sábado, 14 de fevereiro de 2009

Antes da Ressurreição

Meu corpo adoece, expele fetos
e multiplica as dores dos meus partos inexistentes,
sobre a cama ainda há o sangue sagrado de Abel,
e eu adormeço, embora nua e dispersa.

Acordo e os cães não me esperam mais na porta,
não lambem nem fazem estancar o sangue das minhas velhas feridas.
É madrugada em mim,
espero pacientemente o gozo das manhãs.
A vida é redundante.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 30

Vermes adormecem na minha cavidade ocular. Olho e acredito somente naquilo que não posso ver. As sombras são tão maiores do que aquilo que reproduzem! Mitos e cavernas e Platões confusos. Cegos em procissões. Percorro seus abraços, mãos amputadas, masturbações interrompidas. Caminho com sapatos de bico fino no vazio do seu corpo, enquanto retiro fiapos de solidão que ficaram entre meus dentes. Nosso amor apodrece, se decompõe na minha boca. O gosto e o gozo de tantas noites. Cabeças de medusas. Jardins petrificados. Figueiras morrem secas nos vãos do meu quarto. A casa está vazia, mas ecoa gritos. A velha histérica não cala a boca. Poderia gritar também, romper as vísceras das madrugadas em vigília dentro de mim. Mas sou louca e devoro com voracidade cada palavra que tenta sair da minha mente desvairada. O peixe morre pela boca. É o que todos dizem, não é? Línguas percorrem minha pele. Navalhas afiadas. Formigamentos. Remorsos. Lúcio me toca. Guilhotinas a um centímetro do pescoço. Como enterrar todos meus mortos em cova tão rasa? Sua língua úmida estupra minha boca. Cardumes despencam em minhas ancas. Mergulho e acaricio a dureza dos carvalhos.

Meme proposto por Luciano Fraga

Agradeço pelo meme recebido de Luciano Fraga:
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é O Primeiro Homem de Albert Camus. Na página 161 a 5° frase diz: "Pensam no futuro e esqucem o resto"
Repasso o meme para:

Jenifer
Arabica
Daniel
Ingrid Guerra
Fao

Meme proposto por On The Rocks

Agradeço pelo meme recebido do blog On The Rocks:
1 - Agarrar o livro mais próximo;
2 - Abrir na página 161;
3 - Procurar 5° frase completa;
4 - Colocar a frase no blog;
5 - Repassar pra 5 pessoas.
O livro mais próximo é Fome de Knut Hamsum. Na página 161 a 5° frase diz: "Encaminhei-me de novo para o porto."

Repasso o meme para:

Guru Martins
Heitor Cardoso
Cris Fonseca
JC
Germano Xavier

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 29

Pedras fazem ninhos entre meus rins. Árvores da vida semeadas em terreno pedregoso. Há milhares de histórias inscritas na minha pélvis. Fórceps. Restos mortais de outros homens. E o meu corpo descansa em desafeto. Fetos abortados fora de mim. Felicidades geradas in vitro. As desculpas descansam cínicas em cima da mesa. Poderia cerrar as cortinas e deixar o sol secar a poça que se forma no meu peito, cegar minha vista. Não posso me mover, qualquer passo e esmago as flores ao redor de mim. Fleurs du mal. Rimas raras, versos brancos. Nosso amor é uma estrofe esquecida de acontecer. Poesia marginal em boca burguesa. Fecho o livro, mas as frases não saem da minha cabeça. Você voltou como se nada tivesse acontecido. Pause. A mesma roupa, o mesmo cheiro, os mesmos verbos mal conjugados, a mesma língua... Trezentos e sessenta graus. E para você eu continuo igual, uma equação resolvida, soluções fáceis, números inteiros. E eu me julgo cálculo integral. Rios verdes passaram por mim e não mudaram seu curso. Continuo à margem, contando lírios. Desapego.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 28


Anoitecem cidades dentro de mim. Luzes e carros esmagam meus ossos. Uma pasta vermelha e dolorosa no asfalto. Morros de Emily Brontë não abandonam meus olhos. Revólveres disparam seus gatilhos. Não há como morrer sem se ferir. Sangrias não aliviam minha dor e as sanguessugas não podem ir ao inferno no meu lugar. Balas penetram carnes profanas e desconhecidas. O aço volátil das almas. Meu pai tinha razão: o ciúme é uma coroa coberta de espinhos e não temos a força sagrada de Cristo. Madalenas ressuscitadas procuram abrigo. Fujo. Besouros cobrem as paredes do meu quarto. Zunidos penetram meus ouvidos. Pancadas na nuca. Lúcio não poderia ter voltado, não agora. Meus poros exalam o cheiro de outro homem. Vômitos não curam minha ânsia de mulher vadia. Fenos e grama apodrecem entre os lençóis. Cadáveres dormem na sarjeta, enquanto tento desesperadamente esconder os vestígios da noite anterior. O passado é sujo, nos entrega, uma moeda de duas caras. Sóis de meia-noite rompem minha janela. Eu amo e por amar me corrompo. Sífilis e nascimentos andrógenos. Há algo de imaculado crescendo no meu ventre. Marias e Josés. Rios verdes e aortas. Veia cava, cova no meu peito.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Manhãs em migalhas

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.

Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mosaico de Rancores: capítulo 27

Sinto-me suja e sozinha. Saíram e esqueceram a luz apagada. Tento vestir minha roupa, ela já não me cabe, o passado é uma casca dura e grossa e difícil de remover, é tinta respingada em cimento. Brotam sobre minha carne púrpura ervas-daninhas que precisam ser expurgadas. O barro de que sou feita não sustenta a ira do meu sangue. Jarros trincados. Péssimos oleiros. Os objetos estão nos seus lugares, mas envelheceram, eu envelheci. Camafeus mal esculpidos. Nunca consegui enxergar direções em bússolas. Tomo um banho, dizem que a água tudo cura, não me curou. Tétanos em meu peito. A chave gira do lado de fora da porta. Sinos apodrecem dentro de mim. Enrolo uma toalha sobre meu corpo. Lúcio se aproxima com um sorriso nos lábios, seus risos de infância. Ignorante da epilepsia e dos demônios que tomaram minha alma, ele me beija. Pinturas de Klint. Eu tinha certeza do seu sumiço e agora ele aparece dono de mim e eu procuro os pedaços que me roubaram. Um furto caro e permitido. Diamantes azuis. Rios encharcam a cama e eu faço amor com a facilidade de quem se deita para o sexo. O sol penetra docemente pela janela e espera à margem da cama.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 26

Nossos corpos disputam espaço com os lençóis. É bom sentir o cheiro, o corpo e o gosto de outro homem. Não pergunto seu nome, ele tampouco, nomes não revelam ninguém, ocultam. Ele prende meus pulsos com uma das mãos e percorre a língua por cada centímetro doloroso e imperfeito do meu corpo. Arrepios e gemidos. Meninos quebrando vidraças. É assim que me vejo. Esqueço as cegueiras e as cataratas do meu mundo. Na escuridão os olhos não são bons companheiros e o caçador precisa apenas de bom faro. Ele solta meus pulsos e aperta com força meus quadris, enquanto sua cabeça e sua boca parecem desejar penetrar no meu íntimo. Um nascimento às avessas. Recôncavos e reentrâncias. Salto por cima do seu corpo. Seu rosto desconhecido me atrai. Ele tem ombros largos. Talvez possa segurar o mundo nas costas. Mas agora isso não importa. Deslizo as mãos pelo seu peito e procuro seu sexo. Encaixes. Percorro montanhas e desertos e não saio do lugar. Tempestades assolam casas. Gozos. Amores em conta-gotas. Muralhas da China dividem a cama. Carnavais fora de época invadem as ruas. Beijos de Arlequim. Pierrôs ensangüentados. Um rio verde e calmo deságua em mim e esconde em seu leito grandes moscas azuis. Colombinas e Judas em desalinho.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 25

Não se precisa mais do que um par de pernas indigestas para ser vítima de um assédio. E esta noite tudo que espero é ser devidamente subtraída. Um jogo de sedução no qual não há damas nem reis nem rainhas, apenas xeque-mate e cavalos mansos que se deixam acariciar. Olhos de cegos julgam meus atos. Oráculos não desvendam meu destino. Mandalas giram como cinzeiros encima da mesa. O garçom se aproxima com passos rápidos e certeiros. Um copo de gim. É o que se pede em filmes americanos. Carrego rancores e disfarço. As máscaras vestem meu rosto e são minhas feições mais verdadeiras. Homens passam e devoram pedaços indesejáveis de mim. Ruminantes. Sinto meu coração pulsar através da minha jugular. Tenho litros de amor a oferecer, mas não posso despejá-los sobre qualquer taça. Corda bamba. Cavalos relincham ao meu redor, ignoro. Um rapaz toca levemente minhas coxas e me convida para dançar. Aceito, sei das suas intenções e elas são exatamente as mesmas que as minhas. Suas mãos deslizam sobre minhas costas e tocam meus quadris. Tremo. Elas são macias e quentes e despertam despudores. Gaivotas galopam meu corpo. Dentes perfeitos mastigam minha carne. Peixes nadam em meu umbigo. Um rio verde e calmo explode dentro de mim. Remos me conduzem. Retalhos são sombras de coisas mortas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 24

Meu corpo são cavalos arredios e sem freios, são ladeiras esperando precipícios, suicidas à beira do abismo. Meu ventre inchado ferve e eu espero lavas. Imagino a agilidade das mãos de Lúcio me tocando. Acordes e guitarras. Cifras e letras e posições. Lençóis e retalhos e migalhas de amores amanhecidos. Ele não está aqui e meus dedos parecem frágeis demais. Cafés em xícaras de porcelana. A noite está clara e me oferece mundos fáceis de manejar. Tudo está enquadrado em uma foto que não posso ver. O mundo perfeito das idéias. Enquanto ele cria universos, eu vivo entre marionetes sujas, amputadas e mortas. Anões me observam. Penso no sofrimento que não me fez maior nem mais forte, apenas atrofiou meus sonhos. Sinto a quentura da boca do leão que não me devorou. Angústias oferecidas em copo americano, para ser tomada em grandes goles. Esbarro em pessoas, entro. O bar cheira cigarro, bebida, suor e traição. Judas troca sua vida por dez reais e uma tragada. Sento sozinha na primeira mesa que tropeço. Agora espero paciente uma serpente se enrolar feito venda em meus olhos. Rios verdes deságuam no meu sexo. Guardo nas minhas impressões digitais minúsculas pedras vulcânicas. Desejo mãos imperfeitas devorando e corrompendo meus seios.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 23

Serpentes dançam sensuais em seu mundo. Não me sobra nada além de guizos e venenos. Você não foi capaz de me discernir. Eu não sou a comida que eu vomito, nem sou costurada com a mesma linha imprestável dos meus vestidos. Caracóis saem de suas cascas e riem da minha desgraça. Lúcido, você se confunde com seus flashs, com seus brilhos insuportáveis. Tripés. Lentes sujas. A sala agora tem a dimensão de uma fotografia 3 por 4. Os objetos fogem dos meus dedos, calos enormes atrofiam minhas mãos. Não sou Cristo, não tenho chagas, mas minhas feridas sangram com ardor divino. Não tente apalpar o impossível. Deus tentou me alertar, pena que nunca acreditei em ninguém. Cega. As traves incomodam meus olhos. Olhos na testa. Peixes mortos fingindo vigílias. Insulinas e agulhas, jamais aprendi a conviver com elas. Cateteres povoam meus braços. Morro e a morte cheira álcool e éter. Não posso continuar aqui esperando Lúcio voltar. Talvez ele não volte. Talvez tenha encontrado consolo em outros braços, em mundos menos complicados e exigentes. Um lugar onde as luzes penetrem docemente as janelas e haja violetas e gerânios na varanda. Aqui, a luz é vulgar e indecente e os cactos apenas sobrevivem sugando a fresta da minha escuridão. Pequenas cavernas se escondem no porão. Saio e procuro desejos. Sodoma e Gomorra e minhas ruelas estreitas espremendo vértebras. Alguém que possa tocar a minha pele e me causar arrepios. Um rio verde e tempestuoso escorre da minha boca. Mastigo carvalhos e cuspo flores. Minha vida descansa solene à margem.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 22

Escafandros se afogam no aquário da sala. Tento salvar os peixes, embora eles tenham morrido antes do meu nascimento. Mesmo assim seus olhos vítreos ainda me interrogam sobre mistérios que desconheço. Fósseis e lembranças invadem minha boca. Pequenos milagres assolam o mundo. Ressurreições sempre me incomodaram. Os lírios e o lodo. Era comum meu pai comentar dos mortos como se eles pudessem a qualquer momento pisar os pés frios e roxos na soleira da porta ou ligar o rádio e escutar uma canção. Eu não podia acreditar nos mortos, porém os fantasmas esbarram na minha existência, mastigam meus calcanhares. Parece que levei uma surra, meu corpo dói, minha alma dói, nada em mim germina ou nasce, apenas subtrai. Uma matemática incorreta e perversa. Volumes amontoam-se na insensatez dos meus braços. As fotos de Lúcio continuam penduradas no varal, revelando realidades inconjugáveis. Pierrôs e Colombinas numa quarta-feira de cinzas. A morte faz sentido somente para o florista. Caranguejos amanhecem no meu jardim. O esterco e a rosa. Entro e no meu quarto Caim adormece entre os lençóis. Serpentes nadam no rio verde e calmo que brota do meu ventre.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mosaico de Rancores: capítulo 21

Noites de desespero cego. Cavernas aterrorizam meus sonhos. Permaneço nua e distante. Estátuas de barro, pobres Pietà. Costelas e vísceras de Adão. Meus pés brotam e morrem em pinturas surrealistas. Preciso conter meu choro. As águas rolam e não mudam a direção do vento. Cata-ventos são moinhos sangrentos que escorrem do seu peito. Você não é capaz de mudar o mundo, mas sempre abre fendas nos meus sapatos. Meio-fio, homens abrindo valas e eu carregando os seus mortos, chorando dores que não sinto. Velórios de pequenos crimes. Você parte e me parte em mil. E cada pedaço de mim cavalga em tigres selvagens. Não chego a lugar algum. Os ciúmes e minhas overdoses e meus campos de papoulas devastados. E sua carne crua se misturando à lama e ao lodo de outras carnes. Não posso enxergar, porém sinto o gosto amargo do seu gozo escorrendo indecente em outros seios. Colares de pedras falsas. Jades. Mercúrio e ouro perdidos no mesmo rio verde e insípido. Não posso mergulhar até o fundo. Não posso acreditar na beleza dos corais nem na dureza dos carvalhos. Tampouco posso confiar nos escafandros pendurados nos nossos cabides.