terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 5



- Isso são horas?!

- Como assim? Eu sempre soube que qualquer hora é hora. Deu pra filosofar agora?

- Fique sabendo, Lúcio querido, que não estou com paciência para as suas piadinhas sem graça.

- Imagino mesmo. Afinal, ultimamente você não tem paciência pra nada, a não ser, é claro, ficar remendando seus rancores, enfiando o dedo na ferida.

- A culpa disso tudo é minha, você tem razão! Eu deveria ter ido embora há muito tempo, sou burra mesmo! Sempre arranjo desculpas pra ficar, como se beber café morno e requentado fosse melhor do que não beber nada.

- Se é você quem está dizendo, quem sou eu pra discordar?

- Eu tou cheia disso,você fica me testando o tempo todo, todas essas mulheres, essas poses, esses flashs, essas saídas fora de propósito...cada vez mais as traves me incomodam, eu tropeço em gatos o tempo todo!

- Você está exagerando, fazendo drama, aliás, tramas, é isso que você faz, distorce tudo. Você vê tudo refletido em uma água suja, turva, e as coisas acabam ganhando uma dimensão que não é real. Me lembrei do quadro do Salvador Dalí, sempre quis fotografar aquele quadro Cisnes refletindo elefantes e agora ele está aqui, diante dos meus olhos, completo e cru...indigesto.

- Você chega agora e eu sou a louca? Qual parte do filme eu perdi, porque eu não estou entendendo.

- Nenhuma parte, muito pelo contrário, você sempre acha que o diretor não foi fiel à realidade, que tem algo mais que ele não conseguiu captar através das lentes.Você arma o tripé e você mesmo cai em cima dele.

- Tá.

- Eu sei, realmente é um pouco tarde, eu sei, não discordo. Mas isso é tudo, o resto da história, a seqüência maluca de fotos não existem, você que formou, costurou com suas próprias mãos, como você forma imensas colchas de insignificantes retalhos, sei lá uma nova pintura de Gustav Klimt.

- Não, não são insignificantes retalhos, se fossem não formariam belas colchas.

- Tá bom. Podem até não serem tão insignificantes, mas você os recria, recria sua natureza. Assim como você junta pedaços de clássicos e transforma num drama enorme. Belo pra uma encenação, no entanto ridículo pra nós.

- Você não é capaz de entender, eu não consigo me controlar, às vezes, é tão óbvio que estou sendo idiota, mas sempre enxergo isso tarde demais... as traves, são elas, eu sei.

- Esquece, como alguém já disse, o essencial é invisível aos olhos. Por favor, Dejanira, pelo nosso bem, pára de tentar enxergar o que eu vejo, isso é falta de lucidez, de bom senso! Não estou te enganando, eu não tenho motivos pra isso.

- Você tem pena de mim, só porque eu sou...

- ...pára com isso, ninguém é tão bom a ponto de se autoflagelar pelo bem de outra pessoa. Abre os olhos, você consegue pressentir com facilidade, consegue sentir com as mãos todo o mundo ao seu redor. Você só não acredita no amor que tenho por você, como se eu tivesse te dado um anel de vidro, uma pedra furta-cor.

- Vou dormir, você vem?

- Alguma vez eu disse não?

- Você não ousaria, eu acabaria com você, o fotógrafo de muitas poses.

7 comentários:

Alice disse...

Um dia, os papéis serão invertidos e nós responderemos o interrogatório. Embora o seu texto traga as perguntas de forma mais elaborada, são as de sempre. E eles não respondem e haja história pra contar. É o dia a dia ou o costume que levam duas pessoas a se matarem assim, aos poucos? Mas existe amor e ainda dormem juntos e mesmo em meio aos jogos de palavras humilhantes, ainda se dorme junto e ainda se ama.
Vc escreve e eu leio, Marcia.
Se cuida.

Bjs.

Marcia Barbieri disse...

Alice,
Não costumo escrever no meu próprio blog,mas não resisti agradecer,vc. tem sempre uma leitura muito competente,me sinto compreendida.
Espero que não deixe de ler
Beijos
Márcia

pianistaboxeador21 disse...

Os diálogos da Márcia são tão bem elaborados e elegantes, que chegamos mesmo a nos perguntar como o desamor, ou o pôr-do-sol-do-amor pode ser tão clássico? Ainda que sob a cifra das palavras, há pouco e pouco emerja o limbo, o fel, notamos que os elefantes desse lago tb refletem os cisnes. Quem é quem aqui?
Daniel Lopes, o que te ama.

Anderson Cádor disse...

É aquela coisa das duas faces da moeda. Dói, mas no fundo um sentimento vence. Foi assim com o livro que li ontem, o das "putas" do Gabo. Ela podia ter 15 anos e já ser "da vida", mas a imaginação de "não-ser-o-que-não-se-acha" vence no final.

O amor ainda é o fruto.
Entre tapas e beijos, vem o amor em liberdade.

Abraço, Márcia.
Cádor

Alice disse...

Troquei a foto, mas ainda sou eu. E só leio, Marcia e às vezes, digo algo.

É um prazer saber que gosta das minhas leituras.

Mais bjs.

E eu tb não escrevia no meu blog. Não comentava, mas mudei. E as coisas mudam.

E pode me chamar de Letícia. Alice é só uma criação pra culpa não cair em mim. :)

Guru Martins disse...

...a essência da loucura
é a mesma, só difere no
nível de requinte
da(o) doida(o)...

carinho

felipe disse...

liplay_17@hotmail.com me liga gata,sei la vamos marcar de sair uahsuha me add no msn.?