quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 17

Nossos corpos sob o sol do meio-dia. Vejo Frida Kahlo duplicada, comendo a si mesma. Observo nosso sexo.Colunas Partidas. Ferros atravessando minha vida, traves fechando meus olhos. Mãos cobrindo minha falta de pudor. Cavalgo sobre seu dorso. É frustrante devorar a incerteza de um desconhecido. Não vejo teu rosto. Luzes apagadas, frestas fechadas,vidros foscos. Cavalgo e imagino outra estrada, outras paisagens, janelas e olhares que jamais se abrirão. Um voyeur cego. Trilhos e ampulhetas dividem meus pensamentos. Sonho encontrar um caminho onde os lírios não conheçam o desespero das águas, nem desejem se misturar ao lodo. Flores de lótus não são plantadas em vasos. Ainda com as rédeas, percorro um campo de papoulas (a beleza é traiçoeira) e deparo-me com os mortos de heroína. Pico na veia. Passagem de ida ao Inferno. Filhos degenerados de Dante.
Despertam dores. No dia seguinte a paixão é lua minguante. Gozo nos lençóis. O amor é assim, arrumação de camas, ruas sem saídas, novelos de uma Ariadne perdida no labirinto. Há barcas para atravessar o rio verde que invade meu quarto.

12 comentários:

Luciano Fraga disse...

Simplesmente maravilhoso este capítulo 17, não sei se vou a galope ou cavalgo em alta velocidade diante de um bloco inusitado de imagens, cores, situações, ambientes, um cenário dolorido como nossos dias, parabéns pela escrita, beijo fraterno.

Germano Xavier disse...

Esse Mosaico dialoga com o poema meu, Márcia. Ou não.


Um carinho.
Continuemos...

Heitor Cardoso disse...

Merece sim, se nao fosse voce, nao teria inspiraçao e de nada adiantaria o suposto talento que voce diz que eu tenho.

"O amor é assim, arrumação de camas (..)'
Isso me é familiar...


beijos calorosos musa.

On The Rocks disse...

só quem sabe o que é amor é quem já amou, e acredite, há aqueles que não sabe o que é amar.

tô com um blog novo só de poemas:

www.lavergadelbuenas.blogspot.com

bj

Arabica disse...

Muito bom.

Descrição rica com muitas imagens envolventes.


Beijo, boa semana

Heitor Cardoso disse...

Gosta de cenarios circenses? Ouve 'Being for the Benefit' do Beatles, cd Sgt. Pepper. Voce vai adorar!

Marcia, tu vives em Sampa né?

Ingrid Guerra disse...

Ainda não consegui me organizar e reler todos os capítulos de "mosaico de rancores", o que me deixa um tanto perdida na história. Mas prometo que assim que eu conseguir, comento tudo apropriadamente. Desculpe a demora. Bjs

f@ disse...

Magnífico como sempre... texto e ilustração atravessam o rio de todas as cores...
beijinhos das nuvens

joca disse...

Olá! Gostei do teu espaço, que descobri por acaso, numa das raras vezes em que surfo no internético. Imagens fortes, contundentes; " a beleza traiçoira das papoulas" e também outras traições e enganos. Interessante e instigante diálogo entre o real e o imaginário. E os curtos capítulos curtos são muito de acordo. Parabens!

João da Silva disse...

Magnífico, só para variar! E há Carontes que nos conduzem pelo Aqueronte; e há Clotho, Athropos e Laquesis, tecendo, enovelando, emaranhando o fio da vida; e há um minotauro em cada um de meus labirintos, e há martelo e o "malleus maleficarum", e há Penélopes, o "big-bang", João gritando em pleno Apocalipse, e há... há você, para mexer conosco aos extremos.
Beijos, linda, muitos deles, do João

Germano Xavier disse...

E a Frida é sensacional...

Muito forte.

Um carinho, Márcia.
Continuemos...

Le Vautour disse...

Quem me falou de você foi o João da Silva, que encontro aqui nesta postagem. Swell to meet you, je suis enchanté.
Acho que mereço examinar com calma esses mosaicos todos, como se o fizesse num caleidoscópio. Cheguei hoje, mas acho que não largo mais. A primeira impressão é de encontrar uma obra grandiosa, pois que já andei pervagando nestas plagas e lendo, mesmo que de escantilhão, este magnífico "A Vida não vale um Conto". Adorei o pun, e há algumas stichomythias maravilhosas, soltas por aí, que já me encheram os olhos.
Vou voltar, pelo prazer de voltar.