...muito boa
a agilidade
do texto...

bj