terça-feira, 26 de agosto de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 9

“O ciúmes mata como guilhotina”. Recolho como louca os retalhos da colcha que estou terminando. Todas as cores num só pedaço de tecido. Elenir sempre diz não entender como sou capaz de colocar todas essas cores em tão perfeita harmonia! Nem eu, às vezes, imagino que são infinitos tons de cinzas e quando vejo, está pronto. Isso me comove.
Desço as escadas devagar. Último andar. A rua parece um campo de batalha. Guernica. Escuto tiros, mas não procuro ver de que lado estão os canhões, nem de onde vem o cheiro de pólvora. O diabo passa e pouco importa em que porta ficou preso o seu rabo. As buzinas me enlouquecem, sons de metal, ensaios de banda de rock, ratos e baratas caminhando falsos pelos bueiros. As pessoas passam rápido, esbarram no meu desespero. Elas não percebem, usam as mãos para estancar as feridas que devoram seus ventres. Fogueiras se formam debaixo dos meus pés. O sol chega às vistas dos mais sensíveis. Lúcio está longe. Ele não se importa comigo, vive rodeado pelas fotos daquelas vadias. Poderia enforcá-lo com aquele varal, ele sentiria o próprio veneno, saberia o gosto que devassa minha língua. Faria com que ele engolisse todos aqueles peitos e pernas e braços e bocas, o seu mosaico erótico. Imbecil. Pensa que sou idiota, que não percebo suas estratégias de fuga. Poderia voltar correndo, entrar naquele estúdio e picar todas aquelas fotos indecentes. Não adiantaria nada. Ele tiraria outras fotos, passaria mais tempo com aquelas piranhas e depois se trancaria naquele quarto escuro até que cada curva daquelas mulheres se tornassem nítidas e palpáveis.
Um rio verde e calmo invade meu quarto, é incrível, ele abriga pequenas ilhas... da janela, a mesma fogueira se extinguindo, aquela que antes devorava meus pés e meus sapatos.

23 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Muito boa a sua prosa, vc escreve muito bem, pena que peguei o bonde andando. Vc tem o que vem antes arquivado? Quero ver.
Querida, publiquei um novo post porque passei por maus bocados enquanto o outro post estava publicado. Espero que vc goste. Como é muito longo, eu sempre aviso as pessoas: escolham algo para apreciar , apertem a tecla "page down" que todo computador tem, e ponham o comentário. Se quiser ler ou apreciar mais coisas, o post és tá lá, basta ir num outro dia. Conto com a sua presença.
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Um abraço,
Renata

Luciano Fraga disse...

Márcia,narrativa atormentada,situações que devoram, o diabo com o rabo preso,cheiro de pólvora. Adoro esta atmosfera e este clima tenso, saboreio.Grande mesmo. Beijo.

Leandro Jardim disse...

boa prosa
que embora cinzenta
tem algo de rosa
como a flor que se inventa

Alice disse...

Marcia, tenho que reler do início. Me perdi nos personagens. Mas você não perde o nível da narrativa e continua sempre a atmosfera de dor. Não deve ser fácil manter o ritmo quando se escreve um romance. Continuo lendo e admiro seu trabalho.

Bjs.

Letícia

biazinha disse...

Super intensa. Tomara que vc poste cada capítulo na NA.

Beijos.

Ingrid Guerra disse...

Fico, às vezes, sem palavras para comentar os posts. Parece-me que eles se completam por si e que o resto é vão. Então, não comentarei o conto, nem o romance. Ficarei apenas esperando as “cenas dos próximos capítulos”, quietinha, ainda que ansiosa. Digo somente que gostei da escolha de Les Demoiselles D’Avignon, pois, foge ao óbvio de guernica, que seria nossa primeira associação, já que você a cita.
Bem... hoje fico por aqui. Grande abraço procê.

f@ disse...

Belo e triste texto ... Brilhante, e transparente como os sentimentos ... águas que correm e arrastam as folhas dos arbustos e as areias ...das suas margens
beijinhos das nuvens

biazinha disse...

A questão do ciúme é um grande expoente de discussão tanto na esfera real quanto na literária.
Alguns escritores souberam tratá-lo com maestria e produziram obras primas. Citamos o exemplo clássico de Otelo, de William Shakespeare (1603) e de três romances da língua portuguesa: Dom Casmurro, de Machado de Assis (1899), Alves & Cia., de Eça de Queiroz (1925) e São Bernardo, de Graciliano Ramos (1934).
As diversas cores presentes na colcha metaforizam os diversos sentimentos que transitam dentro de uma só pessoa. Quem ama mata? Provavelmente não, mas quem sente ciúmes sim.
Preciso reler mais essa narrativa.

Beijos.

r_ogeri_o disse...

gostei de ler:)

Paradoxos disse...

poderosamente cortante como eu gosto

:-)

beijão em ti, amiga!!

João Videira Santos disse...

Enquanto o sonho não cocretiza a realidade da prosa, voei, poisei e, aqui, deixo a minha presença.

jawaa disse...

Obrigada pela visita, garota de bela escrita. Sabe, a idade descomplica sim, muitas coisas, mas complica noutro lado... Porém devo confessar que não gostaria de voltar para trás a viver o que já vai!
Tenho de voltar aqui com o tempo que não tenho par ler e compreender melhor o enredo. Mas dou-lhe os parabéns pela escrita escorreita que nos prende e leva por ali adiante.
Beijinho

Adriane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Heitor Cardoso disse...

blog de cara nova! :)
eu acho que um cinza cairia muito bem.. mas ficaria muito passivo.
É, um vermelho com branco me parece ideal agora, como aquela provavel sensaçao de paz que a gente sente depois que fluido da vida se esvai.

Enfim, estetica nessas dimensoes sao uma futilidade, e o seu trabalho esta acima disso tudo :) grandes beijos :*

Crisfonseca disse...

Bela postagem, linda ilustração que você deu a tua fantástica prosa. Escrita profunda , sofrida, bela, que resumem em uma só palavra, sublime.
Beijos,
Cris

Srta Laís disse...

Ai Márciaa, eu estou tentando ler tudo do inicio, mas é que não resisto de ver as que vc postou mais recentes...

Você escreve maravilhosamente bemmmm! obrigada pelas visitas!

beijos!

O Profeta disse...

Fecham-se as janelas de poente
Acenderam-se os luzeiros no céu
A cidade desperta para o arraial
Uma noiva procura o perdido véu

Os acordes da Banda no Coreto
Uma tuba marca o compasso
O clarinete dança na calmaria
O Maestro solta gestos no espaço


Bom fim de semana


Mágico beijo

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Ótima porsa a sua, como já disse. Tenho que ter tempo para ler o começo e não ficar muito no ar. mas do que li até agora, dois fragmentos, gostei muito. Fiz uma nova postagem amiga e a dediquei aos nossos patrícios portugueses. É ao estilo das outras duas que vc viu. Estou à sua espera.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
PS: Já chamei o boxeador

Antunes Ferreira disse...

LISBOA - PORTUGAL

Olá!

Cheguei a este blogue através de outros que costumo visitar e neles postar comentários. Cheguei, vi e… gostei. Está bem feito, está comunicativo, está agradável, está bonito – e está bem escrito. Esta é uma deformação profissional de um jornalista e dizem que escritor a caminho dos 67…, mas que continua bem-disposto, alegre, piadista, gozão, e – vivo.

Só uma anotaçãozinha: Durante 16 anos trabalhei no Diário de Notícias, o mais importante de Portugal, onde cheguei a Chefe da Redacção – sem motivo justificativo… pelo menos que eu desse com isso… E acabo de publicar – vejam lá para o que me deu a «provecta» idade… - o me(a)u primeiro livro de ficção «Morte na Picada», contos da guerra colonial em Angola (1966/68) em que, bem contra vontade, infelizmente participei como oficial miliciano.

Muito prazer me darás se quiseres visitar o meu blogue e nele deixar comentários. E enviar-me colaboração. Basta um imeile / imilio (criações minhas e preciosas…) e já está. E se o quiseres divulgar a Amiga(o)s, ainda melhor. Tanto o blogue, como o imeile, tá? Muito obrigado

www.travessadoferreira.blogspot.com
ferreihenrique@gmail.com

Estou a implementar e desenvolver o projecto que tenho para o meu www.travessadoferreira.blogspot.com e que é conferir ao meu/vosso/NOSSO blogue a característica de PONTO DE ENCONTRO entre os Países fraternalmente ligados – Portugal e Brasil. E outros PALOP e etc…
Se me enviares o teu IMEILE, poderei enviar-te «coisas» que ache interessantes. Se, porém, não as quiseres, diz-me que eu paro logo. Sou muito bem-mandado (a minha mulher que o diga…) e muito obediente (cf. parênteses anterior). Abrações e queijinhos, convenientemente repartidos e distribuídos

– Desculpa por este comentário ser tão comprido e chato. Como a espada do D. Afonso Henriques…
- Já conheces o me(a)u «Morte na Picada» que acima menciono? Há quem diga que é muito bom. E até que é o melhor que se escreveu em Portugal sobre o tema. Dizem… Obviamente que não sou eu a dizê-lo… Só faltava… E também há quem tenha escrito que é SANGUE & SEXO… Malandrecos… Pelo sim, pelo não, compra-o.
Depois de o leres, se, por singular acaso, tiveres gostado dele, terás de comprar muitíssimos mais exemplares. São excelentes prendas de aniversários, casamentos, divórcios, baptizados, e datas como Natais, Carnavais, Anos Novos, Páscoas, Pentecostes, vinte e cincos de Abris, cincos de Outubro, dezes de Junhos. Até para funerais. Oferecer o «Morte» na morte fica bem em qualquer velório que se preze. E, além disso, recomenda-o, publicita-o, propagandeia-o, impinge-o aos Amigos, conhecidos, desconhecidos & outros, SARL. Os euros estão tão raros e... caros...
++++++++++++
A editora da obra é a Via Occidentalis (occidentalis@netcabo.pt) cujo site é www.via-occidentalis.blogs.sapo.pt. Neste blogue podem ser consultados mais dados sobre o livro, cujo preço de capa é € 14,70. ATENÇÃO: Pode ser comprado pela Internet.
++++++++++++
NOTA IMPORTANTE: Este texto de apreciação e informação é similar em todos os casos em que o utilizo. Digo isto, para quem não surjam dúvidas ou suspeitas sobre a repetição em diferentes blogues. E para que ninguém se sinta ludibriado – ou ofendido… Há feitios que… Mas, sublinho, apenas o uso quando o entendo, isto é, quando gosto mesmo dos que visito. Nos outros onde também vou, se não gosto, saio sem comentários. Há muitos mais. Aqui na terrinha diz-se que «se não gostas, põe na beirinha do prato…»

João da Silva disse...

O que vou dizer é exclusivamente emocional, até porque um enredo nada tem a ver com o outro. É que li e reli este mosaico, e no meio do caminho me vieram sensações como as que me vieram quando li, de F. Kafka, "The Hunter Gracchus". Se você não tiver lido ainda, e for ler, vai dizer: porra, esse João é louco, enfim, o que têm a ver as duas obras? Mas eu diria: não sei, é emocional, é subjetivo. Um certo gosto na boca, uma certa sensação na alma.
Amei.
Beijos, querida, muitos.

Marcia Barbieri disse...

Renata,
muito obrigada por aparecer sempre e leio tudo na íntegra
Beijos

Luciano,
Obrigado pelos comentários gentis
Beijos e volte sempre

Leandro,
espero que apareça mais e mais
Beijos

Alice,
vc. sabe que adoro suas leituras,te espero na próxima
Beijos

Bia,
obrigada por tudo e postarei com certeza na NA
beijos ternos menina

Ingrid,
seus comentários são sempre pertinentes,volte mais
Beijos

f@,
adoro a sua aúrea...volte sempre e obrigada por me ler e ler o texto
Beijos das nuvens

Rogério
Apareça mais...
beijos

Edu,
fiquei muito feliz que voltou,venha mais
Beijos,amigo

João,
te espero aqui para mais trocas literárias
Beijos

Jawaa,
espero que goste e volte
Beijos

Heitor,
sempre que puder apareça
Beijos e vc. é sempre muito gentil

Cris,
obrigada por ler minhas linhas
Beijos

Srta.Laís
fique à vontade aqui,ficofeliz que esteja gostando
Beijos

Profeta,
um beijo mágico pra vc. e volte
mais

Antunes,
obrigada pela visita e volte mais
Beijos

João,
o intuito da minha escrita é mexer com as sensações,se sentiu isso,acho que estou no caminho certo e se lembrou de autores maravilhosos fico lisonjeada. Volte mais e mais,já tá linkado.
Beijos muitos procê tbém

Ricardo Jung disse...

Não engula mais essa acidez... não deixe que esse veneno se torne imune a você, anjo anjo anjo não se escureça...!!! deixe a César o que é de César e pra nos o que é nosso

Malditos hipócritas sei que os amamos, não mereceriam o paraíso mas ainda assim os damos

Senhor daí-nos o álcool e o frio pra adormecer enquanto vemos nosso amor escurecer com pinga gelo uma revista amém

Marcia Barbieri disse...

Ricardo,
obrigada pela leitura e seus comentários parecem poemas...
Beijos
Marcia