quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 19

Nem pedras, nem carvalhos, nem submarinos de Júlio Verne. Apenas uma dor que beirava o absurdo. Trens descarrilhados nas minhas vértebras. Canções de agosto. O tempo passa em sentido anti-horário. Caminho em círculos. Espero ansiosa sua chegada. O medo é uma lesma vagando sobre azulejos. Penso nas lentes da sua máquina. Imagino posses. "Les Demoisseles D’Avignon". Agora as mulheres devem estar se oferecendo em taças de champagne, fingindo falsos interesses, grandes filosofias, que sempre se perdem na cama. Pérolas devorando ostras. Preciso dos seus olhos ou me perco nas reentrâncias dos meus abismos. “Voyage autor de ma chambre”. E você conhecendo mundos, se perdendo em Evas e verbos, acariciando outros sexos, vertendo verdades de outras entranhas. Côncavo e convexo. Nunca conheci o Paraíso. Maçãs e serpentes descansam nos retalhos. Não conheço a paz dos mortos. “O ciúme é uma faca cravejada de diamantes.” Talvez você não volte, há vários labirintos entre o Gênesis e o Apocalipse. O seu gosto ainda atormenta minha língua. Posso povoar mundos apenas das sobras de suas lembranças. Um rio verde e leitoso escorre entre minhas pernas. Olhos de peixe sempre acessos, minha eterna vigília.

12 comentários:

Luciano Fraga disse...

Prossigo acompanhando esta peleja, entre incongruências, trens descarrilados, ciúmes e a luta contra o tempo, sempre no mesmo mote;"olhos de peixe",cortante, excelência seu texto, beijo.

Ca:mila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ca:mila disse...

lindíssimo!

ps: obrigada pela visita.

abraços, marcia.

Guru Martins disse...

...entre o céu
e a terra
somos prisioneiros
do desejo...

bj

Blood Tears disse...

Os rancores que nos assolam a vivência, vão sendo desfiados ao longo destes capítulos com uma força.... Somos atrolelados ...

Ora até ao próximo capítulo... :)

Blood Kisses

Germano Xavier disse...

O texto já possui uma expressão forte e tônica, e com um quadro da Frida fica ainda mais duro.

Um carinho, Márcia.
Continuemos...

Heitor Cardoso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Heitor Cardoso disse...

Pequenos cacos do teu coraçao é (quase) tudo o que percebo nas tuas tortas linhas, que por algum motivo, tornam-se tao perfeitas aos meus olhos.

Beijos ternos.

Heitor Cardoso disse...

'No caminho nao há sombras, nada alem de solidao
Meus votos desfeitos, quebrados, ao vento;
Nossas memorias tao frias, presentes de Deus
a mais fragil ilusao eu vivi ao lado teu

E se eu posso te ouvir entao nao é natural
O que eu quero nunca acho, e me perco num cigarro...
Mas e se eu posso te ouvir entao nao é natural,
e eu vou deixando assim, quem sabe um dia
nao chego a te encontrar?'

O texto me fez pensar...

ronaldo braga disse...

este mosaico de rancores, é ante um
percorrer criticamente da relação humana mas é tambem um serie de contos de alta qualidade tecnica tanto como obra literária como tambem é uma tomada de posição da autora que em assuntos polemicos não fica em cima do muro e se assume como mulher e mais que isso se glorifica como mulher.
uma serie de texto que realmente faz o leitor pensar.
a literatura agradece a autora.

fao disse...

Frida....ah..Frida...rs....nao tem como nao gostar, e ilustra bem, tão bem quanto se pode

Heitor Cardoso disse...

http://www.youtube.com/watch?v=kZSAkCdLzkg


indescritivel.