sábado, 9 de agosto de 2008

Conto: Roleta Russa


“When i was just baby/my mother told me
son alway be a good boy/and never play with guns"
(Johnny Cash)
Galopes atravessam a sala.
- Chiiiiuuu!!! Você tá ouvindo?! Toda noite é assim, nesse mesmo horário, eu escuto barulho de tiros.
- Eu não escuto nada.
- Vamos, encoste os ouvidos na parede.

- São pequenos estalos.
O fogo invade a minha janela. Uma grande fogueira domina o céu. Um cheiro de plástico inunda a cidade.
A única mulher que amei me abandonou. Disse que seria dançarina de Circo, pra mim se tornou uma prostituta. Uma puta dançando sob a lona. Vai-se o amor, fica o ódio. Ainda sinto as pancadas de seu martelo massacrando a carne de segunda. Nessas horas, ela comentava: “Olha ali, de novo aquele caminhão em frente ao mercado”. “Ele está recolhendo o resto das carnes, as migalhas de sua carnificina. Os ossos indigestos que não pode roer”. Ela contestava como um velho sábio: “Comeu a carne agora roí o osso!”. Segui seu conselho: estou roendo os ossos, mas quem comeu a carne foi ela. O resultado são dentes cariados, dois molares cheios de amálgama e estorninhos voando sobre meu estrume. As aves não se cansam de zombar da nossa falta de asas e de sorte.

Muitos tentam me convencer do milagre da vida. Poucos têm convencidos a si mesmos. Messias se deixou pregar na cruz. Tenho encontrado muitos cadáveres atravessando com pés alheios o mar vermelho. A fé não os faz boiar, eles simplesmente afundam. Formigas remexem em seus restos. Caranguejos os devoram. E eu que era homem, durmo feito um menino.

As bolas coloridas sempre teimam em não entrar na caçapa. A luta inútil no chão verde as distraí. A mim também tem distraído por vários anos essas tacadas na beira da mesa.

- E por que você acha que vale a pena?
- Eu não acho, arrisco.
- Eu também. A diferença é que minha sorte tem seis giros.
- A vida não é um jogo, não é uma roleta russa.
- Pra mim ela sempre foi um jogo e o prêmio sempre foi a morte.
- O quê você quer dizer?

- A única diferença da minha roleta e a de Deus, é que a dele possui um tambor enorme e um número infinitamente maior de jogadores.
- Você pretende brincar de Deus?!
- Não. Eu sou Deus. Um Deus com um 38 conseguido em contrabando. Enquanto matam inocentes, eu atiro no culpado.
- Chiiiuuu!!! Você não está ouvindo?! Toda noite é assim, nesse mesmo horário, eu escuto estrondo de tiros.
- Eu não escuto nada.
- Vamos, encoste os ouvidos na parede.
- São pequenos estalos.
- Escuta, parecem galopes!
- Pararam.

Caminho feito bicho no Vale dos Suicidas. Da janela o fogo ainda queima. O cinzeiro roda em cima da mesa. A arma esquenta nas minhas mãos. Se eu fosse Deus eu não fraquejaria. Aperto o gatilho. Corvos sobrevoam o trigal. Escuto apenas um estalo seco. Acrobatas sim são loucos, eles despencam do céu, os pássaros apenas voam quando confiantes em suas asas, não passam de aviões primitivos”.

Lonas coloridas despencam sobre minha cabeça.

Aperto outra vez, desta vez mais rápido. Vejo flores sem espinhos nascendo no jardim. Abro os olhos. O rádio continua no PAUSE.
Termino um jogo da velha que comecei há muitos anos. Perdi. Há quem diga: “Azar no jogo, sorte na vida”. Pra mim não faz sentido. O que é a vida senão um jogo de cartas?
A minha são só cartas fora do baralho. Um Coringa sorri pra mim. Ou de mim?
Abro a torneira e o mar brota. Se me jogasse, me afogaria agora. E de pensar que um dia amei. Esqueci de procurar qual a probabilidade em uma roleta russa de morrer na quarta tentativa. Aperto o gatilho. Já tá virando comédia.
- Você escuta?

- São pequenos estalos.

Todo círculo é eterno e entediante. Novamente o tambor gira. Do coador escorre um fio fino e magro de café. Um cheiro de aço, sangue e pólvora corroem a carne mole da minha unha. O que esperamos muito sempre vem tarde. Ainda não foi dessa vez. Sinto meus dedos duros e calejados de tanto apalpar um amor amargo. Lembro dos carinhos do meu pai. Ainda assim respiro e aperto sem convicção o gatilho. Abro os olhos e vejo o gato dormindo. O rádio sai do PAUSE: “Mãe tire esses revólveres de mim, com eles não quero mais atirar...”. Um sangue grosso e cinza pinga feito garoa no meu último passo. A morte usa enormes sapatos pretos e lustrados. Há lama no Vale dos Suicidas. Um engraxate me oferece ajuda. Ainda vejo fogo pela janela. Os poetas não morrem, agonizam. Uma grande fumaça branca nasce da palma da minha mão... Ela dança feito uma puta feliz sob as cordas do equilibrista.
- A vida é um cavalo branco que sobe escadas.
- Cavalos não sobem escadas!
- Deve ser por isso que nunca vi sentido nessa frase. Nem na vida.
- Chiiiiiuuu! Você está escutando?! Toda noite nesse horário é assim eu escuto estrondos de tiros.
- Não são tiros. É apenas ela.
- Quem?!
- A dançarina. Ela está sapateando sob a lona.
- Então seus sapatos estão sujos do meu sangue.

(Um cheiro de plástico inunda a cidade... enquanto a lona cai.)

9 comentários:

Anderson Cádor disse...

E os tiros sairam pela culatra!

pianistaboxeador21 disse...

Germano, sinceramente acho que você, entre nós quatro, eu, vc, a Márcia e a Letícia é o melhor escritor. Pq vc é musical pra caralho, e é verdadeiro, e tem um puta coração. Isto transparece nos textos.
Letícia vc escreve bem, mas se acha, e é insegura, quer o tempo todo ficar dizendo tudo o que sabe e haja Lacan! Admiro o que vc escreve, pq vc tem talento, mas não digo o tempo todo pq vc é muito metida e a Márcia tem ciúmes.
Márcia, desde quando me entendo por gente te admiro e se sou casado com vc é pq te amo mais do que a mim mesmo. Faço o meu melhor, mas não sou perfeito, de modo que não me odeie, pq é isto mesmo.
Quanto a mim, sou esta merda mesmo, se quiserem gostar de mim bem, se não quiserem, pelo menos não uso máscaras, a merda será sempre a mesma.

Marcia Barbieri disse...

Daniel,
Te perguntei? Se sou doida e casou,agora guenta.

Paradoxos disse...

marcia vim aqui parar deviso a foto que está no teu pefil.
Frida!!

parabens pelo belo blog que tu tens e pelas profundas e maduras palavras!!


Frida, uma ferida, arte de elevado grau!

beijo amiga

Paradoxos disse...

Marcia, um pouco mais a baixo está no meu blog (a minha trincheira das emoções) um post sobre Frida

voltarei sempre...

Alice disse...

Também li seu texto, Marcia. Leio textos e me vejo em alguns e em outros, vejo palavras que não costumo usar. Mas leio sempre. Escrevemos porque queremos ser lidos por alguém.

Bjs.
Letícia

Cris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris disse...

Marcinha, há dias que ensaio para visitar o seu blog... tanto ensaio não diminuiu o impacto desta beleza de escrita...
E devo confessar que nesta roleta fiquei a transitar entre um lado e outro...

LEIA SILAS Literatura Contemporânea disse...

POEMA 'ÁRVORE DA VIDA' - SILAS CORREA LEITE



Escrito por Silas C. Leite, de Itararé

Leve uma árvore para morar com você
Na sua rua, na sua casa, no seu quintal, no seu pomar
Na sua sala ou no seu jardim de estar.
Ela será a sua verdadeira menina dos olhos
Uma moça folhuda de brilhos e movimentos verdes
O seu amor, seu animal de estimação que faz fotossíntese
Com tantas flores, frutos, carinhos e bênçãos
Uma espécie de objeto de prazer para você
Como uma música, um filme, um desenho, um livro, um bebê
E ainda colocará graciosa beleza natural
No entorno todo de sua paisagem existencial
Além de você não precisar sair, levá-la para passear
Pois ela em si mesma é uma viagem de brilho e luz singular
Dará brotos, tons, passarinhos, matizes e odores de essências ricas
E ainda beleza frondosa, oxigênio, ar
Será sua sombra amiga, seu amparo de estética salutar
Como se da família; uma filha, uma sobrinha, uma neta, uma parente
E da família das árvores humanas, certamente.
Ela dará herdeiros garbosos e sementes importantes de beleza
E a nossa maravilhosa grande mãe, a sábia e poderosa natureza
Terá você como um dono, ou um pai dessa árvore-filha florida
E você dará água e amor, cuidados e afetos de uma pessoa querida
Pois graciosamente um dia levou para casa, para morar com você
A árvore da vida.
-0-
Silas Correa Leite – Itararé-SP