sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 1



Quem pode adivinhar o tamanho dos meus abismos? A dor do ciúmes que eu esmago todas as noites entre meus dedos. É minha oração diária, uma queda brusca de estrelas. Caranguejos devorando defuntos na lama escura do meu rio. Últimas vítimas do vale dos suicidas. Verde e calmo ele atrai almas fracas. Viagem insólita em minhas margens. O rio que despenca no meu corpo mais parece o mar em suas piores ressacas.

Ele nunca entenderá. Ele é bom em objetos estáticos. Conhece apenas os movimentos das fotografias secando no varal. E eu aqui, estendida na beira do leito. Pensa existir um movimento perfeito para ser captado. Não acredita no acaso. Quando não gosta do que foi registrado, rasga, parte pra outra, outras. Ele acha que devo fazer o mesmo com o meu ciúmes, manuseá-lo e depois rasgá-lo, como se faz com um recibo velho. E eu, tão saudosista...

E essa velha louca não consegue calar a boca. Meu Deus! Quanta besteira! A sua voz tem uma entonação insuportável. Minha cabeça ferve como um caldeirão. Ela não percebe. Ela não consegue enxergar nada além de si mesma no meio do caminho.

Enquanto isso o carvalho submerge. O rio se cobre de um musgo verde e calmo.

2 comentários:

Ricardo Jung disse...

falas como um pássaro que escolheu viver na gaiola, e se consome de ira por não convencê-lo a amar tua cruel escolha

ótimo texto, bem carregado de honestidade e estilo

Germano Xavier disse...

O murmúrio que é tanto barulho interno. Uma ode ao libertar-se difícil.

Lendo, Márcia.
Abraços...