Lá fora o sol secava as poças da última chuva. As tempestades passam, a calmaria chega, tarde, mas chega, no entanto, não são capazes de apagar os buracos deixados no asfalto. Um piche negro esconde meus olhos. Desviemos. Eu sorrio ainda, naquela foto de anos atrás, ao redor dos olhos, as rugas miravam minha tristeza. Olhos parados, sem expressão, olhos de pouco ver. Eles flertavam com a morte. Ela chega devagar, furtando um dia de cada vez, como esses amores brutais de subúrbio, os quais terminam manchando o chão e as páginas dos jornais. Aos domingos ela parece chegar manca, tenho a vaga impressão que não há mortos nem ternos de domingo. Filmes mudos atravessam minha retina. Ele me fita nesses instantes, nesses segundos singulares nos quais a vida se liquifaz entre nossos dedos. Negativos suspensos por toda a casa. A morte descansando sob nossos varais. Roupas sujas. Há sempre meias sujas escondidas no fundo de algum armário, no abismo covarde de algum baú. Os carros passam e a fumaça fica. Minhas narinas estão atravancadas. Não sei se é alergia ou desespero. Ou medo de inspirar todo o lodaçal que atravessa minha rua. Formas geométricas se avolumam na minha cabeça. A menor distância entre dois pontos é a reta. Rios verdes correm avessos a minha vontade. Queria que os ratos e as flores jamais se encontrassem.
Chavela Vargas - Que Te Vaya Bonito
3 horas atrás

11 comentários:
O texto caminha triste durante todo o percurso, linearmente direcionado ao abismo. Mas, no fim, como que sorrateiramente, imagens apagadas se acendem e fazem anunciar um ir esperançoso.
Foi o que vi, numa primeira trotada.
Um carinho, Márcia.
Continuemos...
Márcia, quase fico sem palavras, sem ter o que dizer diante de uma narrativa tão envolvente, uma atmosfera crua, real e triste.A leitura desse texto nos devora e detona com um final fantástico: flores e ratos,sucesso, beijo.
"queria que os ratos e as flores jamais se encontrassem"
é difícil Márcia, mas também desejo que isto acontecesse.
bj
p.s:eu também quase fico sem palavras.
é uma pena que minhas crenças sejam tao alheias às suas. Acho que nao tenho essa habilidade de ver ou escutar as açoes Dele. (...) Ai vida.
:D
tempao sem aparecer aqui, mas pelo visto, tuas palavras continuam tendo a mesma harmonia de sempre.
Ratos e Flores,
cores e vozes,
Conversa mimada:
é so a televisao.
Beijos calorosos
A agonia enrola-se na evasão,sair a todo o custo da jaula e respirar "as flores"parece ser o centro do equilíbrio.
Magnetikiss;)
é só no encontro dos ratos com a flores que tanto ratos como flores tem o acesso ao diferente.
lindo texto, muito profundo e dando aparencias que no fundo são outras coisas, esse texto tem que ser lido mais de uma vez pra ser entendido.
Marcia, querida, se a menor distância entre dois pontos é uma reta, eu quero perder-me nas delícias de seus ziguezagues e demorar muito, muito mesmo, pelo caminho. Não quero a agilidade de pular de um ponto até outro, mas a plenitude de saltarilhar sobre suas palavras como se eu fosse um anjo pulando sobre as nuvens que você desenha no céu.
Quero curvas, quero meandros, quero ir do âmago à fímbria de seu raciocínio. Quero andar pelas estradas ora claras, ora escuras, ora asfaltadas, ora esburacadas, de seus caminhos.
Quero ir da cela à casa infecta, trilhar o código penal inteirinho, fugir ao cárcere e ser recapturado. Quero até ser a meia suja, absconsa sobre um monte de outras roupas, se isto for condição para me emaranhar no que você escreve.
Quero, sim. Posso?
Beijos carinhosos do João, que se delicia a cada vinda a este cantinho
Re.
Lendo.
Um carinho, Márcia.
Continuemos...
Olá Marcia,
Belo texto, triste, profundo e ao mesmo tempo belíssimo.Além de poético,é mesmo fascinante.
Deixo minhas desculpas pela ausência, voltarei pra ler-te.
Beijos,
Cris
Marcia Barbieri;
As suas palavras são deliciosas e a sua escolha de obras picturais perfeita.
..."Há sempre meias sujas escondidas no fundo de algum armário, no abismo covarde de algum baú"...
Muito boa
essa metáfora!
bj
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