quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 3



Desço as escadas com dificuldade de cego. Poderia ficar enclausurada com a minha paranóia, as minhas loucuras, remoendo fiapos dos meus retalhos, não consigo. Ando pelas ruas, sinto cada buraco perfurando as solas dos meus sapatos, os meus velhos passos sempre me perseguem. Aonde se enfiou aquele imbecil? Sei que nunca irei achá-lo, nem sei se quero e ainda que o achasse, ele me negaria 3 vezes, como Pedro negou a Cristo. A velha grita feito uma histérica. Não posso matá-la, nem sequer esfaqueá-la.

Entro na padaria, não olho para o balcão, não olho para os doces, não olho para os sonhos. Peço um café sem açúcar. Não gosto de café, mas sempre é a primeira coisa que peço quando entro em algum lugar. Um abismo bebido em pequenos goles. Deixo um fundo na xícara. Abismos água abaixo. Não vejo a cara da balconista, me levanto e esbarro em uma mesa. Meu impulso é sair sem pagar, me controlo. Sempre reservos notas de um real no bolso, é mais fácil, não preciso esperar o troco, nem brigar por tentativas de pequenos roubos. Nunca confie num homem atrás de uma máquina registradora.

Saio depressa, o sol bate com violência no meu rosto, quer me espofetear. Ignoro, existem coisas que consigo ignorar. Na praça a fonte espirra uma água verde e calma, é o rio que insiste em nascer no meu antigo quintal. Crianças em roda jogam moedas. Cara ou coroa? Já me esqueço do limbo escuro do Vale dos Suicidas.

4 comentários:

Alice disse...

Marcia,

Bem sei do que você está falando. Também tenho mil coisas a fazer e acabo não fazendo. Sempre me escondendo no tempo. E adorei sua colocação sobre escritores não terem o direito de ficarem ou estarem estagnados. Nunca ficamos. Eu mesma quando vou me estagnar na cama, penso em textos, crio personagens, vozes. Tudo bem que esqueço tudo quando acordo, mas não consigo estagnar. E outra coisa, também não sei ser muito breve. Sempre falo demais. E também não comento em muitos blogs. Leio, mas não comento. Alguns por não me tocarem ao ponto de me fazer falar; outros por medo de ser engolida por quem escreve e também outros que prefiro não mencionar os motivos. E sim, artistas são perversos e concordo. Algumas grandes obras nascem da desgraça. É preciso algo que nos sufoque para que outro algo faça a diferença.

Adorei sua visita. E sobre as músicas, é simples, mas demorei uns séculos até colocá-las aí porque tb não me prendo a certos detalhes. E sim, indicarei seus textos. Tenho amigos que lêem e abrem a boca. Dependendo de mim, você não escreverá mais só para suas teclas.

Letícia

Apenas copiei esse comentário que deixei pra vc no meu blog.

Alice disse...

E desço as escadas também. Certos textos me fazem sorrir em cumplicidade. Me sinto assim quando leio Lygia Fagundes Telles. E esse seu texto me fez sentir assim. Acho triste rasgar seda para um texto. Melhor esquartejá-lo. Até elogios feitos devem ter uma explicação. E é dura a realidade descrita. É sempre assim. Dias iguais e o abismo numa xícara de café. A gente olha o abismo e pensa em tantas coisas e quando a gente volta, o mundo é o mesmo. Sempre se espera um terremoto, mas nada acontece. E imbecis somem e aparecem e negam a existência do que eles costumam idolatrar.

Bjs.

Letícia

Elenilson Nascimento disse...

Olá, estou aqui para convidá-lo a conhecer a LITERATURA CLANDESTINA:
http://literaturaclandestina.blogspot.com/
Conto com a sua presença por lá . Um abraço Elenilson

Anderson Cádor disse...

A velha coisa do esquecimento que também é memória, como diria o Benedetti. A gente foge, sai, corre, dispara contra a relva, sem saber que não há fuga, não há saída, não há portal...

E nasce assim a angústia, a cólera e a doença.

Leio e sinto.
Que bom que a Letícia veio aqui.
Abraços, Márcia.
Aparece...