quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 23

Serpentes dançam sensuais em seu mundo. Não me sobra nada além de guizos e venenos. Você não foi capaz de me discernir. Eu não sou a comida que eu vomito, nem sou costurada com a mesma linha imprestável dos meus vestidos. Caracóis saem de suas cascas e riem da minha desgraça. Lúcido, você se confunde com seus flashs, com seus brilhos insuportáveis. Tripés. Lentes sujas. A sala agora tem a dimensão de uma fotografia 3 por 4. Os objetos fogem dos meus dedos, calos enormes atrofiam minhas mãos. Não sou Cristo, não tenho chagas, mas minhas feridas sangram com ardor divino. Não tente apalpar o impossível. Deus tentou me alertar, pena que nunca acreditei em ninguém. Cega. As traves incomodam meus olhos. Olhos na testa. Peixes mortos fingindo vigílias. Insulinas e agulhas, jamais aprendi a conviver com elas. Cateteres povoam meus braços. Morro e a morte cheira álcool e éter. Não posso continuar aqui esperando Lúcio voltar. Talvez ele não volte. Talvez tenha encontrado consolo em outros braços, em mundos menos complicados e exigentes. Um lugar onde as luzes penetrem docemente as janelas e haja violetas e gerânios na varanda. Aqui, a luz é vulgar e indecente e os cactos apenas sobrevivem sugando a fresta da minha escuridão. Pequenas cavernas se escondem no porão. Saio e procuro desejos. Sodoma e Gomorra e minhas ruelas estreitas espremendo vértebras. Alguém que possa tocar a minha pele e me causar arrepios. Um rio verde e tempestuoso escorre da minha boca. Mastigo carvalhos e cuspo flores. Minha vida descansa solene à margem.

15 comentários:

Heitor Cardoso disse...

*inconformado*

Heitor Cardoso disse...

Tornei-me um desacreditado na vida conjugal, obrigado Marcia ;D

cachorro rabugento morto em noite chuvosa disse...

Teu blog ficou ainda mais lindo. Adoro a Frida. Grande abraço.

JC disse...

Acho que é um texto elucidativo de quanto, por vezes é difícil viver a dois, para que esta conjugação dê certo é necessário um e outro saberem ceder em determinadas situaões, é preciso que haja confiança mútua, é preciso que a cada dia que passa nós nos conheçamos melhor. Penso que se uma relação estiver alicerçada nestas permissas terá futuro, se alguma delas falhar poderá ser o fim da relação.
Beijinhos

Germano Xavier disse...

Teu livro está ficando grosso, Márcia.

Um carinho.
Continuemos...

Ca:mila disse...

'Não sou Cristo, não tenho chagas, mas minhas feridas sangram com ardor divino'

muito bom!

Luciano Fraga disse...

Grande coincidência,"minhas feridas sangram com amor divino..." simplesmente um
achado divino marcante,este texto deixou-me com a impressão de cartas e cartas sendo lançadas à mesa, por fim o repouso solene, maravilha, abraço..

Bill Stein Husenbar disse...

Nesta época natalicia, desejo um Feliz Natal recheado de momentos bons e inesqueciveis na companhia dos que mais ama. Que a alegria e a esperança se espalhe e se concretizem no coração de cada um de nós.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

JC disse...

Espero que um dia, breve, possas publicar um livro com todos estes textos.
Beijinhos

Braga e Poesia disse...

marcia postei no diariosdosonho.blogspot.com/
o mosaico de rancores 23.
ele agora enriquece o meu blog.
lietratura que deve percorerer escolas e cidades e todos os ares que não queiram palavras prontas e sim criatividade.
bjos
ronaldo braga

Sininho disse...

"Maus, são todos os homens, a diferença está na maneira como o são" José Saramago

O amor que melhor nos faz é aquele em que nos limitamos a observar!

(Como adorei sua estória...e a vivo e a sinto em mim e em suas palavras!)

Um Beijo*
(Voltarei)

Arabica disse...

Gosto sempre de te ler.


Acutilante e certeira, cortas pela raíz todas as ilusões e deslumbramentos.


Uma relação assim, mais vale não ser.

Beijo e uma boa semana!

Ingrid Guerra disse...

Estou de volta, ainda que não tenha, de fato, abandonado este ambiente. Visitava, sempre que possível, todos os meus amigos. Apenas os comentários deixava para um momento mais apropriado, quando pudesse me dedicar a escrever algo relevante. Reli todo seu romance. Minhas dúvidas permanecem sem resposta (será que eu sou uma leitora desatenta ou alguns mistérios são propositalmente difíceis de desvendar?) e minha curiosidade se aguçou ainda mais. Acredito saber que os rancores de Dejanira são cultivados desde a infância, frutos de uma família um tanto estranha, em que o pai (penso eu) joga nos filhos algumas de suas frustrações e semeie idéias que de outra forma talvez nem passasse pela cabeça dos mesmos. O casamento com um fotógrafo também não deve ter facilitado sua vida, já que se tornara uma mulher ciumenta. Mas três coisas me intrigam: quem é Elenir, quem é a velha que grita no andar de baixo (será a mãe de Dejanira)? E quem atirou em Belinha? Não quero que me responda. Quero descobrir sozinha. Mas, achei por bem comentar, de qualquer forma. Bom, fico por aqui e prometo continuar acompanhado suas escrivinhações. Um super abração procê, minha cara. Cuide-se.

On The Rocks disse...

isto chama-se poesia sublime!

estou tentando aprimorar minha escrita para chegar a este nível.

bj

f@ disse...

Olá Márcia,
Chuvada que turva as águas do rio…
nas margens musgos e serpentes aguardam o sol voltar… radioso depois da tempestade…
pé delicado ao som de guizos, como lento rebanho em caminho de montanha agreste chega ao en tarde cer…

Beijinhos das nuvens