segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 2


Um zunido penetra no meu ouvido. Milhares de enormes moscas azuis invadem minha cabeça. Minha vó rezando o terço. Meu pai me enforcando com o antigo escapulário. O corpo de Cristo apodrecendo em cima da mesa: comerás e beberás do meu Corpo... A colcha de retalhos parece abismos atravessando meus dedos. O almoço esfria na mesa. Não tenho fome. Fico imaginando o clique da sua máquina. As poses insinuantes daquelas putas oferecidas. E ainda a culpa é minha, a paranóica sou eu. Ninguém tem culpa das suas loucuras. Ninguém pode fazer nada se você é uma cega, uma topeira estúpida! Risos lunáticos escorregam pelas paredes. Aquela velha louca não pára de falar. Fala feito papagaio. Tenho vontade de descer correndo as escadas, invadir o estúdio, pegá-lo no flagra. Impossível, ele me mataria depois. Falaria sobre distúrbios, daria exemplos trágicos de romances destruídos pelo ciúmes doentio. Novamente eu sairia perdendo feito cachorro pequeno atrás de osso grande. Sairia pisando num chão molhado e escorregadio, o mesmo chão que tantas vezes enxuguei sem resultados. Ele diria que qualquer imbecil pode ver o que me recuso a enxergar - ele é sempre tão mais do que eu!!! - não se pode capturar um gato selvagem e exigir dele modos civilizados. É incoerência.



Enquanto isso em meu antigo quintal o pássaro negro compõe canções do inferno. O sol bate nos talheres, parece cegar nossas vistas, ou o resto dela. E lá fora, o rio verde e calmo afoga meus inimigos. Um limbo denso e escuro aparece sobre minhas mãos. Não tento removê-lo.



5 comentários:

Germano Xavier disse...

A doença não penetra o corpo se este estiver coberto pela imundície. Assim acreditavam alguns europeus e indo-europeus nos tempos de antes.

Tua palavra soa como realidade sempre e imagino cenas. A construção é sempre motivada.

Contigo na aventura, Márcia.
Abraço forte.

Germano.

Guru Martins disse...

...inegavelmente
tens densidade!!
Ñ leve à mau se eu
ñ te freqüentar tanto
gostaria, pois a música
é uma mulher muito exigente
e quase exclusivista em minha
existência, mas crea-me,
sempre q puder venho...

tbj.

Alice disse...

Marcia,

Não faço muita propaganda do meu blog. Deve ser trauma. Você me visitou em um blog que divido com o Germano Xavier. Mas escrevo mesmo no ...

http://cosmiclibrary.blogspot.com/

Esse é o baú onde me escondo. Sinta-se livre para ler e ler.
Bjs.

Letícia

Alice disse...

Esse texto disse algo pra mim... sou neurótica - meio topeira mesmo. E ninguém tem culpa de sentir ou fazer loucuras. Seu texto nasceu sem o pecado original.

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e