domingo, 7 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 22

Escafandros se afogam no aquário da sala. Tento salvar os peixes, embora eles tenham morrido antes do meu nascimento. Mesmo assim seus olhos vítreos ainda me interrogam sobre mistérios que desconheço. Fósseis e lembranças invadem minha boca. Pequenos milagres assolam o mundo. Ressurreições sempre me incomodaram. Os lírios e o lodo. Era comum meu pai comentar dos mortos como se eles pudessem a qualquer momento pisar os pés frios e roxos na soleira da porta ou ligar o rádio e escutar uma canção. Eu não podia acreditar nos mortos, porém os fantasmas esbarram na minha existência, mastigam meus calcanhares. Parece que levei uma surra, meu corpo dói, minha alma dói, nada em mim germina ou nasce, apenas subtrai. Uma matemática incorreta e perversa. Volumes amontoam-se na insensatez dos meus braços. As fotos de Lúcio continuam penduradas no varal, revelando realidades inconjugáveis. Pierrôs e Colombinas numa quarta-feira de cinzas. A morte faz sentido somente para o florista. Caranguejos amanhecem no meu jardim. O esterco e a rosa. Entro e no meu quarto Caim adormece entre os lençóis. Serpentes nadam no rio verde e calmo que brota do meu ventre.

12 comentários:

JC disse...

A morte é algo com que também não lido muito bem. Quando durmo e sonho com essas coisas, fico com pesadelos e acordo cansado, como tivesse tido um dia de muito trablho.
Não sei se existe vida depois da morte ou algo parecido. Acredito que algo exista. Mas sempre que penso na morte ou que um dia terei que morrer fico triste e deprimido.
Como sempre oas teus texos são muito fortes e carregados de muita emoção. Gosto das reflexões que fazes, porque são sobre situações reais e as quais temos que enfrentar.
Beijinhos

Luciano Fraga disse...

A morte só faz sentido para o florista, bom demais.Entre descaminhos,vejo sinais de esperança, serpentes nadando no rio calmo do ventre.Sucesso, beijo.

Arabica disse...

Viver, viver tanto que a morte ao acontecer, faça sentido, como um adormecer de cansaço e realização.


Tragar a vida.


E esperar que hajam mais.


Abraço solidário, boa semana!

Cristiana Fonseca disse...

Olá Marcia,
è impressionante a tua escrita
È forte, inteligente, você
brinca com as palavras.
Belo texto
Beijos,
Cris

anjobaldio disse...

Também adoro Leonard Cohen.

On The Rocks disse...

maravilha!

como sempre, né?

vejo que estou muito bem acompanhado nessa tal de blogosfera.

bj

Paradoxos disse...

"o conto final"
" a sentença irrevogável"
- a morte... ei-la como inevitavelmente presente por mais que queiramos não querer.

olá minha estimada amiga - bom regresso neste teu lar de encantos...

João da Silva disse...

Marcia, já sentia falta de seus lúcidos e lúdicos escritos.
Você me arremessa com muita facilidade do "Genesis" ao Apocalipse. As imagens são sempre candentes, os mitos são ululantes, os abismos e os páramos celestiais estão próximos, e eu me sinto grande, embora envolto num halo de mistério e de beleza de que não queria jamais sair.
Beijos, minha linda, com aroma de rosas, do João

ronaldo braga disse...

marcia os seus contos expressam o viver humano de uma forma bonita, uma vez que arranca as dores de lá de dentro e coloca na vitrine possibilitando não a cura mas antes a superação dessas dores.
vc não tenta de forma magica envolver nem convencer, mas sim permitir a cada um o seu pedaço de vida e de critica.
uma literatura que antes respeita a vida e não considera o leitor um imbecil.
coisa rara hoje em dia.

Guru Martins disse...

..."A morte faz sentido somente para o florista"...
hehehe...
muuuito boa!!

bj

Heitor Cardoso disse...

Prefiro pensar na morte como espera, nao de uma outra vida, mas uma espera pra continuarmos, o eterno retorno nietzscheano. Mas infelizmente, sao tantas verdades por ai que o que a gente mais quer é uma mentira pra acreditar.

Enfim, esse foi um dos seus melhores escritos.

E ainda quero saber de que voce é professora ;D

'beijoes' ternos.

f@ disse...

Olá Márcia,
Da memória e saudade de alguns mortos que ainda oscilam o chão que calco… ou o além das nuvens quando olho o céu…
Tangem -me misturados com as raízes e vem colo rir a flor…
Dói como um “fim” … mistério e longa “treva” é a morte…

Beijinhos das nuvens