terça-feira, 12 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 6

Traves sempre atrapalharam meus olhos. Escuto a voz do meu pai pregando:"O ciúmes mata como erva daninha". Nunca quis dar razão a ele, no entanto, como posso discordar sentindo ramos e folhas me sufocando? Sou contra toda sua doutrina religiosa e fanática, porém, não tenho como negar que a vida lhe ensinara algumas verdades. Assim como está ensinando a mim. São brasas fervendo perfurando minhas pupilas já cegas. Não posso esquecer o rosto angelical da minha irmã, nem tudo que lhe aconteceu depois. Nem mil anos me faria esquecer. Era singular o seu jeito de se agarrar a mim, parecia que jamais me soltaria e não soltou: "Vamo Janira, vamo brincar! Você já viu meu cavalinho? É mais bonito que um de verdade!". Nesse tempo, minhas vassouras falavam com tanta facilidade! Não resistia, às vezes, quase morria de ódio, não queria brincar feito uma criança bobona, mas tinha dó do mundo perfeito e perdido no meu quintal. E aqueles olhos tão azuis, tão meigos... Nada tinham a ver com os meus, tão negros, tão opacos, tão cansados, olhos de viagem. Meu pai gritando: "o ciúmes mata feito picada de cobra venenosa". Naquele tempo as palavras eram vazias e só diziam o que ecoavam. Eu sentia o peso da mão do meu pai. Quando olhava pra fora, eu pensava que aquele rio, tão verde e calmo eram as lágrimas que não podia soltar. Eu pensava, apenas eu sou responsável por todo esse limbo. Quem pode saber? Corpos de crianças mortas adormecem nas margens, entre pedras e lírios.

7 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Haja peito pra aguentar tanta linguagem. E a imagem da Frida foi pra lá de acertada.
Um beijo bom,

Daniel

Anderson Cádor disse...

Eu admiro o trabalho da Frida.
Sou um fã. Como também vejo imagens polissêmicas no texto seu, Márcia. Teu mosaico não é só um vitral francês. É motivo humano em floração, mesmo que flor de mortes.

Abraços de sempre.
Cádor

Marcia Barbieri disse...

Dan,
Quando chegar, eu tiro suas luvas e acaricio suas mãos calejadas de tanto espremer o mistério das palavras e o mistério que é amar emtre as farpas do cotidiano.

Cádor,

se por acaso voltar aqui,digo que adorei seu comentário,eu sinto verdade em suas palavras,suas palavras nunca me soam ocas,eu bato os nós dos dedos sobre elas e sempre me chega um som confortante.
Beijos,volte sempre.

Alice disse...

Espero não soar oca a minha palavra, Marcia. Venho aqui ler sempre. Não por maldade ou pra ver se tem erros de português ou ver se tem texto bom. Venho para ler mesmo e não há obrigações nisso. Não preciso cumprir horários e literatura nos deixa livres. A sua, a minha, a de quem for.

E aprendi a sentir ciúmes, mas tenho tendência a desaprender rápido certas coisas. Vivo assim.
E que nossa literatura feminina seja sempre forte.

Com admiração e respeito,

Letícia

E Obrigada por me ler sempre.

Ivan Pessoa* disse...

Márcia, adorei teu blog, espero ter-lhe como visitante assídua do sonetista, com calma vou ler vossos contos, gênero que muito me apetece. Um abração. O sonetista recomenda: Márcia Barbieri.

O Profeta disse...

Errantes sentires percorrem
Este corpo nu de calor
Queda-se a vontade ao vento
Neste deserto de verde amor

Ai este grito contido
É lava rubra em minha garganta
Pio de pássaro preso às penas
Uma reza a fugir de alma santa




Mágico beijo

Guru Martins disse...

....Noooooossssaaaa!!!!
Eu me envolvo muito c a emocionalidade do texto.
Se o peça é bela eu me encanto.
Se é triste, eu sofro pra burro.
Qdo a emoção se utiliza da palavra pra se expressar, o texto arrebata.
A realidade desse é de uma volência
tremenda, ñ gosto nem um pouco dela, mas ñ consegui parar de ler, mesmo querendo...e essa foi e é sua intenção: usar as palavras de maneira densa, forjar imagens claras e rápidas para funcionar como armadilha e capiturar de imediato o leitor. Foda isso!!!
Agora vou ficar c esse texto um bom tempo, torturando minha lembrança. Bom pra autora q mais uma vz consegui o intento.

ñ sei se te bj ou lhe dou os pêsames, ou me dou os pêsames.
sei-lá...